É inegável que o ser humano vive
em um estado de sobressalto constante,
uma vez que a "indesejada das gentes"
não marca hora nem manda aviso.
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Para quem ainda não sabe, tenho empreendido esforços na elaboração de um caderno de encargos para a viável (e necessária) refundação da existência de tudo, como a conhecemos. Na PARTE UM, dediquei-me à questão da dignidade estética e social inerente à velhice, que precisava de um upgrade.
Agora urge atacar o mal que corrói o espírito humano com mais ferocidade do que qualquer outra coisa: o medo da morte. Pretendo, pois, dar cabo da angústia ontológica relativa à incerteza que temos quanto a estar vivo no dia de amanhã. Afinal, a sabedoria dos frequentadores de velório nos ensina que "para morrer, basta estar vivo", não é mesmo? E isso, sim, assombra a gente de montão.
É inegável, portanto, que o ser humano vive em um estado de sobressalto constante, uma vez que a "indesejada das gentes", como dizia o poeta, não marca hora nem manda aviso. Seguimos como quem caminha no escuro, tateando o futuro sem saber se o chão termina no próximo passo ou daqui a oitocentos quilômetros.
Tal conjuntura, convenhamos, é um erro grosseiro de design. Por isso, apresento aqui um esboço da segunda alteração nuclear que intento para a recriação do homo sapiens e de todo o seu quintal.
Tal conjuntura, convenhamos, é um erro grosseiro de design. Por isso, apresento aqui um esboço da segunda alteração nuclear que intento para a recriação do homo sapiens e de todo o seu quintal.
Vem comigo.
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A proposta é de uma simplicidade técnica constrangedora para alguém onipotente como o Criador: todo bebê nascerá com uma marca indelével a partir da palma da mão esquerda em direção ao antebraço. Não se trata de uma dessas linhas confusas que os quiromantes fingem decifrar, mas de uma "linha de vereda" nítida, pulsante e, acima de tudo, precisa. Um traço luminoso que, conforme os dias se passarem, irá se retraindo gradativa e uniformemente. Isso tornará possível, desde o parto, calcular o dia, a hora e o minuto em que o fôlego cessará. Nada de surpresas, nem de fatalidades inexplicáveis. Apenas a transparência absoluta do destino biológico.
Mas alguém poderia se espantar, insanamente:
— Isso é terrível!
— Muito pelo contrário! – eu retruco. Terrível é a dúvida. A clareza é a mãe da organização e a madrinha da paz de espírito.
— Muito pelo contrário! – eu retruco. Terrível é a dúvida. A clareza é a mãe da organização e a madrinha da paz de espírito.
No meu mundo redesenhado, a sociedade operaria com sensatez praticamente infalível. A engenharia humana que proponho transformaria o caos em coreografia.
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Posso começar descrevendo a vocação de meu novo sistema ao combate à procrastinação, companheira traiçoeira de quase todos nós. O ser humano, nos dias de hoje, deixa suas tarefas para amanhã porque nutre a ilusão de que o amanhã é infinito. Mas atento ao iminente desaparecimento de sua "linha de vereda", o homem médio vai agregar urgência elétrica àquele livro que nunca foi escrito, àquela viagem nunca viajada ou àquele pedido de perdão nunca pronunciado. A humanidade produzirá muito mais arte, amor e reconciliação se puder ver o pavio da vela diminuindo em tempo real, não restam dúvidas.
A iniciativa inclui também benefícios para os pretensos casos afetivos. Antes do primeiro beijo, o casal terá a oportunidade de comparar suas palmas. Se a linha dela termina aos 90 e a dele aos 42, ambos entram na relação sabendo que projeta-se um longo período de viuvez – ou decidem, por mútuo acordo, buscar alguém com prazo de validade mais compatível, para que possam apagar as luzes juntos.
Visando atender àqueles que se amarram em esportes radicais, mas tremem de medo de se esborrachar, apresento, pois, o cardápio de benesses. Se sua linha lhe garante mais trinta anos de vida, salte de qualquer penhasco com a certeza absoluta de que o paraquedas abrirá. (O perigo é apenas um parque de diversões para quem conhece sua própria invulnerabilidade).
A domesticação da morte, por sinal, é a mais significativa caridade intrínseca à minha ideia. No modelo atual, a partida de alguém é um rasgo súbito, um susto que deixa pelo caminho pendências, frases não ditas e inventários complicados.
Visando atender àqueles que se amarram em esportes radicais, mas tremem de medo de se esborrachar, apresento, pois, o cardápio de benesses. Se sua linha lhe garante mais trinta anos de vida, salte de qualquer penhasco com a certeza absoluta de que o paraquedas abrirá. (O perigo é apenas um parque de diversões para quem conhece sua própria invulnerabilidade).
A domesticação da morte, por sinal, é a mais significativa caridade intrínseca à minha ideia. No modelo atual, a partida de alguém é um rasgo súbito, um susto que deixa pelo caminho pendências, frases não ditas e inventários complicados.
Meu ideal é que não exista mais choro desesperado nos hospitais. No lugar da sensação de interrupção que nos acomete, aceitaremos o fim da vida como o cumprimento de um cronograma. Um paciente terminal com sua "linha de vereda" bem curtinha, diga-se de passagem, poderá dispensar a cirurgia invasiva e a decorrente recuperação dolorosa. O foco será restrito, assim, no conforto absoluto em seus dias derradeiros.
Na minha realidade redesenhada, o sepultamento será programado com a mesma naturalidade de um jogo de peteca no clube. O indivíduo, sabendo que seu tempo se extingue na próxima terça-feira, às 15h, organiza a própria festa de despedida. Seleciona as flores, escolhe o repertório musical, quita as dívidas e abraça cada neto com a serenidade de quem faz o checkout de um hotel. A morte deixará de ser uma tragédia para se tornar um evento de agenda.
Na minha realidade redesenhada, o sepultamento será programado com a mesma naturalidade de um jogo de peteca no clube. O indivíduo, sabendo que seu tempo se extingue na próxima terça-feira, às 15h, organiza a própria festa de despedida. Seleciona as flores, escolhe o repertório musical, quita as dívidas e abraça cada neto com a serenidade de quem faz o checkout de um hotel. A morte deixará de ser uma tragédia para se tornar um evento de agenda.
E se o Criador me permitir a ousadia de detalhar ainda mais o plano, aqui estão os argumentos suplementares que tornam as diretrizes do novo mundo ainda mais irrefutáveis:
Com a clareza do tempo restante, as cidades passarão de aglomerados caóticos para engrenagens de eficiência existencial. Serão projetadas áreas urbanas para o público de "pouca linha": parques abertos 24 horas por dia, estabelecimentos com banquetes desregrados, celebrações diárias, sem descanso. Já os "longas-linhas" habitarão zonas de arquitetura perene, com árvores de crescimento lento e bibliotecas monumentais.
Ninguém investirá numa mansão para durar cinquenta anos se a palma da sua mão lhe avisa que a estadia terrestre termina em cinco. As casas serão transmitidas com dia certo, e o mercado de aluguéis se baseará no crédito biológico, em vez do crédito bancário.
O atual sistema de ensino, que obriga todos a estudarem as mesmas coisas pelo mesmo período, também cairá por terra. No meu universo reescrito, o diploma será proporcional à expectativa de sobrevivência. Uma criança cuja linha aponte apenas vinte primaveras não será desperdiçada em longas jornadas de álgebra abstrata ou decoreba burocrática. Ela será direcionada às áreas de artes, entretenimento, turismo e outras capazes de proporcionar realização imediata. Já os predestinados à velhice serão os guardiões do conhecimento denso: estudos sobre políticas de longo prazo e outras ciências que exigem décadas de maturação.
Nesse sentido, minha plataforma garante a simplificação da rotina de contratações nas empresas. Ao selecionar um CEO para um plano decenal, valerá uma olhada na palma do candidato. "Sinto muito, Geraldo, você é muito foda, mas sua linha termina em dezoito meses; não teremos tempo para a transição". Por outro lado, as missões mais longevas e vitais serão delegadas àqueles que ostentam linhas em aparente avanço intrépido rumo ao sovaco.
Obviamente, o vício em acumular patrimônio vai perder o sentido para quem vir sua linha se recolhendo ao centro da mão esquerda. Ao constatar que lhe restam apenas dois anos, o indivíduo naturalmente começará a distribuir seus livros, suas roupas e suas moedas, ingressando em uma fase de desapego absoluto antes da partida.
Obviamente, o vício em acumular patrimônio vai perder o sentido para quem vir sua linha se recolhendo ao centro da mão esquerda. Ao constatar que lhe restam apenas dois anos, o indivíduo naturalmente começará a distribuir seus livros, suas roupas e suas moedas, ingressando em uma fase de desapego absoluto antes da partida.
A celebração do último pôr do sol, do último banho de mar, da última conversa com o filho... nada disso passará despercebido. Cada última vez será vivida com intensidade ritualística. A partida será um ápice de consciência, em vez de um apagão acidental.
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Podem alardear por aí: a "linha de vereda" tende a nos devolver o controle sobre nossa própria narrativa. Num mundo onde cada ser humano caminha sabendo exatamente quanta estrada lhe resta, não se perderá tempo com bobagens. Ninguém brigará no trânsito se seu saldo for de apenas mais três dias de sol. Ninguém irá armazenar um vinho caro por dez anos se a linha da mão indicar que o prazo expira no próximo carnaval. O domínio sobre o fim vai otimizar a nossa entrega ao agora.
Podem alardear por aí: a "linha de vereda" tende a nos devolver o controle sobre nossa própria narrativa. Num mundo onde cada ser humano caminha sabendo exatamente quanta estrada lhe resta, não se perderá tempo com bobagens. Ninguém brigará no trânsito se seu saldo for de apenas mais três dias de sol. Ninguém irá armazenar um vinho caro por dez anos se a linha da mão indicar que o prazo expira no próximo carnaval. O domínio sobre o fim vai otimizar a nossa entrega ao agora.
Encerro aqui, bastante satisfeito, o registro para a posteridade divina. Se for preciso mais detalhamento sobre a pigmentação da linha ou sobre como evitar falsificações por meio de tatuagens, estarei, como sempre, disponível para a busca de soluções nesta vasta rede informativa em que estamos inexoravelmente metidos.
E é isso.

