sexta-feira, 4 de novembro de 2011

2º Conto à trois

Coube a mim introduzir o 2º Conto à trois. Para quem não sabe, é uma historinha compartilhada entre três autores. Além de mim, participam o Ulisses Vasconcellos e o Marcos Oliveira. Cada um escreve um capítulo, postado no seu respectivo blog.

Para saber como o conto abaixo continua, acesse o Isso que eu falei. O desfecho está em Cueca e Meia.


O aniversário do Doutor Pantaleão

O aniversário do Doutor Pantaleão era historicamente o evento mais badalado da pequenina cidade de Pica-paus, nos confins do sertão nordestino.

Todo 1° de novembro, cerca de cinco centenas de convidados se esbaldavam com absurda fartura na mansão do renomado cirurgião. Barris e mais barris de chope, boi no rolete, churrascada, seresta, bailão e mais tudo o que há de bom. A festança virava a noite e atravessava o dia seguinte, feriado de Finados.

Sempre pintava um governadorzinho de Estado e alguns deputadozinhos na balada. O convite também chegava infalivelmente ao endereço dos mais enricados empresários da região. Esculturais mulheres, rigorosamente recrutadas na capital por Cardoso – o sobrinho fanfarrão do aniversariante – compunham quase a metade da lista de presença.

Este ano não foi diferente. Ou quase.

A equipe de TV já tinha em mãos a credencial para superar a portaria de luxo, onde reinava a imponente estátua de um pica-pau. Singelas recepcionistas, acompanhadas de seguranças que mais pareciam armários, zelavam pelo ingresso dos privilegiados convidados. Lá estava também a revista de fofocas e alguns colunistas sociais.

Como de praxe, o casarão ficou lotado. Lá pela meia-noite, três playboys já nadavam de paletó na piscina. Um fazendeiro cismado a tenor dava uma palinha ao microfone. Alguns negociantes firmavam colossais acordos verbais, a serem negligenciados quando a cachaça passasse. Os forrozeiros davam show. E tome cerveja, desce vinho, uísque, champanhe.

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No meio da madrugada, o anfitrião de 60 anos recém-completados trancou-se no banheiro e lá permaneceu durante quase uma hora. Um dos raros lúcidos àquela altura, o amigo Pascoal foi quem se atinou: descolou uma chave reserva e abriu a porta.

Doutor Adolfo Celso Pantaleão das Luzes estava no chão, molhado, com a língua azul. E sem respirar.

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