quinta-feira, 12 de março de 2026

Linda como uma santa

Àquela altura da nossa relação de dez meses, já tínhamos estabelecida uma aliança sagrada, dessas que os casais maduros selam com promessas de ascese, abandono dos vendavais e fogos efêmeros. 

Conforme o combinado, a gente entraria, então, no ano novo, sob o signo de algumas virtudes que elegemos para a família que planejávamos um dia formar, eu e minha dona. Nossa virada de ano seria passada dentro da igreja, assim determinamos, e tal seria o pontapé inicial do ciclo que, pretensamente, começaria eivado de propósito. 

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Às 22 horas, no entanto, o cordeiro da nossa devoção já havia sido sacrificado. 

Ao abrir a porta da sala, recebi a minha amada que chegava — e qual foi minha visão de apócrifo encantamento! Ela, abraçada a uma garrafa de vinho agonizante, equilibrava-se no precário altar de suas pernas. Já havia consumido sua própria ceia particular diretamente no gargalo, em rito de profanação.

Ela… estava… desconcertantemente… linda! Linda como uma santa em êxtase. Barroca, quase beatificada. Reluzia um colar prateado e brincos de prata que eram estilhaços de um resplendor partido. Seu suave perfume de jardim sitiava o hálito de uva fermentada. 

Diante de mim, a princesa apaixonada que eu rogara a Deus tantas vezes! A princípio, tentou justificar o atraso e também o sumiço do celular — mas o vinho tinto já havia embolado seu idioma, como em Babel. O telefone, por sinal, jazia, normal, no bolso da calça.

Antes de partirmos para o culto cristão, ofereci-lhe uma indulgência: a galheta da transgressão por duas latas de energético — extrema-unção taurina — e um copo generoso de água. Aludia, de um jeito invertido, ao Mestre, em Caná, que transmutara a água para salvar o festejo. Eu, por minha vez, tentava a façanha contrária: desperdiçar a uva milagrosa por bocados de sobriedade. Ela aceitou minha sugestão com a resiliência de uma freira tímida. Ao mesmo tempo em que soluçava, declarava-me seu amor em cântico de vertiginoso afeto. 

Com caridade apostólica, tentei exortá-la: 

— Querida... bebe logo essa água. A gente tem um plano pra virada de ano, lembra?

Assentiu com sensatez mimetizada e, por um instante, pensei ter visto nela o clarão da graça. Mas a trégua redentora foi breve. A beldade me olhou com olhar sibilino, meio amedrontado, e despejou sua heresia: 

— Você é ele?

“Lascou de vez” — pensei, bastante perdido. Então agora eu não seria eu, mas um ele genérico? 

Desconfiei de algum fantasma dela de calvários passados, o qual era revivido inoportunamente por causa da embriaguez. Senti os espinhos do ciúme cravarem-se em minha vaidade. Ser confundido naquelas circunstâncias me custaria carregar a cruz da paciência. Eu quis gritar meu nome: “Sou o Matheus, não o evangelista, e sim o seu escolhido, ora!”

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Mas, enfim, já era chegada a hora de ir para a igreja. 

Conduzi minha anja abatida ao banco do passageiro, do meu lado direito. No caminho, ela passou a habitar um limbo: ria de qualquer coisa interna sem sentido e discutia com legiões de seres invisíveis. 

Foi então que despencou do céu uma chuva brava, dramática tal qual praga do Egito. Minha santa abriu o vidro e ofereceu uma face, e também a outra face, ao castigo da natureza. (Logo ela, que costuma guardar a própria têmpora com o zelo de um fariseu, então sorvia a tempestade como quem acolhe o batismo derradeiro antes do soar das trombetas. Descabelando toda. Borrando a maquiagem).

Quinze minutos foram decorridos, e chegamos ao templo onde, semanalmente, minha deplorável alma suplica por misericórdia. Aquela congregação jamais havia visto uma fiel tão pendular quanto a minha princesa. No púlpito, o pastor discorria sobre a anunciada volta de Jesus. Do lado de cá, ela buscava meu ombro para um arrebatamento etílico. A cada vez que ensaiava uma queda, eu a resgatava com sermões discretos ao pé do ouvido. 

Nessa toada, fomos orando as preces de boas-vindas ao novo ano. Minha angelical ovelha perdida se sustentava agarrada ao meu braço, como se ele fosse a única viga viva de um santuário em ruínas. 

Quando os ponteiros se tocaram no ápice da meia-noite, a igreja de Deus explodiu em glórias e aleluias. Sob os fogos que riscavam o firmamento parecendo serafins luminosos, eu apoiava o corpo ébrio da minha linda: o peso do seu pecado inocente, ornado de seda e paetês. Em resposta, ela sussurrava palavras ininteligíveis de ternura, e também pedia comida. 

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Ao fim da celebração, saímos da igreja, quase ilesos. No interior do meu automóvel, o silêncio intercalava com a respiração pesada da minha Eva: sonolência de querubim exausto que sobrevivera ao apocalipse. 

Transpus o umbral de casa conduzindo a deslumbrante deusa trôpega. Convinha recomeçar o ofício de cura: doses de cafeína e de chuveiro quente. Entre um gole e outro de sanidade forçada, percebi a noviça rebelde a recobrar sua dignidade.

Algumas horas depois, o prodígio parecia despontar: ela já não balançava. Estava quase... redimida. 

Respirou fundo, e aquela bruma de incenso profano finalmente se esvaiu. Havia em seu rosto um semblante de iminente confissão. Segurou minha mão, solenemente e, pela primeira vez, conseguiu articular uma boa frase: 

— Foi mesmo uma noite atípica, né?

Suspirei aliviado. Ela enfim se via à luz da conversão. Fitou-me com expressão de madona, como quem prepara um salmo de arrependimento póstumo, e notou: 

— Os olhos do meu homem não mentem. Ele está aborrecido.

Houve um instante de silêncio augusto. Ajustou o cabelo com a elegância de uma abadessa, como se fosse desvelar o mistério da fé. Assertivamente, ela arrematou:

— Já sei por que você está tão sério. É porque não está bêbado.

Selou sua sentença com um beijo de pasta de dente e repousou o sono dos justos, ali mesmo no sofá, abandonando-me pendurado no madeiro seco da minha lucidez.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Doloridos Anônimos

O subsolo da Igreja de Santo Afonso de Ligório (que, para quem não sabe, é o padroeiro da artrite e do reumatismo) exalava uma fragrância híbrida de dispensa hospitalar e roupa velha guardada: a estocada picante da naftalina sulcava a doçura refrescante do Vick VapoRub. Era ali que os Doloridos Anônimos se reuniam.

A logística do encontro consistia em um desafio de ergonomia. As cadeiras de plástico haviam sido banidas por serem moles demais; faziam o corpo afundar e a coluna curvar-se desenhando um anômalo C. As de madeira, por sua vez, eram "instrumentos de tortura medieval para o ciático", na descrição da Dona Eunice, uma espécie de secretária informal do grupo. A solução democrática foi alcançada com almofadas de espuma da Nasa, que cada um trazia de casa.

O som ambiente contava com um coral rítmico de estalidos que seguiam a seguinte gradação: clack, cleck ou crock! Eram joelhos, pescoços e vértebras berrando contra o mundo, em uma sinfonia de desgaste mineral.

À frente do semicírculo, Seu Ademar observava os demais com a respiração experiente de um general que já perdeu muitas batalhas para a artrose. Ele pigarreou, com cuidado para não tensionar o trapézio, e proferiu seu relato de abertura, com voz resignada:

— Bom dia, grupo. Sou o Ademar, e hoje... hoje eu não consegui amarrar o cadarço sozinho. Tive que usar o calçador de cabo longo. Mesmo assim, a meia ficou torta.

A resposta veio em uníssono fúnebre; um lamento coletivo que demonstrava empatia:

— Bom dia, Seu Ademar… nós sentimos muito...

Em seguida, uma senhora de coque levantou o dedo com a lentidão de quem se protege de um pinçamento cervical.

— Bom dia, grupo. Sou a Dona Alzira e... — ela fez uma pausa dramática, buscando o oxigênio que parecia lhe faltar desde 1994 — ... hoje, pela primeira vez em seis meses, eu tentei espirrar.

Um frenesi geral percorreu a sala. Espirrar era atividade de alto risco naquele subsolo.

— E senti a reverberação desde o calcanhar, subindo pela panturrilha, explodindo na L4 — Dona Alzira prosseguiu. — Minha visão escureceu por dois segundos. Quando recuperei o sentido, pensei em ligar para o Samu. Mas, durante cerca de dez minutos, fiquei travada em ângulo de 45 graus, completamente impotente.

Houve um regozijo solene. O caminhar manco de Dona Alzira era a estratigrafia de suas lutas — um rastro de obstinação que a definia como uma senhora venerável e digna de todas as honras.

Foi então que o Seu Belisário, o membro mais antigo, cuja espinha dorsal tinha o formato exato de um ponto de interrogação, pediu a palavra.

— Bom dia... — a voz era um sussurro de lixa na pedra. — Ontem foi o aniversário da minha neta. Três aninhos. Ela correu na minha direção, com seus braços gordinhos, gritando: "Vovô!"

O grupo inclinou-se para frente, antecipando a tragédia.

— Quando ela pulou no meu colo, ouvi o barulho de cristais se quebrando dentro do meu tórax. Caí de joelhos. Enquanto ela ria, rastejei até o sofá, deixando um caminho de gel de arnica ao longo do tapete de fios egípcios da minha nora. Passei a noite sobrevivendo à base de morfina, mas bastante grato por ainda estar... em pedaços.

Houve um segundo de meditação sagrada. Então, um por um, ignorando os protestos dos meniscos e os reclames dos nervos isquiáticos, os Doloridos Anônimos se levantaram e o aplaudiram de pé.

Tal ovação era interrompida apenas, de quando em quando, por alguns gemidos de "ai" e "ui" — que agregavam ainda mais musicalidade aos aplausos! Seu Belisário era o herói que todos aspiravam ser: o mártir supremo da ortopedia.

Foi nesse clímax de glória e decrepitude que um jovem, ajustando a mochila nas costas, levantou a mão. Ele tinha a postura corporal insultuosamente ereta. Com a voz firme de quem ainda era um ser humano cheio de esperanças, o rapaz se apresentou:

— Bom dia, pessoal. Eu sou o Tiago e... bem, eu trabalho muito no computador, e meu ombro direito está me matando. Acho que é o mouse, sabe? Uma pontada que desce até o cotovelo...

Um constrangimento quase sinistro assombrou a sala. Dona Paulina ajeitou seus óculos de leitura para enxergar melhor aquele amador. Seu Teixeira suspirou como quem vê um recruta tentando ensinar estratégia a um veterano de guerra.

— Ombro, meu filho? — debochou o Geraldinho, do fundo da sala, por baixo de seu boné de propaganda de político. — Escute aqui: o que você tem é só frescura de escritório.

A Tia Creuza, uma amável professora de crianças, também fitou Tiago com rigor maternal, como se ele mesmo fosse um de seus rebentos.

— Dorzinha muscular? Isso a gente resolve com um banho quente, rapaz — sentenciou ela, enquanto batia com o dedo indicador em uma pasta de exames que mais parecia uma enciclopédia. — Se o seu laudo médico não acusa três hérnias de disco extrusas, você é apenas um turista na dor — arrematou, com a superioridade de uma mãe que adverte seu menino.

Ato contínuo, emergiu a voz rouca de Seu Moacir, conhecido naquelas bandas como o sommelier de remédios. Ele nem queria dar testemunho de sofrimento, mas apenas se gabar da resistência heroica do seu organismo à química moderna.

— Ontem mesmo tomei um relaxante muscular que, segundo o farmacêutico, derrubaria um cavalo em cinco minutos. Sabe o que aconteceu comigo? Dei um bocejo e continuei assistindo ao telejornal, escorado em uma pilha de almofadas e com as mãos cravadas nas coxas. Meus receptores têm princípios, não se vendem por qualquer miligrama...

Olhares admirados brilharam no recinto. Seu Moacir era uma referência naquele grupo.

Tiago, o novato do ombro do mouse, intrometeu-se novamente, tentando se redimir pelo seu vergonhoso vigor físico e, desesperadamente, ser reconhecido como “útil” no bando.

— Mas gente... eu estava pensando... O doutor Arnaldo abriu um consultório ali do lado da padaria. Ele é especialista em coluna e articulações. Por que a gente não marca uma consulta em grupo? Talvez ele resolva todas as nossas inflamações! Não seria maravilhoso? — Tiago dirigia a argumentação para cada um de seus interlocutores, buscando uma migalha de aprovação.

O silêncio instalou-se com a gravidade de um pecado mortal. O ar no subsolo da igreja pareceu congelar, paralisando até os vapores de cânfora. O olhar de Dona Madalena para Tiago sinalizava uma traição profunda, como se ele tivesse entregado Jesus para os soldados romanos, ou como se ele tivesse declarado que não gostava do Sílvio Santos.

Para aquele grupo, o doutor Arnaldo não seria cogitado como um messias; mas era a ameaça máxima. Ir ao médico significava a possibilidade real da cura. E a cura, para os Doloridos Anônimos, decorreria no exílio. Se as dores sumissem, sobre o que falariam durante as refeições em família? Do que se queixariam quando encontrassem um velho conhecido na esquina? Como viveriam sem expressar seu infortúnio ao subir qualquer degrau?

Sentindo que a ordem estava em risco, Seu Ademar pigarreou para encerrar a sessão, antes que a heresia da saúde se espalhasse.

— Bom, grupo... por hoje é só. Vamos manter o foco na nossa... condição.

A reunião terminou de imediato. Visivelmente tomada pela decepção, a Guilhermina tentou se levantar para se mandar dali o mais depressa possível. Desaforada e imprudente, ela deu um impulso súbito, fulminante e desafiador. Um crock agressivo ricocheteou pelo salão, seguido de um "Aaaainn!" agudo que subiu até os céus.

Em vez de susto ou de preocupação, prevaleceu uma atmosfera de puríssima cumplicidade no subsolo da igreja.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Ideias para o mundo começar de novo – PARTE TRÊS

A pele alheia é o território mais remoto em relação ao nosso próprio sistema nervoso. Vivemos ilhados em biotipos autônomos, e esse isolamento, convenhamos, é um erro de cálculo monumental.

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Nos primeiros dois fractais, propus o equacionamento da pátina olfativa da senescência e contemplei, também, o acolhimento à previsibilidade do fim da vida como providências essenciais para uma oportuna hipótese de reinvenção de toda a existência como a conhecemos. (Admito que ainda não sei muito bem como faremos para recomeçar, mesmo assim, vou tocando o projeto).

Até então ninguém reclamou ou se opôs à minha iniciativa, o que me encoraja a tentar emplacar mais uma sugestão para o recomeço de tudo. É chegado o momento, pois, de atacar a falha de hardware da humanidade que permite que um indivíduo tiranize seu semelhante sem sofrer o impacto imediato em sua própria carcaça. (Lembremos que, no modelo vigente, a empatia é uma mera opção moral, um artigo de luxo ético. E o histórico do homo sapiens revela que somos péssimos gestores de nossas escolhas).

O problema reside na estanqueidade sensorial. Na versão original da vida, posso desferir um golpe contra alguém e, enquanto seu arcabouço biológico entra em colapso, o meu segue tranquilo, emitindo sinais de satisfação dopaminérgica. Existe hoje um firewall orgânico que protege o agressor; uma blindagem que mantém a crueldade como um negócio de baixo custo para quem a pratica. Ou seja, nossas sinapses conhecem bem a fronteira do nosso restrito corpo – mas, claro, a sensibilidade estanca ali. Não somos aptos, por causa de uma evidente preguiça de design da natureza, a experimentar o que está além de nós mesmos.

Portanto, é inegável que a pele alheia, invólucro que encerra o outro, é o território mais remoto do nosso próprio sistema nervoso. Vivemos ilhados em biotipos autônomos, e esse isolamento, convenhamos, é um erro de cálculo monumental de fábrica. (Nesse ponto, devo reconhecer que a Criação acertou com os sistemas fúngicos e enxames de insetos. Se nosso mecanismo fosse modelado em rede como o deles, o tormento de um indivíduo teria que ser digerido também pelo outro, o que soaria perfeito. Por enquanto, tá tudo errado mesmo, mas creio que dá pra corrigir).
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Já introduzi o bastante e posso, por essas e outras, apresentar, enfim, mais um itinerário para o mundo começar de novo: a Rede de Ressonância Somática.

Trata-se de uma engenharia de sistemas primorosa, que consiste na unificação dos terminais nervosos da espécie humana. (Quando sair do prelo a próxima edição da existência, espera-se que o Criador implemente um protocolo de espelhamento de estímulos. Aí é com Ele).

Eu explico: na minha realidade disruptiva, se você, por exemplo, acionar o gatilho de um revólver carregado na direção do coleguinha, notará a bala assassina perfurando seu próprio tórax na mesma fração de segundo em que o projétil atingir o alvo. A dor deixaria, assim, de configurar um evento privado, enclausurado na percepção de quem sofre, para transmudar-se em uma relação simbiótica, compartilhada também pelo opressor.

Imagine o impacto desse novo código nas engrenagens da civilização.

O setor de segurança pública restará extinto por total vacuidade de objeto. Assaltos reputar-se-ão logisticamente inviáveis. (Como alguém irá se meter a roubar se o pavor da vítima provocar uma síncope paralisante no malfeitor?). As guerras, desperdício estúpido de fôlego e aço, alcançarão seu desfecho antes do café da manhã: no primeiro disparo de artilharia, os generais, protegidos em seus bunkers climatizados, sentirão o estilhaço rasgando-lhes as vísceras e assinarão o armistício com as mãos trêmulas de agonia.

No trânsito de qualquer metrópole ruidosa, a cortesia subsistirá como a única linguagem possível. Fechar um motorista ou proferir um insulto irá gerar uma descarga de irritação gástrica súbita no infrator. Como fruto dessa lógica, colheremos um balé de gentilezas sobre rodas, movido não por um altruísmo angelical, mas pelo mais puro instinto de preservação. A Rede de Ressonância Somática transformará os hospitais em templos de acurácia. Um cirurgião, ao realizar um corte, sentirá tanto o fio da lâmina quanto o alívio da cura, o que ensejará seu zelo absoluto. Por sua vez, um professor, ao negligenciar a dúvida de um aluno, perceberá o vazio do não-compreendido corroendo-lhe a própria mente.

Sob essa nova égide, enfim, todo tipo de violência ou menosprezo tipificará, tecnicamente, um suicídio assistido. Acho que fui claro.

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Para catapultar a solidariedade nas avenidas e nos lares, a matemática da coisa, além de punitiva, será também distributiva. (Segundo essa metodologia, o mal se propaga como pane geral. Nos micélios fúngicos, por exemplo, a ameaça em uma extremidade ativa respostas protetoras em todo o labirinto de filamentos – e o ponto causador não fica imune ao refluxo. O comportamento cessa por causa da biologia de rede, e não por nobreza de caráter. Afinal, agredir o tecido comum equivale a sabotar a própria sobrevivência).

Isso significa que, além do ônus previsto para quem se arriscar a destilar hostilidade ou sair descendo a porrada por aí, haverá complicações parecidas para os que praticarem maldades às escondidas. A corrupção política, por sinal, está fadada ao fim: um prefeito, se desviar verbas da Saúde, terá replicadas em seu corpo toda febre e mal-estar, assim que essas chagas acometerem os desassistidos da cidade. (Essa conexão, por operar assíncrona, ainda está nebulosa, até mesmo para mim. Mas vou tentar empurrar de qualquer maneira).

Se já está legal até aqui, apresento agora a cereja desse bolo com sabor de empatia: a maravilha complementar que batizei de “júbilo amplificado”. Funciona assim: se você oferecer um afago, receberá o dobro do conforto em sua epiderme. O bem-estar do próximo irá gerar um superávit de endorfina no doador. A bondade, em vez de personificar uma virtude abstrata, pregada em púlpitos, converter-se-á em investimento de altíssima rentabilidade biológica; um lucro sensorial líquido e certo.

Como desdobramento, nas relações íntimas, o egoísmo libidinoso vai incorrer numa estupidez sem tamanho. A satisfação do parceiro passará a figurar como a meta técnica primordial, pois que se traduzirá no combustível para o êxtase pessoal. Será aniquilado o mau hábito da indiferença, que corrói o amor mais depressa que o tempo.

Por ora, encerro a descrição do novo tratado, muito convicto de que a dor compartilhada pavimenta o único atalho viável para a paz garantida. Se fracassamos em agir com piedade por consciência, que nos portemos benevolentes por reflexo medular.

Em nome de todos os que me lêem neste documento, assino a confissão de que nossa espécie é incapaz de atingir, por vontade espontânea, o nível de maturidade emocional suficiente para que viva em harmonia – e solicito, desde já, a concepção da coleira neurológica que vai nos redimir.

E é isso.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Ideias para o mundo começar de novo – PARTE DOIS

É inegável que o ser humano vive
em um estado de sobressalto constante,
uma vez que a "indesejada das gentes"
não marca hora nem manda aviso.

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Para quem ainda não sabe, tenho empreendido esforços na elaboração de um caderno de encargos para a viável (e necessária) refundação da existência de tudo, como a conhecemos. Na PARTE UM, dediquei-me à questão da dignidade estética e social inerente à velhice, que precisava de um upgrade.

Agora urge atacar o mal que corrói o espírito humano com mais ferocidade do que qualquer outra coisa: o medo da morte. Pretendo, pois, dar cabo da angústia ontológica relativa à incerteza que temos quanto a estar vivo no dia de amanhã. Afinal, a sabedoria dos frequentadores de velório nos ensina que "para morrer, basta estar vivo", não é mesmo? E isso, sim, assombra a gente de montão.

É inegável, portanto, que o ser humano vive em um estado de sobressalto constante, uma vez que a "indesejada das gentes", como dizia o poeta, não marca hora nem manda aviso. Seguimos como quem caminha no escuro, tateando o futuro sem saber se o chão termina no próximo passo ou daqui a oitocentos quilômetros.

Tal conjuntura, convenhamos, é um erro grosseiro de design. Por isso, apresento aqui um esboço da segunda alteração nuclear que intento para a recriação do homo sapiens e de todo o seu quintal. 

Vem comigo.

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A proposta é de uma simplicidade técnica constrangedora para alguém onipotente como o Criador: todo bebê nascerá com uma marca indelével a partir da palma da mão esquerda em direção ao antebraço. Não se trata de uma dessas linhas confusas que os quiromantes fingem decifrar, mas de uma "linha de vereda" nítida, pulsante e, acima de tudo, precisa. Um traço luminoso que, conforme os dias se passarem, irá se retraindo gradativa e uniformemente. Isso tornará possível, desde o parto, calcular a data, a hora e o minuto em que o fôlego cessará. Nada de surpresas, nem de fatalidades inexplicáveis. Apenas a transparência total do destino biológico.


Mas alguém poderia se espantar, insanamente:
— Isso é terrível!
Muito pelo contrário! – eu retruco. Terrível é a dúvida. A clareza é a mãe da organização e a madrinha da paz de espírito.

No protocolo que apresento, a sociedade operaria com sensatez praticamente infalível. Tal inovadora engenharia humana transformaria o caos em coreografia.

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Posso começar descrevendo a vocação de meu novo sistema ao combate à procrastinação, companheira traiçoeira de quase todos nós. O ser humano, nos dias de hoje, deixa suas tarefas para amanhã porque nutre a ilusão de que o amanhã é infinito. Mas atento ao iminente desaparecimento de sua "linha de vereda", o homem médio vai agregar urgência elétrica àquele livro que nunca foi escrito, àquela viagem nunca viajada ou àquele pedido de perdão nunca pronunciado. A humanidade produzirá muito mais arte, amor e reconciliação se puder ver o pavio da vela diminuindo em tempo real, não restam dúvidas.

A iniciativa inclui também benefícios para os pretensos casos afetivos. Antes do primeiro beijo, o casal terá a oportunidade de comparar suas palmas. Se a linha dela termina aos 90 e a dele aos 42, ambos entram na relação sabendo que projeta-se um longo período de viuvez – ou decidem, por mútuo acordo, buscar alguém com prazo de validade mais compatível, para que possam apagar as luzes juntos.

Visando atender àqueles que se amarram em esportes radicais, mas tremem de medo de se esborrachar, apresento, pois, o cardápio de benesses. Se seu cronômetro traçado na pele lhe garante mais trinta anos de vida, salte de qualquer penhasco com a certeza de que o paraquedas abrirá. (O perigo é apenas um parque de diversões para quem conhece sua própria invulnerabilidade).

A domesticação da morte, por sinal, é a mais significativa caridade intrínseca à minha ideia. No modelo atual, a partida de alguém é um rasgo súbito, um susto que deixa pelo caminho pendências, frases não ditas e inventários complicados.

Meu ideal é que não exista mais choro desesperado nos hospitais. No lugar da sensação de interrupção que nos acomete, aceitaremos o fim da vida como o cumprimento de um cronograma. Um paciente terminal com sua "linha de vereda" bem curtinha, diga-se de passagem, poderá dispensar a cirurgia invasiva e a decorrente recuperação dolorosa. O foco será restrito, assim, no conforto pleno em seus dias derradeiros.

Na minha realidade reconfigurada, o sepultamento será programado com a mesma naturalidade de um jogo de peteca no clube. O indivíduo, sabendo que seu tempo se extingue na próxima terça-feira, às 15h, organiza a própria festa de despedida. Seleciona as flores, escolhe o repertório musical, quita as dívidas e abraça cada neto com a serenidade de quem faz o checkout de um hotel. A morte deixará de ser uma tragédia para se tornar um evento de agenda. 


E se o Criador me permitir a ousadia de detalhar ainda mais o plano, aqui estão os argumentos suplementares que tornam as diretrizes da nova arquitetura vital ainda mais irrefutáveis:

Com a clareza do tempo restante, as cidades passarão de aglomerados caóticos para engrenagens de eficiência existencial. Serão projetadas áreas urbanas para o público de "pouca linha": parques abertos 24 horas por dia, estabelecimentos com banquetes desregrados, celebrações diárias, sem descanso. Já os "longas-linhas" habitarão zonas de arquitetura perene, com árvores de crescimento lento e bibliotecas monumentais.

Ninguém investirá numa mansão para durar cinquenta anos se a palma da sua mão lhe avisa que a estadia terrestre termina em cinco. As casas serão transmitidas com dia certo, e o mercado de aluguéis se baseará no crédito biológico, em vez do crédito bancário.

O atual sistema de ensino, que obriga todos a estudarem as mesmas coisas pelo mesmo período, também cairá por terra. No meu universo reescrito, o diploma será proporcional à expectativa de sobrevivência. Uma criança cuja linha aponte apenas vinte e oito primaveras não será desperdiçada em longas jornadas de álgebra abstrata ou decoreba burocrática. Ela será direcionada às áreas de artes, entretenimento, turismo e outras capazes de proporcionar realização imediata. Já os predestinados à velhice serão os guardiões do conhecimento denso: estudos sobre políticas de longo prazo e outras ciências que exigem décadas de maturação.

Nesse sentido, minha plataforma garante a simplificação da rotina de contratações nas empresas. Ao selecionar um CEO para um plano decenal, valerá uma olhada na palma do candidato. "Sinto muito, Geraldo, você é muito foda, mas sua linha termina em dezoito meses; não teremos tempo para a transição". Por outro lado, as missões mais longevas serão delegadas àqueles que ostentam linhas em aparente avanço intrépido rumo ao sovaco.

Obviamente, o vício em acumular patrimônio vai perder o sentido para quem vir seu fio luminoso se recolhendo ao centro da mão esquerda. Ao constatar que lhe restam apenas dois anos, o indivíduo naturalmente começará a distribuir seus livros, suas roupas e suas moedas, ingressando em uma fase de desapego absoluto antes da partida. 

A celebração do último pôr do sol, do último banho de mar, da última conversa com o filho... nada disso passará despercebido. Cada última vez será vivida com intensidade ritualística. A partida será um ápice de consciência, em vez de um apagão acidental.

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Podem alardear por aí: a "linha de vereda" tende a nos devolver o controle sobre nossa própria narrativa. Num mundo onde cada ser humano caminha sabendo exatamente quanta estrada lhe resta, não se perderá tempo com bobagens. Ninguém brigará no trânsito se seu saldo for de apenas mais três dias de sol. Ninguém irá armazenar um vinho caro por dez anos se a linha da mão indicar que o prazo expira no próximo carnaval. O domínio sobre o fim vai otimizar a nossa entrega ao agora.

Encerro aqui, bastante satisfeito, o registro para a posteridade divina. Se for preciso mais detalhamento sobre a pigmentação da linha ou sobre como evitar falsificações por meio de tatuagens, estarei, como sempre, disponível para a busca de soluções nesta vasta rede informativa em que estamos inexoravelmente metidos.

E é isso.