sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Conto à tróis - Parte 3

Trata-se de uma pioneira exeriência na web-literatura brasileira. Em parceria com os consagrados jornalistas Ulisses Vasconcellos e Marcos Oliveira, participo do projeto Conto à tróis. Consiste na narração de uma história dividida em três capítulos, sendo cada um deles feito por um escritor diferente e postado no seu respectivo blog.

O que você vai ler abaixo é o desfecho do conto Amor de coletivo. O fractal de abertura é de autoria do Ulisses e o segundo ficou por conta do Marcos. Para saber como a história começou, o link é esse: Issoqueeufalei. A sequência está em Cueca e Meia .



Já tive mulheres de todas as cores...

Fábio, inocente, havia anotado em um bloquinho algumas dúvidas que esclareceria previamente com o amigo pegador. "E se a Gláucia perguntar sobre a minha profissão? Especialista em Engrenagens Automotivas? Será que cola?". Precisava dos conselhos do companheiro, mas só ouviu gozações. Ganhou até um comprimidinho azul de presente. Com a validade suspeita, mas ele, inseguro, acabaria tomando mesmo assim. "Não conseguirei me virar sozinho! Cabelo com gel ou ao natural? Convido a mina para o bar ou a levo ao cinema? Tento beijá-la logo após a primeira taça?"

Procurou, sem sucesso, por Nestor, na saída do trampo. Foi à recepção, ao banheiro, e ao lugar predileto do comparsa: a sala da imprensa, de onde brotavam estagiárias safadas e ociosas. Não havia mais tempo. Dispendeu o equivalente ao salário de um dia para voltar de táxi do serviço. O porteiro da fábrica foi quem informou: Nestor estaria embriagado, em um happy hour com as meninas do RH. Esquecera-se do combinado, ou não dera a mínima. Fábio pensou em chorar de desespero, mas foi covarde até para isso. "Cretino, me deixou na mão" - jogou no lixo o bloquinho.

Chegou em casa às pressas, banhou-se e perfumou-se como nunca. Saiu novamente e largou a porta entreaberta. Dali a alguns instantes chegaria o coletivo 003, dentro do qual, religiosamente, encontrava-se Gláucia, quase imperceptível no fundo do carro, pendurada ao celular, olhando sempre para baixo.

Antes de embarcar, o solitário pretendente resolveu experimentar uma dose de audácia. Aliás, quatro. Caprichadas, daquela aguardente vendida no simpático buteco da sua rua. Não bebia desde a adolescência. Desde então, também, não cortejara garota alguma. "Um pouco mais de coragem" - refletiu. Começou a cantarolar um samba do Martinho para ver se relaxava: "Já tive mulheres... de todas as cores... de várias idades... de muitos amores..."

Subiu no 003, como era de praxe três vezes a cada semana. Sentou-se na penúltima poltrona. Contou três, cinco, sete paradas do itinerário e ela não veio. Nem o cheiro singular da sua deusa desconhecida foi percebido. Insistente, Fábio desceu no mesmo ponto onde corriqueiramente ela desembarcava.

Teria ela se antecipado justamente hoje? "Alguém por aqui conhece alguma Gláucia?" - indagou, sem direção. Desorientado, andava em zigue-zague. À meia distância, sob a luz de um poste, foi enfim avistada uma senhorita, de costas, um metro e sessenta, cabelo marrom, na altura do ombro. E os inconfundíveis cachos nas pontas.

Curiosamente, a donzela, outrora de pele tão alva, estava ligeiramente... verde.

"Gláucia!" - cutucou, mas ela não respondeu. GLÁUCIA! GLÁUCIA! GLÁUCIAAA!!!

O próprio grito foi o que fez Fábio despertar. Ainda eram nove da noite e o rapaz se encontrava num balcão de buteco, despenteado e exalando um odor estranho. As quatro generosas cachaças, reagidas com a pílula de Viagra vencido, o haviam feito desmaiar, sonhar e delirar sem ter saído do lugar.

No seu celular ainda tocava a mesma música em formato MP3. Durante o porre, Fábio havia acionado a função Repeat. Por isso, o timbre rouco e malandro de Martinho da Vila seguia entoando: "Procurei... em todas as mulheres a felicidade... mas eu não encontrei, fiquei na saudade...".

1 comentários:

  1. Tinha imaginado um desfecho em que a moça simplesmente desapareceria, mas gostei muito do seu. Talvez ficaria melhor se o capítulo dois desenrolasse um pouco mais a história. Assim você trabalharia apenas o "encontro".

    Abraço!

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