sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O Cowboy

De chapéu, bota e fivela, o cowboy vinha andando havia algum tempo pelo centro de Belo Horizonte, quando sentiu cheiro de fritura.

Então ele parou, como faz um burro que empaca no meio do caminho.

Virou a cabeça, farejando o ar feito um cachorro curioso. Cheiro de fritura, para ele, era carne em algum estágio promissor. Linguiça ou torresmo! — o cowboy salivou, no momento em que planejava tomar uma cerveja gelada para acompanhar o tira-gosto. A fome se apresentou de repente com certa autoridade.

Ouviu um acorde de violão. Para ele, o som do instrumento, quando combinado ao aroma do óleo queimando, criava uma experiência sensorial que anunciava a perfeição. Estaria o cowboy, pois, prestes a ingressar no seu ambiente ideal. 

Ele logo dobrou a esquina e encontrou uma feira. Seus olhos brilharam. Na entrada, a faixa anunciava:

FEIRA VEGANA — ALIMENTAÇÃO CONSCIENTE, ARTE E SUSTENTABILIDADE

Leu depressa, negligente como quem lê manuais ou rótulos. 

“Feira”. 

“Alimentação”. 

“Arte”. 

“Sustentabilidade” devia ser alguma coisa do patrocinador. Entrou focado.

Era possível avistar barracas de comida dos dois lados da rua, além de bandeirolas feitas de tecido reaproveitado, cartazes sobre proteção animal e pequenas placas com frases que falavam de consumo consciente. As pessoas por ali usavam roupas largas, sandálias, saias compridas, camisetas tingidas, bolsas de pano e colares de sementes. Alguns exibiam barbas longas, tatuagens de folhas e brincos grandes. Outros tinham cabelos verdes ou raspados pela metade.

— Esse pessoal vai tocar. Cabelo colorido é coisa de cantor novo — sentenciou.

No pequeno palco, um rapaz descalço empunhava o violão, sentado sobre uma almofada. Cantava devagar uma ode ao sofrimento dos animais, o equilíbrio da natureza e a necessidade de romper com velhos hábitos. O cowboy ouviu “animais”, “natureza” e “velhos hábitos”.

— Moda de boiadeiro — alongou o pescoço, satisfeito.

O cowboy continuou caminhando. Na primeira barraca, uma moça lhe ofereceu uma coxinha.

— É de jaca.

Ele olhou para a coxinha. A aparência era perfeita: dourada, pontuda, empanada, com o tamanho certo. Se aquilo era coxinha, tinha frango. Mordeu. O recheio era desfiado, úmido e bem temperado.

— Frango novo — disse.

— É fruta.

O cowboy sorriu porque sempre gostou de vendedor bem-humorado.

Na barraca adiante, um homem preparava hambúrgueres de lentilha numa chapa. Os discos estavam tostados por fora, exalavam fumaça e chiavam ao tocar o óleo.

— É carne da boa — o cowboy estava à vontade.

Recebeu o lanche com alface, tomate, cebola roxa, brotos e um molho feito de castanhas. Tirou os brotos porque pensou que era enfeite.

— Carne muito bem moída — comentou, depois de morder e achar macio demais.

O vendedor falou alguma coisa sobre proteína vegetal e impacto ambiental, mas o cowboy estava ocupado mastigando. Entendeu apenas que aquele tipo de carne fazia menos sujeira no pasto.

Mais adiante, encontrou uma barraca de linguiça de legumes. Estavam alinhadas sobre uma superfície quente. Douradas e marcadas pelo fogo. O cowboy nem leu a placa. Uma coisa com formato de linguiça, cheiro de linguiça e servida como linguiça só podia ser linguiça; o mundo conservava algum tipo de ordem. Pediu uma.

A mulher atrás do balcão perguntou se ele queria molho de ervas ou maionese sem ovos.

— Sem ovos — respondeu. — Ovo em linguiça é invenção besta.

A mulher concordou, e o cowboy se sentiu respeitado.


No palco, uma moça de vestido comprido assumiu o violão. Antes de cantar, pediu que todos fechassem os olhos, respirassem fundo e estabelecessem uma ligação com a mãe Terra.

O cowboy tirou o chapéu e começou a rezar a Ave Maria. Quando abriu os olhos, a música já havia começado. A cantora falava da lua, das raízes, da água e dos corpos livres. O cowboy ouviu até o fim.

— Eita sofrência! — celebrou, sem prestar atenção na letra.

Em seguida, o cowboy foi experimentar leite de amêndoas. O líquido vinha num copo transparente e tinha cor clara, quase branca.

— É de vaca nova? — perguntou.

— É de amêndoas.

O cowboy examinou o copo. Conhecia vaca holandesa, nelore e umas outras. Amêndoa deveria ser uma raça estrangeira.

— Dá bastante leite?

A moça respondeu que era preciso deixar as amêndoas de molho, bater com água e coar. Ele assentiu com seriedade. Cada região tinha seus costumes, tudo certo.

— O gosto é bem fraco.

— Não tem lactose, né.

O cowboy tornou a assentir. Devia ser algum suplemento que faltava na ração.

Comeu bacon de coco e inferiu que o porco tinha sido defumado com madeira ruim. Experimentou um doce sem leite, sem ovos e sem açúcar, o que lhe pareceu uma maneira muito complicada de fazer sobremesa. Ainda assim, o cowboy comeu tudo. Não desperdiçava comida por causa de detalhes.

Perto da saída, uma jovem pesquisadora, segurando uma prancheta, aproximou-se dele.

— Posso fazer uma pergunta?

— Pode.

— O senhor considera importante repensarmos nossa relação com os animais?

— Sempre.

Ela anotou com euforia.

— Para o senhor, o que significa alimentação consciente?

— É comer prestando atenção — o cowboy soltou a primeira resposta que lhe veio à mente.

Mas a entrevistadora se emocionou por causa da simplicidade concreta daquele pensamento.

Embora singelo, ‘comer prestando atenção’ é profundamente forte...

— ela refletia.

Apesar de objetiva, a frase ‘comer prestando atenção’ parece atravessada por uma doçura quase melancólica…

— ela matutava. Que encanto havia naquele homem de aparência rude e mente absolutamente desconstruída!

Ciência e poesia coexistem —

suspirou ela —
nesta tarde com aroma de fritura.

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