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Nos primeiros dois fractais, propus o equacionamento da pátina olfativa da senescência e contemplei, também, o acolhimento à previsibilidade do fim da vida como providências essenciais para uma oportuna hipótese de reinvenção de toda a existência como a conhecemos. (Admito que ainda não sei muito bem como faremos para recomeçar, mesmo assim, vou tocando o projeto).
Até então ninguém reclamou ou se opôs à minha iniciativa, o que me encoraja a tentar emplacar mais uma sugestão para o recomeço de tudo. É chegado o momento, pois, de atacar a falha de hardware da humanidade que permite que um indivíduo tiranize seu semelhante sem sofrer o impacto imediato em sua própria carcaça. (Lembremos que, no modelo vigente, a empatia é uma mera opção moral, um artigo de luxo ético. E o histórico do homo sapiens revela que somos péssimos gestores de nossas escolhas).
O problema reside na estanqueidade sensorial. Na versão original da vida, posso desferir um golpe contra alguém e, enquanto seu arcabouço biológico entra em colapso, o meu segue tranquilo, emitindo sinais de satisfação dopaminérgica. Existe hoje um firewall orgânico que protege o agressor; uma blindagem que mantém a crueldade como um negócio de baixo custo para quem a pratica. Ou seja, nossas sinapses conhecem bem a fronteira do nosso restrito corpo – mas, claro, a sensibilidade estanca ali. Não somos aptos, por causa de uma evidente preguiça de design da natureza, a experimentar o que está além de nós mesmos.
Portanto, é inegável que a pele alheia, invólucro que encerra o outro, é o território mais remoto do nosso próprio sistema nervoso. Vivemos ilhados em biotipos autônomos, e esse isolamento, convenhamos, é um erro de cálculo monumental de fábrica. (Nesse ponto, devo reconhecer que a Criação acertou com os sistemas fúngicos e enxames de insetos. Se nosso mecanismo fosse modelado em rede como o deles, o tormento de um indivíduo teria que ser digerido também pelo outro, o que soaria perfeito. Por enquanto, tá tudo errado mesmo, mas creio que dá pra corrigir).
Já introduzi o bastante e posso, por essas e outras, apresentar, enfim, mais um itinerário para o mundo começar de novo: a Rede de Ressonância Somática.
Trata-se de uma engenharia de sistemas primorosa, que consiste na unificação dos terminais nervosos da espécie humana. (Quando sair do prelo a próxima edição da existência, espera-se que o Criador implemente um protocolo de espelhamento de estímulos. Aí é com Ele).
Eu explico: na minha realidade disruptiva, se você, por exemplo, acionar o gatilho de um revólver carregado na direção do coleguinha, notará a bala assassina perfurando seu próprio tórax na mesma fração de segundo em que o projétil atingir o alvo. A dor deixaria, assim, de configurar um evento privado, enclausurado na percepção de quem sofre, para transmudar-se em uma relação simbiótica, compartilhada também pelo opressor.
Imagine o impacto desse novo código nas engrenagens da civilização.
O setor de segurança pública restará extinto por total vacuidade de objeto. Assaltos reputar-se-ão logisticamente inviáveis. (Como alguém irá se meter a roubar se o pavor da vítima provocar uma síncope paralisante no malfeitor?). As guerras, desperdício estúpido de fôlego e aço, alcançarão seu desfecho antes do café da manhã: no primeiro disparo de artilharia, os generais, protegidos em seus bunkers climatizados, sentirão o estilhaço rasgando-lhes as vísceras e assinarão o armistício com as mãos trêmulas de agonia.
No trânsito de qualquer metrópole ruidosa, a cortesia subsistirá como a única linguagem possível. Fechar um motorista ou proferir um insulto irá gerar uma descarga de irritação gástrica súbita no infrator. Como fruto dessa lógica, colheremos um balé de gentilezas sobre rodas, movido não por um altruísmo angelical, mas pelo mais puro instinto de preservação. A Rede de Ressonância Somática transformará os hospitais em templos de acurácia. Um cirurgião, ao realizar um corte, sentirá tanto o fio da lâmina quanto o alívio da cura, o que ensejará seu zelo absoluto. Por sua vez, um professor, ao negligenciar a dúvida de um aluno, perceberá o vazio do não-compreendido corroendo-lhe a própria mente.
Sob essa nova égide, enfim, todo tipo de violência ou menosprezo tipificará, tecnicamente, um suicídio assistido. Acho que fui claro.
Isso significa que, além do ônus previsto para quem se arriscar a destilar hostilidade ou sair descendo a porrada por aí, haverá complicações parecidas para os que praticarem maldades às escondidas. A corrupção política, por sinal, está fadada ao fim: um prefeito, se desviar verbas da Saúde, terá replicadas em seu corpo toda febre e mal-estar, assim que essas chagas acometerem os desassistidos da cidade. (Essa conexão, por operar assíncrona, ainda está nebulosa, até mesmo para mim. Mas vou tentar empurrar de qualquer maneira).
Se já está legal até aqui, apresento agora a cereja desse bolo com sabor de empatia: a maravilha complementar que batizei de “júbilo amplificado”. Funciona assim: se você oferecer um afago, receberá o dobro do conforto em sua epiderme. O bem-estar do próximo irá gerar um superávit de endorfina no doador. A bondade, em vez de personificar uma virtude abstrata, pregada em púlpitos, converter-se-á em investimento de altíssima rentabilidade biológica; um lucro sensorial líquido e certo.
Como desdobramento, nas relações íntimas, o egoísmo libidinoso vai incorrer numa estupidez sem tamanho. A satisfação do parceiro passará a figurar como a meta técnica primordial, pois que se traduzirá no combustível para o êxtase pessoal. Será aniquilado o mau hábito da indiferença, que corrói o amor mais depressa que o tempo.
Por ora, encerro a descrição do novo tratado, muito convicto de que a dor compartilhada pavimenta o único atalho viável para a paz garantida. Se fracassamos em agir com piedade por consciência, que nos portemos benevolentes por reflexo medular.
Em nome de todos os que me lêem neste documento, assino a confissão de que nossa espécie é incapaz de atingir, por vontade espontânea, o nível de maturidade emocional suficiente para que viva em harmonia – e solicito, desde já, a concepção da coleira neurológica que vai nos redimir.
E é isso.




























