terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Ideias para o mundo começar de novo – PARTE TRÊS

A pele alheia é o território mais remoto em relação ao nosso próprio sistema nervoso. Vivemos ilhados em biotipos autônomos, e esse isolamento, convenhamos, é um erro de cálculo monumental.

-----

Nos primeiros dois fractais, propus o equacionamento da pátina olfativa da senescência e contemplei, também, o acolhimento à previsibilidade do fim da vida como providências essenciais para uma oportuna hipótese de reinvenção de toda a existência como a conhecemos. (Admito que ainda não sei muito bem como faremos para recomeçar, mesmo assim, vou tocando o projeto).

Até então ninguém reclamou ou se opôs à minha iniciativa, o que me encoraja a tentar emplacar mais uma sugestão para o recomeço de tudo. É chegado o momento, pois, de atacar a falha de hardware da humanidade que permite que um indivíduo tiranize seu semelhante sem sofrer o impacto imediato em sua própria carcaça. (Lembremos que, no modelo vigente, a empatia é uma mera opção moral, um artigo de luxo ético. E o histórico do homo sapiens revela que somos péssimos gestores de nossas escolhas).

O problema reside na estanqueidade sensorial. Na versão original da vida, posso desferir um golpe contra alguém e, enquanto seu arcabouço biológico entra em colapso, o meu segue tranquilo, emitindo sinais de satisfação dopaminérgica. Existe hoje um firewall orgânico que protege o agressor; uma blindagem que mantém a crueldade como um negócio de baixo custo para quem a pratica. Ou seja, nossas sinapses conhecem bem a fronteira do nosso restrito corpo – mas, claro, a sensibilidade estanca ali. Não somos aptos, por causa de uma evidente preguiça de design da natureza, a experimentar o que está além de nós mesmos.

Portanto, é inegável que a pele alheia, invólucro que encerra o outro, é o território mais remoto do nosso próprio sistema nervoso. Vivemos ilhados em biotipos autônomos, e esse isolamento, convenhamos, é um erro de cálculo monumental de fábrica. (Nesse ponto, devo reconhecer que a Criação acertou com os sistemas fúngicos e enxames de insetos. Se nosso mecanismo fosse modelado em rede como o deles, o tormento de um indivíduo teria que ser digerido também pelo outro, o que soaria perfeito. Por enquanto, tá tudo errado mesmo, mas creio que dá pra corrigir).
– – – –

Já introduzi o bastante e posso, por essas e outras, apresentar, enfim, mais um itinerário para o mundo começar de novo: a Rede de Ressonância Somática.

Trata-se de uma engenharia de sistemas primorosa, que consiste na unificação dos terminais nervosos da espécie humana. (Quando sair do prelo a próxima edição da existência, espera-se que o Criador implemente um protocolo de espelhamento de estímulos. Aí é com Ele).

Eu explico: na minha realidade disruptiva, se você, por exemplo, acionar o gatilho de um revólver carregado na direção do coleguinha, notará a bala assassina perfurando seu próprio tórax na mesma fração de segundo em que o projétil atingir o alvo. A dor deixaria, assim, de configurar um evento privado, enclausurado na percepção de quem sofre, para transmudar-se em uma relação simbiótica, compartilhada também pelo opressor.

Imagine o impacto desse novo código nas engrenagens da civilização.

O setor de segurança pública restará extinto por total vacuidade de objeto. Assaltos reputar-se-ão logisticamente inviáveis. (Como alguém irá se meter a roubar se o pavor da vítima provocar uma síncope paralisante no malfeitor?). As guerras, desperdício estúpido de fôlego e aço, alcançarão seu desfecho antes do café da manhã: no primeiro disparo de artilharia, os generais, protegidos em seus bunkers climatizados, sentirão o estilhaço rasgando-lhes as vísceras e assinarão o armistício com as mãos trêmulas de agonia.

No trânsito de qualquer metrópole ruidosa, a cortesia subsistirá como a única linguagem possível. Fechar um motorista ou proferir um insulto irá gerar uma descarga de irritação gástrica súbita no infrator. Como fruto dessa lógica, colheremos um balé de gentilezas sobre rodas, movido não por um altruísmo angelical, mas pelo mais puro instinto de preservação. A Rede de Ressonância Somática transformará os hospitais em templos de acurácia. Um cirurgião, ao realizar um corte, sentirá tanto o fio da lâmina quanto o alívio da cura, o que ensejará seu zelo absoluto. Por sua vez, um professor, ao negligenciar a dúvida de um aluno, perceberá o vazio do não-compreendido corroendo-lhe a própria mente.

Sob essa nova égide, enfim, todo tipo de violência ou menosprezo tipificará, tecnicamente, um suicídio assistido. Acho que fui claro.

– – – –

Para catapultar a solidariedade nas avenidas e nos lares, a matemática da coisa, além de punitiva, será também distributiva. (Segundo essa metodologia, o mal se propaga como pane geral. Nos micélios fúngicos, por exemplo, a ameaça em uma extremidade ativa respostas protetoras em todo o labirinto de filamentos – e o ponto causador não fica imune ao refluxo. O comportamento cessa por causa da biologia de rede, e não por nobreza de caráter. Afinal, agredir o tecido comum equivale a sabotar a própria sobrevivência).

Isso significa que, além do ônus previsto para quem se arriscar a destilar hostilidade ou sair descendo a porrada por aí, haverá complicações parecidas para os que praticarem maldades às escondidas. A corrupção política, por sinal, está fadada ao fim: um prefeito, se desviar verbas da Saúde, terá replicadas em seu corpo toda febre e mal-estar, assim que essas chagas acometerem os desassistidos da cidade. (Essa conexão, por operar assíncrona, ainda está nebulosa, até mesmo para mim. Mas vou tentar empurrar de qualquer maneira).

Se já está legal até aqui, apresento agora a cereja desse bolo com sabor de empatia: a maravilha complementar que batizei de “júbilo amplificado”. Funciona assim: se você oferecer um afago, receberá o dobro do conforto em sua epiderme. O bem-estar do próximo irá gerar um superávit de endorfina no doador. A bondade, em vez de personificar uma virtude abstrata, pregada em púlpitos, converter-se-á em investimento de altíssima rentabilidade biológica; um lucro sensorial líquido e certo.

Como desdobramento, nas relações íntimas, o egoísmo libidinoso vai incorrer numa estupidez sem tamanho. A satisfação do parceiro passará a figurar como a meta técnica primordial, pois que se traduzirá no combustível para o êxtase pessoal. Será aniquilado o mau hábito da indiferença, que corrói o amor mais depressa que o tempo.

Por ora, encerro a descrição do novo tratado, muito convicto de que a dor compartilhada pavimenta o único atalho viável para a paz garantida. Se fracassamos em agir com piedade por consciência, que nos portemos benevolentes por reflexo medular.

Em nome de todos os que me lêem neste documento, assino a confissão de que nossa espécie é incapaz de atingir, por vontade espontânea, o nível de maturidade emocional suficiente para que viva em harmonia – e solicito, desde já, a concepção da coleira neurológica que vai nos redimir.

E é isso.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Ideias para o mundo começar de novo – PARTE DOIS

É inegável que o ser humano vive
em um estado de sobressalto constante,
uma vez que a "indesejada das gentes"
não marca hora nem manda aviso.

----

Para quem ainda não sabe, tenho empreendido esforços na elaboração de um caderno de encargos para a viável (e necessária) refundação da existência de tudo, como a conhecemos. Na PARTE UM, dediquei-me à questão da dignidade estética e social inerente à velhice, que precisava de um upgrade.

Agora urge atacar o mal que corrói o espírito humano com mais ferocidade do que qualquer outra coisa: o medo da morte. Pretendo, pois, dar cabo da angústia ontológica relativa à incerteza que temos quanto a estar vivo no dia de amanhã. Afinal, a sabedoria dos frequentadores de velório nos ensina que "para morrer, basta estar vivo", não é mesmo? E isso, sim, assombra a gente de montão.

É inegável, portanto, que o ser humano vive em um estado de sobressalto constante, uma vez que a "indesejada das gentes", como dizia o poeta, não marca hora nem manda aviso. Seguimos como quem caminha no escuro, tateando o futuro sem saber se o chão termina no próximo passo ou daqui a oitocentos quilômetros.

Tal conjuntura, convenhamos, é um erro grosseiro de design. Por isso, apresento aqui um esboço da segunda alteração nuclear que intento para a recriação do homo sapiens e de todo o seu quintal. 

Vem comigo.

--------

A proposta é de uma simplicidade técnica constrangedora para alguém onipotente como o Criador: todo bebê nascerá com uma marca indelével a partir da palma da mão esquerda em direção ao antebraço. Não se trata de uma dessas linhas confusas que os quiromantes fingem decifrar, mas de uma "linha de vereda" nítida, pulsante e, acima de tudo, precisa. Um traço luminoso que, conforme os dias se passarem, irá se retraindo gradativa e uniformemente. Isso tornará possível, desde o parto, calcular a data, a hora e o minuto em que o fôlego cessará. Nada de surpresas, nem de fatalidades inexplicáveis. Apenas a transparência total do destino biológico.


Mas alguém poderia se espantar, insanamente:
— Isso é terrível!
Muito pelo contrário! – eu retruco. Terrível é a dúvida. A clareza é a mãe da organização e a madrinha da paz de espírito.

No protocolo que apresento, a sociedade operaria com sensatez praticamente infalível. Tal inovadora engenharia humana transformaria o caos em coreografia.

--------

Posso começar descrevendo a vocação de meu novo sistema ao combate à procrastinação, companheira traiçoeira de quase todos nós. O ser humano, nos dias de hoje, deixa suas tarefas para amanhã porque nutre a ilusão de que o amanhã é infinito. Mas atento ao iminente desaparecimento de sua "linha de vereda", o homem médio vai agregar urgência elétrica àquele livro que nunca foi escrito, àquela viagem nunca viajada ou àquele pedido de perdão nunca pronunciado. A humanidade produzirá muito mais arte, amor e reconciliação se puder ver o pavio da vela diminuindo em tempo real, não restam dúvidas.

A iniciativa inclui também benefícios para os pretensos casos afetivos. Antes do primeiro beijo, o casal terá a oportunidade de comparar suas palmas. Se a linha dela termina aos 90 e a dele aos 42, ambos entram na relação sabendo que projeta-se um longo período de viuvez – ou decidem, por mútuo acordo, buscar alguém com prazo de validade mais compatível, para que possam apagar as luzes juntos.

Visando atender àqueles que se amarram em esportes radicais, mas tremem de medo de se esborrachar, apresento, pois, o cardápio de benesses. Se seu cronômetro traçado na pele lhe garante mais trinta anos de vida, salte de qualquer penhasco com a certeza de que o paraquedas abrirá. (O perigo é apenas um parque de diversões para quem conhece sua própria invulnerabilidade).

A domesticação da morte, por sinal, é a mais significativa caridade intrínseca à minha ideia. No modelo atual, a partida de alguém é um rasgo súbito, um susto que deixa pelo caminho pendências, frases não ditas e inventários complicados.

Meu ideal é que não exista mais choro desesperado nos hospitais. No lugar da sensação de interrupção que nos acomete, aceitaremos o fim da vida como o cumprimento de um cronograma. Um paciente terminal com sua "linha de vereda" bem curtinha, diga-se de passagem, poderá dispensar a cirurgia invasiva e a decorrente recuperação dolorosa. O foco será restrito, assim, no conforto pleno em seus dias derradeiros.

Na minha realidade reconfigurada, o sepultamento será programado com a mesma naturalidade de um jogo de peteca no clube. O indivíduo, sabendo que seu tempo se extingue na próxima terça-feira, às 15h, organiza a própria festa de despedida. Seleciona as flores, escolhe o repertório musical, quita as dívidas e abraça cada neto com a serenidade de quem faz o checkout de um hotel. A morte deixará de ser uma tragédia para se tornar um evento de agenda. 


E se o Criador me permitir a ousadia de detalhar ainda mais o plano, aqui estão os argumentos suplementares que tornam as diretrizes da nova arquitetura vital ainda mais irrefutáveis:

Com a clareza do tempo restante, as cidades passarão de aglomerados caóticos para engrenagens de eficiência existencial. Serão projetadas áreas urbanas para o público de "pouca linha": parques abertos 24 horas por dia, estabelecimentos com banquetes desregrados, celebrações diárias, sem descanso. Já os "longas-linhas" habitarão zonas de arquitetura perene, com árvores de crescimento lento e bibliotecas monumentais.

Ninguém investirá numa mansão para durar cinquenta anos se a palma da sua mão lhe avisa que a estadia terrestre termina em cinco. As casas serão transmitidas com dia certo, e o mercado de aluguéis se baseará no crédito biológico, em vez do crédito bancário.

O atual sistema de ensino, que obriga todos a estudarem as mesmas coisas pelo mesmo período, também cairá por terra. No meu universo reescrito, o diploma será proporcional à expectativa de sobrevivência. Uma criança cuja linha aponte apenas vinte e oito primaveras não será desperdiçada em longas jornadas de álgebra abstrata ou decoreba burocrática. Ela será direcionada às áreas de artes, entretenimento, turismo e outras capazes de proporcionar realização imediata. Já os predestinados à velhice serão os guardiões do conhecimento denso: estudos sobre políticas de longo prazo e outras ciências que exigem décadas de maturação.

Nesse sentido, minha plataforma garante a simplificação da rotina de contratações nas empresas. Ao selecionar um CEO para um plano decenal, valerá uma olhada na palma do candidato. "Sinto muito, Geraldo, você é muito foda, mas sua linha termina em dezoito meses; não teremos tempo para a transição". Por outro lado, as missões mais longevas serão delegadas àqueles que ostentam linhas em aparente avanço intrépido rumo ao sovaco.

Obviamente, o vício em acumular patrimônio vai perder o sentido para quem vir seu fio luminoso se recolhendo ao centro da mão esquerda. Ao constatar que lhe restam apenas dois anos, o indivíduo naturalmente começará a distribuir seus livros, suas roupas e suas moedas, ingressando em uma fase de desapego absoluto antes da partida. 

A celebração do último pôr do sol, do último banho de mar, da última conversa com o filho... nada disso passará despercebido. Cada última vez será vivida com intensidade ritualística. A partida será um ápice de consciência, em vez de um apagão acidental.

--------

Podem alardear por aí: a "linha de vereda" tende a nos devolver o controle sobre nossa própria narrativa. Num mundo onde cada ser humano caminha sabendo exatamente quanta estrada lhe resta, não se perderá tempo com bobagens. Ninguém brigará no trânsito se seu saldo for de apenas mais três dias de sol. Ninguém irá armazenar um vinho caro por dez anos se a linha da mão indicar que o prazo expira no próximo carnaval. O domínio sobre o fim vai otimizar a nossa entrega ao agora.

Encerro aqui, bastante satisfeito, o registro para a posteridade divina. Se for preciso mais detalhamento sobre a pigmentação da linha ou sobre como evitar falsificações por meio de tatuagens, estarei, como sempre, disponível para a busca de soluções nesta vasta rede informativa em que estamos inexoravelmente metidos.

E é isso.