quinta-feira, 12 de março de 2026

Linda como uma santa

Àquela altura da nossa relação de dez meses, já tínhamos estabelecida uma aliança sagrada, dessas que os casais maduros selam com promessas de ascese, abandono dos vendavais e fogos efêmeros. 

Conforme o combinado, a gente entraria, então, no ano novo, sob o signo de algumas virtudes que elegemos para a família que planejávamos um dia formar, eu e minha dona. Nossa virada de ano seria passada dentro da igreja, assim determinamos, e tal seria o pontapé inicial do ciclo que, pretensamente, começaria eivado de propósito. 

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Às 22 horas, no entanto, o cordeiro da nossa devoção já havia sido sacrificado. 

Ao abrir a porta da sala, recebi a minha amada que chegava — e qual foi minha visão de apócrifo encantamento! Ela, abraçada a uma garrafa de vinho agonizante, equilibrava-se no precário altar de suas pernas. Já havia consumido sua própria ceia particular diretamente no gargalo, em rito de profanação.

Ela… estava… desconcertantemente… linda! Linda como uma santa em êxtase. Barroca, quase beatificada. Reluzia um colar prateado e brincos de prata que eram estilhaços de um resplendor partido. Seu suave perfume de jardim sitiava o hálito de uva fermentada. 

Diante de mim, a princesa apaixonada que eu rogara a Deus tantas vezes! (E que fora entregue pelo divino com a aura brilhante da Amy Winehouse). Minha linda tentou, a princípio, explicar seu atraso e também o sumiço do seu celular — mas o vinho tinto já havia embolado seu idioma, como em Babel. O telefone, por sinal, jazia, normal, no bolso da calça.

Antes de partirmos para o culto cristão, ofereci-lhe uma indulgência: a galheta da transgressão por duas latas de energético — extrema-unção taurina — e um copo generoso de água. Aludia, de um jeito invertido, ao Mestre, em Caná, que transmutara a água para salvar o festejo. Eu, por minha vez, tentava a façanha contrária: desperdiçar a uva milagrosa por bocados de sobriedade. Ela aceitou minha sugestão com a resiliência de uma freira tímida. Ao mesmo tempo em que soluçava, declarava-me seu amor em cântico de vertiginoso afeto.

Tentei exortá-la, com caridade apostólica: — Querida... bebe logo essa água. A gente tem um plano pra virada de ano, lembra?

Ela assentiu com sensatez mimetizada e, por um instante, pensei ter visto nela o clarão da graça. Mas a trégua redentora foi breve. A beldade me olhou com olhar sibilino, meio amedrontado, e despejou sua heresia: 

— Você é ele?

“Lascou de vez” — pensei, bastante perdido. Então agora eu não seria eu, mas um ele genérico? 

Desconfiei de algum fantasma dela de calvários passados, o qual era revivido inoportunamente por causa da embriaguez. Senti os espinhos do ciúme cravarem-se em minha vaidade. Ser confundido naquelas circunstâncias me custaria carregar a cruz da paciência. Eu quis gritar meu nome: “Sou o Matheus, não o evangelista, e sim o seu escolhido, ora!”

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Mas, enfim, já era chegada a hora de ir para a igreja. 

Conduzi minha anja abatida ao banco do passageiro, do meu lado direito. No caminho, ela passou a habitar um limbo: ria de qualquer coisa interna sem sentido e discutia com legiões de seres invisíveis. 

Mal dei a partida no veículo e despencou do céu uma chuva brava, dramática tal qual praga do Egito. Minha santa abriu o vidro e ofereceu uma face, e também a outra face, ao castigo da natureza. (Logo ela, que costuma guardar a própria têmpora com o zelo de um fariseu, então sorvia a tempestade como quem acolhe o batismo derradeiro antes do soar das trombetas. Descabelando toda. Borrando a maquiagem).

Quinze minutos foram decorridos, e chegamos ao templo onde, semanalmente, minha alma suplica por misericórdia. Aquela congregação jamais havia visto uma fiel tão pendular quanto a minha princesa. No púlpito, o pastor discorria sobre a anunciada volta de Jesus. Do lado de cá, ela buscava meu ombro para um arrebatamento etílico. A cada vez que ensaiava uma queda, eu a resgatava com sermões discretos ao pé do ouvido. 

Nessa toada, fomos orando as preces de boas-vindas ao novo ano. Minha relíquia profana se sustentava agarrada ao meu braço, como se ele fosse a única viga viva de um santuário em ruínas. 

Quando os ponteiros se tocaram no ápice da meia-noite, a igreja de Deus explodiu em glórias e aleluias. Sob os fogos que riscavam o firmamento parecendo serafins luminosos, eu apoiava o corpo ébrio da minha linda: o peso do seu pecado inocente, ornado de seda e paetês. Em resposta, ela sussurrava palavras ininteligíveis de ternura, e também pedia comida. 

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Ao fim da celebração, saímos da igreja, quase ilesos. No interior do meu automóvel, o silêncio intercalava com a respiração pesada da minha Eva: sonolência de querubim exausto que sobrevivera ao apocalipse. 

Transpus o umbral de casa conduzindo a deslumbrante deusa trôpega. Convinha recomeçar o ofício de cura: doses de cafeína e de chuveiro quente. Entre um gole e outro de sanidade forçada, percebi a noviça rebelde a recobrar sua dignidade.

Algumas horas depois, o prodígio parecia despontar: ela já não balançava. Estava quase... redimida. 

Respirou fundo, e aquela bruma de incenso profano finalmente se esvaiu. Havia em seu rosto um semblante de iminente confissão. Segurou minha mão, solenemente e, pela primeira vez na noite, articulou uma boa frase: 

— Foi mesmo uma noite atípica, né?

Suspirei aliviado. Ela enfim se via à luz da conversão. Fitou-me com expressão de madona, como quem prepara um salmo de arrependimento póstumo, e notou: 

— Os olhos do meu homem não mentem. Ele está aborrecido.

Houve um instante de silêncio augusto. Ajustou o cabelo com a elegância de uma abadessa, como se fosse desvelar o mistério da fé. Assertivamente, ela arrematou:

— Já sei por que você está tão sério. É porque não está bêbado.

Selou sua sentença com um beijo de pasta de dente e repousou o sono dos justos, ali mesmo no sofá, abandonando-me pendurado no madeiro seco da minha lucidez.