A logística do encontro consistia em um desafio de ergonomia. As cadeiras de plástico haviam sido banidas por serem moles demais; faziam o corpo afundar e a coluna curvar-se desenhando um anômalo C. As de madeira, por sua vez, eram "instrumentos de tortura medieval para o ciático", na descrição da Dona Eunice, uma espécie de secretária informal do grupo. A solução democrática foi alcançada com almofadas de espuma da Nasa, que cada um trazia de casa.
O som ambiente contava com um coral rítmico de estalidos que seguiam a seguinte gradação: clack, cleck ou crock! Eram joelhos, pescoços e vértebras berrando contra o mundo, em uma sinfonia de desgaste mineral.
À frente do semicírculo, Seu Ademar observava os demais com a respiração experiente de um general que já perdeu muitas batalhas para a artrose. Ele pigarreou, com cuidado para não tensionar o trapézio, e proferiu seu relato de abertura, com voz resignada:
— Bom dia, grupo. Sou o Ademar, e hoje... hoje eu não consegui amarrar o cadarço sozinho. Tive que usar o calçador de cabo longo. Mesmo assim, a meia ficou torta.
A resposta veio em uníssono fúnebre; um lamento coletivo que demonstrava empatia:
— Bom dia, Seu Ademar… nós sentimos muito...
Em seguida, uma senhora de coque levantou o dedo com a lentidão de quem se protege de um pinçamento cervical.
— Bom dia, grupo. Sou a Dona Alzira e... — ela fez uma pausa dramática, buscando o oxigênio que parecia lhe faltar desde 1994 — ... hoje, pela primeira vez em seis meses, eu tentei espirrar.
Um frenesi geral percorreu a sala. Espirrar era atividade de alto risco naquele subsolo.
— E senti a reverberação desde o calcanhar, subindo pela panturrilha, explodindo na L4 — Dona Alzira prosseguiu. — Minha visão escureceu por dois segundos. Quando recuperei o sentido, pensei em ligar para o Samu. Mas, durante cerca de dez minutos, fiquei travada em ângulo de 45 graus, completamente impotente.
Houve um regozijo solene. O caminhar manco de Dona Alzira era a estratigrafia de suas lutas — um rastro de obstinação que a definia como uma senhora venerável e digna de todas as honras.
Foi então que o Seu Belisário, o membro mais antigo, cuja espinha dorsal tinha o formato exato de um ponto de interrogação, pediu a palavra.
— Bom dia... — a voz era um sussurro de lixa na pedra. — Ontem foi o aniversário da minha neta. Três aninhos. Ela correu na minha direção, com seus braços gordinhos, gritando: "Vovô!"
O grupo inclinou-se para frente, antecipando a tragédia.
— Quando ela pulou no meu colo, ouvi o barulho de cristais se quebrando dentro do meu tórax. Caí de joelhos. Enquanto ela ria, rastejei até o sofá, deixando um caminho de gel de arnica ao longo do tapete de fios egípcios da minha nora. Passei a noite sobrevivendo à base de morfina, mas bastante grato por ainda estar... em pedaços.
Houve um segundo de meditação sagrada. Então, um por um, ignorando os protestos dos meniscos e os reclames dos nervos isquiáticos, os Doloridos Anônimos se levantaram e o aplaudiram de pé.
Tal ovação era interrompida apenas, de quando em quando, por alguns gemidos de "ai" e "ui" — que agregavam ainda mais musicalidade aos aplausos! Seu Belisário era o herói que todos aspiravam ser: o mártir supremo da ortopedia.
— Bom dia, pessoal. Eu sou o Tiago e... bem, eu trabalho muito no computador, e meu ombro direito está me matando. Acho que é o mouse, sabe? Uma pontada que desce até o cotovelo...
Um constrangimento quase sinistro assombrou a sala. Dona Paulina ajeitou seus óculos de leitura para enxergar melhor aquele amador. Seu Teixeira suspirou como quem vê um recruta tentando ensinar estratégia a um veterano de guerra.
— Ombro, meu filho? — debochou o Geraldinho, do fundo da sala, por baixo de seu boné de propaganda de político. — Escute aqui: o que você tem é só frescura de escritório.
A Tia Creuza, uma amável professora de crianças, também fitou Tiago com rigor maternal, como se ele mesmo fosse um de seus rebentos.
— Dorzinha muscular? Isso a gente resolve com um banho quente, rapaz — sentenciou ela, enquanto batia com o dedo indicador em uma pasta de exames que mais parecia uma enciclopédia. — Se o seu laudo médico não acusa três hérnias de disco extrusas, você é apenas um turista na dor — arrematou, com a superioridade de uma mãe que adverte seu menino.
Ato contínuo, emergiu a voz rouca de Seu Moacir, conhecido naquelas bandas como o sommelier de remédios. Ele nem queria dar testemunho de sofrimento, mas apenas se gabar da resistência heroica do seu organismo à química moderna.
— Ontem mesmo tomei um relaxante muscular que, segundo o farmacêutico, derrubaria um cavalo em cinco minutos. Sabe o que aconteceu comigo? Dei um bocejo e continuei assistindo ao telejornal, escorado em uma pilha de almofadas e com as mãos cravadas nas coxas. Meus receptores têm princípios, não se vendem por qualquer miligrama...
Olhares admirados brilharam no recinto. Seu Moacir era uma referência naquele grupo.
Tiago, o novato do ombro do mouse, intrometeu-se novamente, tentando se redimir pelo seu vergonhoso vigor físico e, desesperadamente, ser reconhecido como “útil” no bando.
— Mas gente... eu estava pensando... O doutor Arnaldo abriu um consultório ali do lado da padaria. Ele é especialista em coluna e articulações. Por que a gente não marca uma consulta em grupo? Talvez ele resolva todas as nossas inflamações! Não seria maravilhoso? — Tiago dirigia a argumentação para cada um de seus interlocutores, buscando uma migalha de aprovação.
O silêncio instalou-se com a gravidade de um pecado mortal. O ar no subsolo da igreja pareceu congelar, paralisando até os vapores de cânfora. O olhar de Dona Madalena para Tiago sinalizava uma traição profunda, como se ele tivesse entregado Jesus para os soldados romanos, ou como se ele tivesse declarado que não gostava do Sílvio Santos.
Para aquele grupo, o doutor Arnaldo não seria cogitado como um messias; mas era a ameaça máxima. Ir ao médico significava a possibilidade real da cura. E a cura, para os Doloridos Anônimos, decorreria no exílio. Se as dores sumissem, sobre o que falariam durante as refeições em família? Do que se queixariam quando encontrassem um velho conhecido na esquina? Como viveriam sem expressar seu infortúnio ao subir qualquer degrau?
Sentindo que a ordem estava em risco, Seu Ademar pigarreou para encerrar a sessão, antes que a heresia da saúde se espalhasse.
— Bom, grupo... por hoje é só. Vamos manter o foco na nossa... condição.
A reunião terminou de imediato. Visivelmente tomada pela decepção, a Guilhermina tentou se levantar para se mandar dali o mais depressa possível. Desaforada e imprudente, ela deu um impulso súbito, fulminante e desafiador. Um crock agressivo ricocheteou pelo salão, seguido de um "Aaaainn!" agudo que subiu até os céus.
Em vez de susto ou de preocupação, prevaleceu uma atmosfera de puríssima cumplicidade no subsolo da igreja.






























