Não era exatamente difícil enxergá-la. O sujeito estava a poucos metros, espremido entre um homem de sobretudo preto e uma mulher de cabelo roxo. Trazia no peito as cinco estrelas brancas, acesas sob a iluminação vermelha do palco. O próprio Fausto também usava sua camisa do Cruzeiro. Eram, até onde a vista alcançava, os únicos de visual cruzeirense num show de rock.
O ambiente estava escuro, esfumaçado e repleto de pessoas vestidas de preto. Caveiras estampavam as camisas e adornavam os cordões. Monstros figuravam bordados em jaquetas de homens barbudos — que aparentemente haviam sido expulsos de alguma montanha da Noruega. No centro daquela paisagem soturna, as duas camisas azuis brilhavam como aparições de Nossa Senhora.
Fausto se aproximou.
— E aí, Cabuloso.
O outro olhou para o próprio peito, depois para a camisa de Fausto.
— Tamo junto.
Era necessário confirmar o essencial.
— A Libertadores vem?
— Vem sim. Pelo menos uma taça vem este ano.
Fausto sentiu orgulho e comoção. Tomou um gole de chope. Apertaram as mãos enquanto a banda executava uma música sobre fogo, morte e o colapso da civilização ocidental.
— Fausto.
— Ari.
A guitarra começou a gemer num solo prolongado. Fausto esticou apenas o indicador e o mínimo, moldando os chifres que marcam o gesto clássico do rock’n roll. Ari fez o mesmo.
— Curte ZZ Top? — perguntou Fausto.
— Desde o tempo em que eu era coroinha da igreja.
Fausto sorriu.
— Você é católico?
— Apostólico romano.
Fausto então estendeu a mão direita para mais uma saudação de cumplicidade. Eram dois cruzeirenses católicos num show de rock. Ari mostrou uma pequena medalha de São Bento presa ao pescoço, escondida debaixo da camisa. Fausto retirou do bolso um terço azul e branco.
— Levo aos jogos.
— Funciona?
— Nem sempre.
Ari beijou a medalha.
— Deus dá suas batalhas mais difíceis aos seus torcedores mais teimosos.
Ficaram em silêncio, respeitando a profundidade da frase. No palco, o vocalista rugiu alguma coisa sobre o fim da esperança.
— Os caras pegam pesado — disse Ari.
— Falta catequese.

Começou um intervalo e eles foram comprar alguma coisa pra comer. As filas na praça de alimentação corriam para hambúrguer, cachorro-quente, espetinho e uma pequena barraca de alimentação vegetariana, quase vazia. Ari apontou para esta última.
— Bora na vegetariana?
Fausto o encarou.
— Você não come carne?
— Faz oito anos.
Fausto segurou Ari pelos ombros.
— Ah moleque! Eu também!
Dessa vez a batida de mãos foi tão certeira e tão forte que fez um estalo barulhento. Pediram hambúrguer de grão-de-bico e uma porção de batatas. Sentaram-se numa mesa de plástico próxima aos banheiros. Ari colocou maionese no lanche e arriscou:
— Você votou em quem, mano?
Fausto baixou a voz. Na mesa vizinha, havia um homem de camisa estampada com a bandeira dos Estados Unidos.
— Lula.
Ari largou o hambúrguer.
— Desde quando?
— Desde o Campeonato Mineiro de 2002.
— Ah Zé! Tamo junto! Também sou Lula!
Eles gargalharam alto, com júbilo. Ari bateu na mesa. Fausto ergueu os braços. A porção de batata quase caiu no chão.
— Companheiro! — brincou Fausto, imitando a voz rouca do Luís Inácio. Fez o L com os dedos polegar e indicador, expressando convicção, tal como um guerreiro proletário.
— Na minha terra o Lula sempre ganha. Você é de onde? — perguntou Ari.
— Ceará.
Ari olhou demonstrando simpatia.
— Eu sou de Pernambuco.
Fausto levantou-se. Os dois se abraçaram efusivamente, como se o Kaio Jorge tivesse acabado de marcar um gol.
Ambos eram nordestinos radicados na capital de Minas Gerais. Cruzeirenses, católicos e vegetarianos. Eleitores de esquerda que curtiam rock’n roll! Representavam um refinamento, uma combinação precisa, um nicho, uma subcategoria.
— Velho, bora fundar um movimento — disse Ari.
— Uma banda de rock?
— Não sei tocar nada.
— Eu também não.
— Roqueiros Cruzeirenses...
Fausto prosseguiu:
— ... Nordestinos Esquerdistas!
“Vegetarianos” era longo demais. “Herbívoros” parecia ofensivo.
— Verdes — sugeriu Ari.
— De Cristo — arrematou Fausto.
— Prefiro de Jesus.
— Tá bem. De Jesus então.
— Roqueiros Cruzeirenses Nordestinos Esquerdistas Verdes de Jesus — Ari leu o que estava escrito. Os dois ficaram em silêncio durante um minuto inteiro. O nome possuía a força de um sindicato, a beleza de uma pastoral, a precisão de um formulário do censo e a extensão de uma escola de samba.
— É isso — decretou Fausto.
Nasceram ali, sobre um guardanapo sujo de maionese, os Roqueiros Cruzeirenses Nordestinos Esquerdistas Verdes de Jesus. Ari foi nomeado presidente. Fausto tornou-se vice-presidente, secretário-geral, coordenador de Liturgia, diretor de Comunicação, representante para Assuntos Futebolísticos e gerente de Gastronomia. Ari acumulou as diretorias de Cultura, Integração Regional, Instrução Política e Fiscalização Doutrinária. Os únicos dois integrantes decidiram que todas as votações seriam resolvidas por consenso. Era mais democrático e anulava a possibilidade do empate.
Naquela mesma noite, criaram uma comunidade numa rede social. A imagem de perfil trazia um escudo azul, uma guitarra, uma cruz, um mandacaru e uma folha de alface. No alto, uma pequena estrela vermelha.
Ari escreveu a descrição:
Grupo destinado à união, ao diálogo e à resistência dos roqueiros cruzeirenses vegetarianos nascidos no Nordeste inclinados ao espectro político de esquerda e seguidores de Jesus, em defesa da fé, da democracia, dos animais, da cultura nordestina, do rock e do retorno do Cruzeiro à glória. Fausto sugeriu acrescentar “sem glúten”. Ari perguntou se ele tinha doença celíaca.
— Não.
— Então deixa quieto.

No dia seguinte, o grupo recebeu o primeiro pedido de entrada. Chamava-se Osmar. Era baiano, cruzeirense, católico, fã de Scorpions, vegetariano e filiado a um partido de esquerda. Fausto telefonou imediatamente para o presidente.
— Achamos um terceiro!
Ari pediu calma. Era necessário verificar os antecedentes. Marcaram uma entrevista por vídeo. Osmar surgiu na tela usando uma camisa do Cruzeiro e, ao fundo, havia uma imagem de Nossa Senhora Aparecida ao lado de um pôster do Queen.
— Estado de nascimento? — perguntou Ari.
— Bahia.
— Batizado?
— Aos três meses.
— Crisma?
— Fiz.
— Primeiro disco de rock?
— Brothers in Arms, do Dire Straits.
Fausto anotou, satisfeito.
— Carne vermelha?
— Não como.
— Frango?
— Também não.
— Peixe?
Osmar hesitou.
— Às vezes.
Os líderes se entreolharam.
— Às vezes quando? — perguntou Fausto.
— Semana Santa.
A entrevista foi suspensa. O regimento ainda não contemplava o consumo litúrgico de peixe. Após quarenta minutos de discussão, decidiram criar a categoria de “membro em processo de esverdeamento”. Osmar poderia participar das reuniões, mas não votar em questões alimentares.
O segundo candidato era um alagoano que cumpria todos os requisitos, exceto um: torcia para o CSA. Ari propôs recusá-lo imediatamente. Fausto defendeu uma postura de acolhimento.
— O CSA não é nosso rival. E é azul, ora.
— Mas não é Cruzeiro, uai.
O pedido foi negado por unanimidade.
A terceira candidata era uma paraibana vegana, católica, esquerdista e fã de Janis Joplin.
— Parece adequada — avaliou Fausto.
— Time?
— Cruzeiro.
— Pode entrar.
Quando já preparavam a mensagem de boas-vindas, descobriram que ela havia sido batizada numa igreja ortodoxa. Ari pediu uma reunião extraordinária.
— Jesus é o mesmo — argumentou Fausto, sempre resiliente.
— Mas o calendário é diferente.
— E daí?
— Imagine marcar a confraternização de Natal.
A candidatura ficou em análise por tempo indeterminado.
Nas semanas seguintes, surgiram outros casos. Um cruzeirense católico que gostava apenas de rock nacional. Uma metaleira vegetariana de esquerda que nascera em Montes Claros, filha de pais potiguares. Um maranhense fã de Rita Lee, devoto da Irmã Dulce, que votou no Leonel Brizola, mas comia carne de sol escondido da esposa.
Um seminarista sergipano que preenchia quase todos os critérios, porém torcia para o Vasco. Um rapaz de Fortaleza que alegava ser vegetariano porque só comia frango caipira. O grupo crescia lentamente. Depois de um mês, havia seis membros efetivos, quatro provisórios, dois observadores, um simpatizante e Osmar, que continuava em processo de esverdeamento.

Foi convocada a primeira assembleia presencial. Aconteceria num domingo, depois da missa, num restaurante especializado em saladas. A pauta incluía itens como a aprovação do estatuto, a definição do santo padroeiro, a redação de um manifesto oficial de solidariedade aos pequenos produtores e de uma nota pública contra o uso de couro em pulseiras de metal, além, claro, do estabelecimento de critérios para admissão de nordestinos nascidos no Sudeste.
A reunião começou com uma oração. Depois, todos cantaram o hino do Cruzeiro. Em seguida, Ari colocou uma música do Guns’n Roses. O layout da camisa oficial foi aprovado sem polêmicas: preta, com estrelas azuis, uma cruz discreta nas costas, folhas verdes e tomatinhos nas mangas. Padre Cícero foi eleito o patrono. A discussão sobre o consumo de peixes foi adiada.
Tudo caminhava para a consolidação definitiva do movimento quando começaram a montagem da playlist da festinha de inauguração. Ari foi listando: — Kiss, The Doors, AC/DC, Engenheiros do Hawaii...
— Engenheiros? — Fausto pensou em voz alta.
— Claro.
— Mas qual formação?
Ari não percebeu o perigo.
— A melhor.
Fausto pousou lentamente o copo de suco de cenoura.
— Qual?
— Gessinger, Licks e Maltz.
Um garfo caiu no chão. Osmar, o baiano do peixe, fez o sinal da cruz. Fausto respirou fundo.
— Você está dizendo isso como presidente ou como cidadão?
— Como conhecedor de música.
— Então retire.
— Não retiro.
— A formação original é Gessinger, Maltz e Marcelo Pitz.
— Essa formação durou um disco.
— Mas foi a que fundou tudo.
— Fundar não é aperfeiçoar.
— Aperfeiçoar não é trocar o baixista por um guitarrista.
— O Gessinger virou o baixista!
— Pois é! Trocaram até o Gessinger de lugar!
A discussão começou histórica, depois se tornou teológica. Ari acusou Fausto de saudosista. Fausto chamou o presidente de modinha.
A moça de Montes Claros tentou lembrar que o grupo havia sido criado para promover a união. Foi imediatamente questionada sobre qual era o melhor disco dos Engenheiros.
— O Papa É Pop — falou, meio insegura.
Os dois fundadores se voltaram contra ela.
— Comercial — disse Fausto.
— Previsível — disse Ari.
Ela pediu para retirar sua declaração.
Ari bateu na mesa.
— A fase com Augusto Licks foi o auge criativo!
— O verdadeiro Engenheiros nasceu como trio!
— Continuou sendo trio!
— Trio com guitarrista demais!
— Trio tem três pessoas!
— Não venha usar Matemática contra a História!
Osmar tentou apaziguar os ânimos lembrando que o Gessinger permanecera em todas as formações. A observação piorou tudo.
— Então você acha que qualquer coisa com Gessinger é Engenheiros? — perguntou Fausto.
— Inclusive Pouca Vogal? — encurralou Ari.
Osmar se encolheu, oprimido, pequenininho. Suas palavras haviam sido distorcidas pelos diretores.
Em menos de quinze minutos, emergiram duas correntes internas. A primeira, liderada por Ari, passou a se chamar: Roqueiros Cruzeirenses Nordestinos Esquerdistas Verdes de Jesus — Frente GLM. A segunda, comandada por Fausto, adotou a seguinte nomenclatura: Roqueiros Cruzeirenses Nordestinos Esquerdistas Verdes Vanguardistas de Cristo — Núcleo Pitz Original. Os membros provisórios foram obrigados a escolher um lado. O simpatizante abandonou o grupo. A candidata ortodoxa retirou o pedido. O seminarista do Vasco disse que aquilo era exatamente o que acontecia em todas as organizações humanas, mas ninguém deu atenção porque ele torcia para o Vasco.
Às doze horas e quarenta e sete minutos daquele domingo, os Roqueiros Cruzeirenses Nordestinos Esquerdistas Verdes de Jesus sofreram seu primeiro grande cisma. Cada ala saiu do restaurante com três membros. O baiano Osmar permaneceu no meio da calçada, indeciso, com uma marmita de moqueca de banana numa mão e o processo de esverdeamento na outra.
Fausto e Ari foram embora em direções opostas.
Um acreditava que a verdade começara com Marcelo Pitz. O outro sustentava que ela só chegara depois de Augusto Licks.
Há divergências que nem Jesus, nem o Lula, nem o Kaio Jorge, nem o Humberto Gessinger resolvem.




















