Ao ingressar na capital, o rapazinho embasbacou-se diante da selva de asfalto. Seus olhinhos rodopiavam fragmentados no labirinto de edifícios, vias e luzes, e também de rostos e curvas femininas que desfilavam pela faculdade e nas ruas. O impacto foi avassalador a ponto de quase lhe apagar a memória de que, pouco tempo antes, ele dividia o pó da estrada com vacas e galinhas no caminho do colégio.
Entretanto, o constrangimento generalizado com que encarava o mundo, bem como a desconfiança atávica de um genuíno caipira, figuravam como impiedosos freios para sua expansão pessoal e social. Desde a chegada, por isso, ele vinha tendo sérias dificuldades em estabelecer amizades na metrópole, movendo-se nela como um espectro que tudo observa e nada toca.
Ah, mas das meninas da cidade ele realmente gostou.
O sotaque bonitinho demais derretia-lhe as resistências. Até a futilidade daquelas que classificava como patricinhas exercia sobre ele um fascínio exótico. A primeira tentativa, porém, de interagir com uma colega de classe resultou em fiasco: ao pronunciar o próprio nome, viu o canto da boca da menina se contrair num riso contido – um espasmo de deboche que lhe revelou, com a crueza de um diagnóstico, que sua graça de batismo era um despropósito. Putz! Sério? Eberclei? O nome, que era normal na roça, na capital era apenas ridículo.
E o rapazote, a seu modo, vivenciou algumas aventuras na zona urbana. Havia um universo de códigos a ser decifrado: a mecânica do metrô, a cinemática das escadas rolantes, o mistério magnético do cartão de crédito.
Se a lógica da modernidade o confundia, a exatidão dos números era seu porto seguro. Eberclei dominava a Matemática com lucidez rara. Por força dessa aptidão, foi aprovado em uma seleção para estagiário. O jovial aspirante foi, então, incorporado ao staff de uma montadora de automóveis. Na prática, contudo, sua genialidade foi canalizada para uma única e repetitiva atribuição: trazer o cafezinho para os engenheiros.
ATO 2: O encanto
Sem balbuciar – jamais e em tempo algum – uma única sílaba durante o expediente, Eberclei esforçava-se para absorver os segredos do ofício. Como se fosse apenas um mosquitinho silencioso, observava os profissionais na lida diária. Observava, com o zelo de um perito, a engenheira Eliza.

Éber – respondeu prontamente. Já havia se planejado a respeito. Diante da musa, ele não seria o capiau de nome esquisito, mas uma versão editada. A amputação do sufixo era um truncamento estratégico, crucial para defender sua honra.
Ao certo, a dama estaria prestes a se casar com algum magnata das finanças, um desses homens de terno e relógio de grife que dominam o mercado. Ou, quem sabe, um jogador de futebol de prestígio precoce, desses que ficam bem ricos ainda jovens.
Teria sido esse sujeito o remetente de um buquê de rosas recebido por sua deusa, de surpresa, em pleno expediente. Era para atendê-lo que Eliza saía de fininho, sorrindo com o olhar ao primeiro acorde de uma canção de Caetano que ecoava do celular. Que martírio era aquilo! A melodia baiana soava, para o neófito, como um axioma de sua própria solidão.
O estudante solitário se afundava, a cada dia mais, na obsessão. Sua rotina resumia-se a devassar a vida alheia; escarafunchava redes sociais em busca de rastros digitais. Cedendo a impulsos clandestinos, costumava, muito escondido e constrangido, beijar a borda do copo deixado por ela na cantina – tal contato gélido e indireto era sua única forma de posse. Uma vez quase foi surpreendido cheirando o agasalho da mulher, largado sobre a poltrona. Só pensava nela o dia inteiro. Já não se tratava mais apenas de uma paixão platônica, mas de uma doença.

Eliza se despediu de todos, do diretor à faxineira, com a delicadeza que lhe era peculiar. Desceu os degraus da calçada apressadamente, deixando escapar a impressão de que alguém a estava a esperar. O estagiário progredia no seu encalço, mesmo ciente de que levaria uma apunhalada no peito se desse de cara com o bonitão, o arquétipo de seu fracasso. Teria cabelos levemente grisalhos, voz grave e um automóvel caro.
Desgraçado...
Acocorado em sua invisibilidade, Eberclei vigiava o percurso da moça. Dali a poucos metros, materializou-se a confirmação de seu pesadelo: um utilitário de luxo, pretão e imponente, estacionado feito uma fera de aço. O acadêmico de Engenharia Mecânica sequer lograva identificar a linhagem daquele modelo. Para ele, o veículo era apenas o invólucro tecnológico de sua derrota.
Eliza avançou em direção ao carro com leveza jubilosa. Cada passo saltitante denunciava uma saudade que Eberclei jamais teria o privilégio de saciar. O mundo parecia conspirar em favor daquela alegria que não o incluía.
Maldito!
Foi nesse instante que irrompeu uma torrente de descontrole, uma descarga química que subverteu a timidez e passou a guiar os impulsos do menino. Como um felino, ele a perseguiu, sem levar em conta as câmeras de segurança ao redor. Na rua deserta e entregue ao lusco-fusco, a invisibilidade de Eberclei deixava de ser um disfarce para se tornar uma ameaça. Ofegante, com o olhar marejado e a mente fixa num único ponto, ele avançava com passos pesados, quase marciais.
Eliza se aproxima do veículo estacionado. O estagiário a persegue, prestes a alcançá-la, com atmosfera sinistra, aura de predador acuado. As mãos estavam cerradas, esmagando o único instrumento de poder que possuía: uma caneta do escritório, que agora parecia uma arma improvisada e patética em seus dedos trêmulos.
A porta do carona abriu-se com um movimento suave, e Eliza se lançou nos braços do piloto. O rapaz retesou-se como uma serpente, com a cautela de quem analisa os destroços de um desastre. A musa estava de costas, e o agasalho em queda oferecia o decote que ele tanto havia mensurado em suas fórmulas silenciosas. A raiva latejava sob a pele enquanto ele segurava a caneta como se o objeto estivesse a escorregar. Finalmente, já bem próximo, clareou-se o ângulo ideal de visão, e Eberclei pôde identificar quem estava ao volante, devorando os lábios de sua deusa protegida.

O vento sopra e traz até Eberclei o cheiro bom de xampu feminino. Ele fica pasmo, imóvel. Mas... como assim? Permanecia estupefato, o jovenzinho. Sua alma, que fora moldada na ortodoxia do meio rural, tateava o vácuo, não entendia. Nada ali se encaixava em suas tabelas de probabilidade.
De um jeito inesperado, a fincada amarga do ciúme anulou-se. Ebreclei, que surfava num turblento oceano de novidades desde que aportara na capital, assistia ao naufrágio e à reconstrução de seus paradigmas naquele exato instante.
Se não há rivalidade masculina, não há motivos para me sentir derrotado, certo? É assim no reino dos leões, dos búfalos... dos pavões... – conjecturava o espírito angustiado do rapazinho, buscando refúgio nas leis da natureza.
Jogou fora a caneta e regressou calmo, o menino Eberclei.

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