sexta-feira, 11 de julho de 2014

O dia em que Eberclei plantou três árvores no seu quintal


Todas as vezes em que esbarro por aí com um certo chegado meu, de nome Eberclei, sou abalado por causa da onda de negativismo extremo que emana do sujeito. É um cara durão, meio mau-caráter. Mal-humorado, nada confiável. E de tão puto que sempre está com a própria vida, o cabra é capaz de, em cinco curtos minutinhos de prosa, me contagiar com seu aborrecimento.

Mês passado, por exemplo, assim que me viu numa esquina, o infeliz chegou esbravejando sobre seu time do coração. “Patifes! Fracassados! Perderam a final jogando em casa, estádio cheio. Puta merda!” — introduziu, colérico.

Na sequência, queixou-se do emprego, não aguentava mais aquilo. Já há dois anos era explorado em troca de um salário miserável. E o macambúzio rapaz repetiu três vezes que não tinha perspectivas de crescer profissionalmente. “Assim não dá... que bosta!” — chutou uma pedra.

Eu me arranjava para fugir do assunto, quando o cafajeste interpelou novamente. “Porra, olha só como tô gordo!” — reclamou enquanto empurrava a barriga saliente para o interior da fivela do cinto apertado. Nesse momento enxugou o suor da testa. Não fazia calor, mas ele transpirava.

Então emergiu no repertório do meu interlocutor, sempre pessimista demais, a discussão sobre a fome que assola a humanidade. Ele também falou sobre as guerras e a absoluta impossibilidade de que algum dia impere a boa convivência entre os povos do planeta. Chutou um cachorro que passava inocentemente por ali, o maldito.

'Puta cara nojento...' — eu matutei.

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Em outros dois encontros casuais com o Eberclei, segui me embasbacando com sua infindável lista de lamúrias. Ele jura que no prazo máximo de cinco anos vai faltar água para a maioria da população da Terra. Certificou-me ainda de que a cura da aids não será, jamais, descoberta. 

De quebra, o escroto do Eberclei dissertou acerca da corrupção que é uma praga brasileira, graças à qual não há mais como salvar o futuro do país. E enfim despediu-se, tal ordinário, admitindo que deverá ir para o inferno quando morrer. Como se eu já não soubesse disso. 

O puto do Eberclei me deixa de baixo astral. Eu sempre penso: 'Puta cara chato... Nunca mais quero encontrar esse cretino'.

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Infelizmente, hoje ia chegando ao trabalho quando tive o desprazer de topar de novo com o meliante. Foi de repente, não deu para desviar a rota. Já improvisava uma desculpa para me mandar dali. Mas Eberclei surpreendeu, exclamando: “Velho, como cê tá bonito!”. 

Achei aquilo estranho.

Então ele olhou para o firmamento e comentou sobre nosso privilégio de morar em Belo Horizonte, cidade onde há tão agradável clima. Ameno, pitoresco. “Fomos contemplados! A luz do Sol, o ar da manhã, são tesouros divinos que recebemos de graça...!”. Suspirou como se quisesse engolir tudo aquilo de precioso que havia na natureza.

Sem me deixar responder qualquer coisa, abriu o jornal na página de Economia. “Olha aí rapaz! Taxa recorde de emprego! Esse é o nosso Brasil!”.  

Pensei: 'Que porra é essa... Puta cara contraditório, volúvel do car#lho'.


Aí percebi que Eberclei ostentava olhos brilhantes e estava perfumado. Concluí também que bochechara refrescante enxaguante bucal. 

Em alguns instantes de conversa, em meio à contação de casos triviais, ele enumerou: “Plantei três árvores lá em casa. Tô aprendendo a tocar saxofone. Tô fazendo um curso de massagista, por correspondência. Comprei um skate. Adotei um adorável cachorrinho de rua, paraplégico, o coitadinho”. E não sei o que mais...

Presumi que Eberclei estava realmente feliz. Despediu-se fazendo inédito cafuné no meu cabelo e cantarolando versos em idioma inglês embromado: “Oh, happy day! Oh, happy daaay...”.

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A princípio fiquei muito encafifado quanto a essa nova postura do sujeito. Depois soube o que sucedeu com o safado do Eberclei.

Ele estava na pior até outro dia, mas conheceu uma mocinha durante o fim de semana e ficou apaixonadão. Nem chegaram a beijar na boca nem nada, só paquera mesmo. O suficiente para encher de coisas fofas o seu coraçãozinho!

Por isso anda por aí assoviando, acenando para as velhinhas, abraçando os mendigos.

Quanto a mim, nunca eu o perdoarei. Puta cara volúvel do car#lho!

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O cara basal

No meu terceiro ano de faculdade em Viçosa, apareceu por lá uma caloura chamada Dayana. Simpática, divertida, sorriso fácil.

Não chegamos a ser grandes amigos, mas por alguma razão eu realmente gostava dessa garota.

E você sabe como é a predisposição dos jovens universitários à paquera: quase em tempo integral, são sentinelas que vigiam quaisquer ambientes na tentativa de detectar potenciais pretendentes. Como decorrência natural desse comportamento, nas idas e vindas entre o pavilhão de aulas e o boteco, não era raro que lábios e corações diversos se testassem, de forma casual e frenética. Girava assim, sem cessar, a engrenagem da sedução na cidade universitária. Dia sim, o outro também...  

Mas quanto à Dayana – fui levado a retomar – nunca, em dois anos de convivência, havia sabido de marmanjo algum que tivesse logrado sucesso em cortejá-la. Talvez fosse demasiado rigorosa no aspecto da pegação; ou apenas discreta, reservada. É possível até que tal impressão de intocabilidade não passasse de fruto da minha desatenção. Enfim, por algum tempo, esse mistério me intrigou.

Até o dia em que a vi aos beijos com o Glauco.

Glauco cursava Economia e era aquilo que se pode chamar de um legítimo protagonista da bebedeira. Dava show nas baladas, sempre muito eufórico, de olhos marejados e avermelhados pela cachaça. 

Não apenas por isso, parecia-se muito comigo; éramos fisicamente parecidos. Alguém, não sei quem, um dia notou a semelhança e eu, que sempre fui meio idiota, gostei da ideia de ter um sósia por aí.

Não chegamos a ser grandes amigos, mas eu gostava bem desse rapaz. 

Quando então o vi de chamegos com a referida caloura, veio-me à tona um raciocínio meio sem cabimento: “Não é que eu e ela formamos um belo casal?”. Juro que pensei isso. E emergiram também alguns planos.
Percebi que poderia ser conveniente e divertido aprontar e sujar o nome do Glauco, partilhando, pois, com ele, a queimação de filme. Fazia minhas estripulias pela cidade, e se me perguntassem o nome: “Sou o Glauco da Economia”. De certa forma, era como usar trajes da invisibilidade. 

Por um tempo, não sei quanto, tal estratégia de autopreservação foi eficaz. Mas tudo desandou quando meu gêmeo, que não era bobo nem nada, passou a fazer a mesma coisa. Libertos das amarras da identidade, tornamo-nos ainda mais propensos a arrumar encrencas. Sempre, secretamente, botando a culpa um no outro.

Conta-se até que, certa vez, teriam me visto namorando pelado com uma mocinha em um canto de um boteco onde passava a estreia do Brasil na Copa de 2006. Blasfêmia! Aposto que foi o safado do Glauco!
Essa introdução, com a qual acabei me empolgando, deu-se apenas para ilustrar o quão rica pode se tornar a história de um indivíduo quando ele descobre que tem clones espalhados pelo mundo.

Isso ocorre tão frequentemente comigo que cheguei à conclusão de que sou um cara basal. Ou seja, sou uma espécie de padrão de feitura física de humanos do sexo masculino, a partir do qual os demais rapazes vão configurando seus traços peculiares. 

Uns dão uma melhorada, uma encolhida ou esticada, pegam uma cor, crescem o nariz ou o pé. Mas tudo começa comigo, exatamente como sou. Portanto, quanto menos o sujeito foge do padrão básico, mais sua lataria se assemelha à minha.

Graças a essa particularidade, quase todos os dias sou confundido ou visto em dezenas de lugares ao mesmo tempo. Quando criança, fui botado por engano no carro pela mãe de um tal João Vítor, na porta do colégio. Também já fui chamado de papai uma meia dúzia de vezes. Ainda hoje, ganho caronas e abraços inesperados. Até cachorros me seguem pelas ruas, iludidos.

Nesse sentido, foram inúmeros os esclarecimentos que já tive que prestar. 

_ Não, não te conheci em um pub londrino. Nunca nem andei de avião, minha filha.
_Não, nunca joguei nas categorias de base do Bragantino. Até fui um promissor lateral direito. Cruzava bem, mas interrompi minha carreira na sexta série.
_Não, não estive em um quiosque gay em Cabo Frio no réveillon de 2010.
_Ah, me conhece de algum lugar? Pode até ser...

Dia desses, um amigo me mandou a foto de um cara igualzinho a mim, com quem fazia um curso em Fortaleza. Aí descobri que até a falha no meu bigode é padronizada.

Mais recentemente, circulou na internet uma foto em que eu, supostamente, tocava contrabaixo em uma banda de rock. Mas quem me conhece sabe que entendo tanto de contrabaixo quanto sobre embreagem de foguete. Ainda assim, amigos íntimos, colegas de todas as gerações e até meu pai veio se queixar por não tê-lo chamado ao show.
E o pior está por vir. Soube que o Glauco está morando atualmente em Belo Horizonte. Coisa boa isso não é. Indício de confusão.

Bom, sem mais delongas, o recado está dado. Se por ventura me flagrarem explodindo um caixa eletrônico, saindo do motel com um travesti ou tirando meleca do nariz, saibam que é enorme a possibilidade de ser obra de outro cara, muito parecido comigo.

Se me virem vomitando no banheiro de um casamento, comercializando drogas, pichando ‘morte aos tecnocratas’ no viaduto; é sério, não fui eu.

Se isso acontecer, minha gente, melhor deixar avisado de uma vez: Foi o Glauco da Economia!

PS.: Bem, na verdade estive mesmo no quiosque gay.
Mas entrei lá por engano. 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Paradigmas do menino Eberclei

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sábado, 18 de agosto de 2012

Sábios anciãos

Ontem, passando em frente a um centro universitário, deparei-me com dezenas de jovens embriagados. Havia ocorrido, desde a hora do almoço, uma recepção de calouros, daquelas que nunca terminam. Então era início de noite e, num bairro nobre de Belo Horizonte, rapazes e moças ainda falavam insanidades, beijavam-se ou deixavam no solo generosas poças de vômito. Refleti: “Esses jovens não sabem nada da vida”.

Por sinal, os únicos que detêm a real sapiência sobre a vida – eu seguia matutando – são os velhos. Passamos quase a vida toda sem saber nada da vida, e não nos damos conta disso. Mas felizmente o melhor está por vir: todos seremos um dia velhos e sábios! Exceto, claro, aqueles que morrerem antes de chegar lá.

Tenho uma irmã de cinco anos de idade que não sabe nada de nada. Ela seleciona alguns pretendentes a namoradinho, mas anda enfrentando certas barreiras à paixão: “Gosto do Gabriel, mas ele não serve para namorar... colore tudo rabiscado!”. Rebecca é, pois, ingênua. Tem medo de ficar sozinha em casa, acredita na existência do Papai Noel, não consegue compreender por que chicletes e guloseimas em excesso fazem mal à saúde. Definitivamente, não tem ciência alguma das coisas.
Já os adolescentes pensam que conhecem da vida. Mas, para esses tapados, piercings, penteados escrotos ou notas altas no simulado do pré-vestibular constituem importante capital social. Adolescentes choram por amores que duram uma semana, xingam a própria mãe, fogem de casa. É a idade mais burra, que felizmente dura pouco.

Então chega a juventude, outra época de que a inteligência passa longe. Jovens se alcoolizam, ficam fora de si e são facilmente roubados por ladrões jovens. Estes últimos são também imbecis: cometem crimes e perdem a juventude atrás das grades. Jovens são realmente idiotas, pois engravidam as namoradas, sem a mínima maturidade. Jovens tomam anabolizantes. Há jovens tão tolos que se suicidam!...

Bem, uma vez que cheguei aos vinte e sete, não me enquadro mais entre os jovens. Sou, portanto, um homem feito! Com barba na cara, emprego fixo e alguns fios de cabelo branco. Contudo, admito que também me acomete a absoluta falta de juízo. Não sei se invisto hoje em algo que assegure meu conforto no futuro, ou em viver intensamente enquanto ainda gozo de implacável saúde. Não sei se me caso, se compro um tênis de futsal. Sou mesmo um incapaz.

Daqui a alguns anos serei um coroa, e continuarei sendo um perfeito estúpido. Afinal, os coroas também não sabem nada da vida. Destroem a própria saúde para se encher de dinheiro; depois despendem fortunas em tratamentos de saúde. Há coroas que perdem o respeito da família por causa de uma gostosa com idade para ser sua neta. Há coroas envolvidos no esquema do Mensalão. Há solteirões coroas infelizes. Há inúmeros coroas chatos que são traídos por suas esposas coroas.

Por isso eu digo: quem sabe das coisas, de verdade, são somente os anciãos! Ah, esses sim, podem dizer que são sábios, sabidos, experientes...

Eu não sei dizer do que eles sabem... só sei que os velhos é que sabem das coisas!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A lógica dos insetos

"Fiquei ligeiramente fascinado ao contemplar a singela pétala de rosa a se movimentar. Com imponente elegância, aquele pedacinho da natureza flutuava lenta e uniformemente sobre a invencível membrana d’água. Quão delicada era aquela pele vegetal! O tom vermelho intenso, vivaz, exuberante. Quando então detectei o rastro prateado refletido pela solitária gota no ventre da flor perfumada, aí entendi a costumeira associação que se faz da rosa vermelha à paixão. Entendi também outras coisas..."


...era mais ou menos isso o que assolava meu imaginário durante aquela pasmaceira. Afinal, carecia de alguma ocupação enquanto lamentava pelo meu frustrado investimento de meio de semana.

Comecemos do início:

Em um desses sites de compras coletivas, acabei sendo fisgado por uma promoção. Tratava-se de uma massagem relaxante de nome bizarro, com não sei o quê de reflexologia podal. Se não me engano, mencionava uma tal máscara, óleo de sei lá o quê, ofurô com pétalas de rosas e ervas aromáticas; e ainda um lanche. O valor original do pacote, conforme a oferta, seria 700 reais, mas estava saindo por irrisórios 59. Eram tentadores 92% de desconto.

“_ Caralha, imperdível!” – adquiri impulsivamente.
Cheguei ao local e fui recebido por uma senhorita na sala de massagem. Imaginei que o ambiente deveria ser escurinho, mas uma irritante fresta na cortina atingia em cheio minha tranquilidade. Havia uns balões coloridos estranhos no teto e uma música deprimente misturava-se aos ruídos urbanos que vinham do lado de fora. A mulher solicitou que eu me deitasse, de sunguinha.

“_ Ao aspirar, visualize a cor verde, que remete à tranquilidade. Ao respirar, mentalize o lilás, que é a cor do bem-estar”, orientou-me, com voz de motel, antes de iniciar a massagem. “Seria alguma pegadinha?”, pensei enquanto corria os olhos procurando por uma câmera escondida.

Tá bem, admito que até cheguei a tentar a parte verde.

Minha tarefa seria, então, relaxar completamente. Deitado de bruços, sugeria-se encaixar a face num buraco na extremidade da cama, com vista para o chão. A princípio, parecia um mecanismo maneiro. Mas logo percebi que a posição pressionava o pomo-de-adão (o osso do gogó) contra a cama, a ponto de me deixar desesperado.

Permaneci durante mais de meia hora ali, sufocado, sentindo o sangue se concentrar na minha cabeça, que a essa altura estava prestes a explodir. Até que não suportei mais e pedi para virar o rosto de lado, quebrando o protocolo da parada. Caiu a ficha: “_ Humm... essa é uma clínica para mulheres, que, normalmente, não têm pomo-de-adão desenvolvido”.

A massagem durou mais alguns minutos. Por vezes, a dona apertava minha bunda, o que me deixava um pouco constrangido, mas não a ponto de me manifestar a respeito. Dado momento, sou orientado a virar-me de barriga para cima. A massagista então resolve besuntar minha cara com uma espécie duma meleca, o que não foi nada gostoso. “_Essa é a máscara, ok?” – esclareceu. Em seguida, deu umas pegadas na sola do meu pé. Concluí imediatamente que se tratava da tal coisa ‘podal’ prometida no anúncio do serviço.

No desfecho da sessão, a profissional indaga: “_ E aí, gostou?”. Limitei-me a responder: “_Aaaaa”.

Mas vejam bem. Não foi aquele ‘Ahhhh...’ que a plateia do Programa do Jô profere quando termina uma entrevista empolgante. Tampouco o ‘Ah!’ refrescante das antigas propagandas do Kolynos. Também não emiti um longo e confortável ‘Aaahhh......’ daqueles de quando a gente se espreguiça. Foi apenas um ‘Aaaaa’ e ponto final. Não diz nada. Mais ou menos semelhante à resposta do mordomo Tropeço, da Família Adams, quando alguém lhe fala qualquer coisa.

“_O que tem agora?” – interpelei, mudando de assunto.

“_Agora você entra na banheira do ofurô. Tenha um bom momento”, apontou, falando pateticamente bem baixinho.  

Por isso lá estava eu, imerso na água quentinha e cheirosa, rodeado por pétalas vermelhas. Senti falta de uma TV para me distrair. Também não havia música, e o silêncio não existia por causa do barulho do trânsito lá fora. A luz que vinha da janela entreaberta novamente incomodava. Acima de mim, havia uma lâmpada suspensa. Inevitavelmente me veio à memória a cena de alguma novela em que um aparelho elétrico ligado é jogado por um assassino na banheira, torrando o banhista. “Bom momento... tsss”.

Entediado, passei a admirar as formosas pétalas que desfilavam cheias de charme e vagarosamente. Sedutoras, com um perfume bom demais. 

Aí entendi a costumeira associação que se faz da rosa vermelha à paixão. Entendi também a lógica dos insetos, a razão pela qual as abelhas e marimbondos chupam incessantemente o núcleo das flores. E o motivo de formigas e joaninhas também curtirem descansar por ali.

Na parede, havia um relógio de ponteiro parado, marcando seis e meia da manhã. Mas já era meio-dia e o calor me aborrecia no ofurô. O pior foi quando afundei a cabeça e me senti como um pastel se sente ao ser mergulhado na gordura quente. Emergi sentindo cheiro de óleo, com o rosto e o cabelo melados.


Fui salvo desse martírio quando a tal mulher da massagem reapareceu dizendo que o tempo havia se esgotado.

Vesti-me e parti daquele lugar infernal. Por razões éticas, não mencionarei o nome do estabelecimento. Mas fica na rua Tomás Gonzaga, número 4000. Bairro Lourdes, na capital de Minas Gerais. Na saída, descobri que o ‘lanche’ referido na propaganda que me atraíra consistia em uma barrinha de cereal. Saborosa, mas não o suficiente para compensar os meus preciosos 59 reais investidos na empreitada.

Remoí a constatação de que custaria menos do que isso a viagem de ida e volta para ver minha família no interior. Daria também para comprar, por 59 mangas, uma camisa bacana; mas priorizei essa massagem tosca. Eu descolaria uma balada open bar por esse mesmo valor. Mas passei a manhã lambuzado de óleo, sentindo calor. Que prejuízo...

É isso, crianças. Quando seu sanduíche no Subway, mais o refri, ficar em 20 reais, não se zangue. Se a garrafa de cerveja tiver custando 6 no boteco, beba satisfeito. Se te oferecerem um ingresso a cinquentão para ver o jogo do Mequinha na Série B, compre...

...compra porque tá barato pra caralho!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Parto perfeito

Hipermercado em horário de pico é tão tumultuado quanto o trânsito na capital. Tão estressante quanto uma redação de jornal diário. Nessa hora, todos voltam do trampo e vão às compras, inclusive eu. 

Logo na entrada do Extra, mendigos armam o cerco para filar uma esmola. Os únicos carrinhos de compra desocupados têm as rodas empenadas ou frouxas.

Não há ninguém para informar onde ficam as barras de cereal, nem onde se pesa os chuchus. Uma velhinha gulosa briga comigo pelo último sucrilhos da prateleira. E vence. A fila no caixa é comprida por demais, o sistema dá pau e o freguês à minha frente resolve passar três carrinhos abarrotados, um barril de botar lixo, uma escada e quatro pneus.

Por falar em pneus, não tenho carro. Tampouco paciência para voltar ao hipermercado e vivenciar tudo de novo. Portanto, carrego nos braços todos os mantimentos do mês de uma só vez. Não respeito o limite de 20 kg suportado pela sacola. Assim que deixo o estabelecimento, ela começa a se romper. Precisarei carregá-la apoiando o fundo com uma das mãos ao longo de 2 km.

Esse calvário acaba me deixando confuso, então escolho a saída errada do estabelecimento e desemboco no quarteirão inverso. Terei de contornar a quadra para seguir rumo ao meu lar, o que alonga ainda mais o percurso.
Enquanto vou me contorcendo ao segurar a imensa sacola de compras prestes a arrebentar, disponho de todos os palavrões de que tenho conhecimento para lamentar pelo início de noite desastrado. Suado, cansado, indignado, dolorido, puto da vida!

Mas deparo-me, de súbito, com algo que me deixa perplexo.

Fico paralisado, mirando o cenário familiar. Um filme me passa pela mente. Visualizo cenas remotas e com pouca nitidez. Recordações há muito adormecidas vêm à tona. É a portaria de um hospital. O letreiro informa: HOSPITAL SEMPER.

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Há alguns anos, eu vira essa mesma portaria pela primeira e única vez. Foi quando deixava o recinto onde ficara internado durante cerca de uma semana. O episódio remonta-se em minha memória com muita precariedade. Na ocasião, eu me recuperava de um traumatismo craniano grave que me deixara em coma por 48 horas, e de inúmeras escoriações. Não batia muito bem da cabeça. Tinha apenas doze anos de idade.

Ao rever a fachada, lembrei-me das minhas impressões naquela distante tarde de sábado. Sentia alívio. Embora não estivesse totalmente recuperado quando deixei o leito hospitalar, preferia receber alta do que ser um paciente internado. No linguajar de hoje, trocava então meu status.

“Bora Deus. O pior já passou.”

Tudo ainda era muito confuso para mim. Eu não me recordava do acidente que me trouxera ao hospital da capital. Felizmente, a cena havia sido apagada do disco rígido. Nem fazia muita ideia do sofrimento pelo qual havíamos passado minha família e eu. Disseram-me que fui atropelado.

_Mãe, eu tô sonhando? Toda vez que acordo, te vejo do meu lado.
_Foi um sonho ruim, filho, mas já passou, graças a Deus.
_Como assim? Quê que aconteceu?
_Você foi atropelado por um carro quando andava de bicicleta, filho.
_E como tá minha bicicleta?
_Sua bicicleta estragou toda. A roda virou um oito. Joguei fora.

Voltei a dormir, pensando: “Essa minha mãe... sempre exagerada!”.

Recebi a visita do meu tio Tião.

_Filho... psiu... filho... você reconhece esse tio?
_Ah mãe... tio Fernando. – e me virei para dormir de novo.

Tinha dificuldade para articular as palavras. No fundo eu sabia que era o Tião. Eles pensaram que eu tinha ficado doido.

“Que preguiça de pensar e de tentar falar...!” – confabulei indignado.
Novamente diante do Hospital Semper, a noite caía e eu nem sentia mais o peso da sacola e a dor nos antebraços. Retomei outros instantes raros concedidos pela memória. A primeira vez que andei de elevador, e de cadeira de rodas. A primeira vez que vi uma máquina onde a gente enfia dinheiro e dela sai Coca-Cola. O cheiro fortíssimo da comida do almoço.

_Mãe, quê isso? Tô tão doido que tô comendo até berinjela...

O quarto branco, os enfermeiros me levando para o banho. O futebol de areia na TV.

“Esse pessoal que eu nem conheço me vendo peladão todo dia...”

“Esses caras na praia e eu aqui de cama, sem saber nem o porquê. Que bosta.”

Falei com minha irmã, criança de nove anos, pelo telefone. A boca não obedecia mesmo ao que o cérebro queria dizer. Depois soube que ela chorou ao me ouvir conversando com aquela moleza. Chegou uma cartinha sua.

Permanecia acordado pouquíssimos instantes por dia. Não sentia dor, só um soninho constante. Ouvia o pessoal falando sério sobre minhas possibilidades de recuperação. Iam e voltavam de Monlevade para trazer alguém ou alguma coisa. Interessante: num piscar de olhos o fulano ia e já estava de volta!
As divagações duraram alguns minutos. Emocionei-me, fiquei também um pouco impressionado. O tempo, o senhor dos destinos. Ele avança, voraz, e o que resta após sua passagem são só as lembranças. Muitas vezes, nem elas. Falando nisso, quanto tempo se passou mesmo...?

Bem, vamos lá: janeiro de 1998. No dia em que voltei do Semper, completava-se um mês desde que eu havia ganhado a bicicleta de presente de Natal... logo, dia 24 de janeiro. Que dia é hoje mesmo? Ops! Caralha! Hoje é 24 de janeiro de 2012. Faz 14 anos! Na risca!!!

Depois dessa constatação, eu, que já era um rapaz boquiaberto, fiquei pasmado de vez. Após ter estado entre a vida e a morte, nasci de novo, em 24 de janeiro de 1998. Hoje é, pois, meu aniversário de 14 anos! 

E cá estou. Voltando do meu trampo, de bermuda nova. Trabalho somente à tarde e posso ir de bermuda. O emprego é bom, concursado, de jornalista. Carrego um fardo pesadíssimo, mas são apenas as compras do mês. Estou exausto. Mas é só chegar em casa, deitar, abrir uma latinha e fico novo, de novo.

Cá estou. Pensei em entrar para rever o interior do Semper, mas nem rolou. Basta de observá-lo. Não estou mais zangado por ter saído pela porta errada do hipermercado. Pensando bem, acho que essa maluquice de ficar frequentemente perdido, entrar na rua errada ou sair de tal lugar pelo lado mais difícil pode ter sido a única sequela do acidente.

Antes de partir, uma olhadela para o céu.

“Bora Deus. Nasci de novo e o parto foi perfeito. Ou quase.”

sábado, 24 de dezembro de 2011

O dia em que Noel caiu do trenó

O alarde veio lá da Ásia. A chinesinha Chun ficou furiosa porque ganhou um Playstation no lugar da girafinha que tanto queria. Enviou dezenas de cartinhas nos dias que seguiram, reclamando ao bom velhinho. 

Naquele 24 de dezembro, pela primeira vez em tantos anos, Noel se atrasou. É que na hora de trabalhar, o despertador não tocou. O barbudo havia tirado um cochilo após assistir a uma partida de hóquei pela TV. Sabe como é: sofá macio, casa quentinha, TV de plasma... Ele acordou assustado, saiu às pressas e acabou se atrapalhando todo.

E o pequeno Joãozinho nada entendeu quando abriu o embrulho: uma bicicleta rosa, e com rodinhas! “Mas eu pedi uma bola de futebol!”. Bob, que negociara um violão com Santa Claus em troca de tirar boas notas no colégio, pôs-se a chorar quando se deparou com um par de patins sob sua árvore natalina.

As bolas foras não pararam por aí. Papai Noel pagou mico no lar de uma família africana, quando em vez de entrar pela chaminé deu as caras na área de churrasco e foi surpreendido por todos. Isso sem falar que a jornada fora muito mais lenta do que o usual, porque Noel escalou por engano algumas focas para puxar o seu trenó: como todos sabemos, as focas não voam! O velhote ainda seria pego no bafômetro, na Alemanha. Quando passou por lá, não resistiu e desceu alguns chopes. O guardinha acabou perdoando a multa ao ouvir sua justificativa: “Ho, ho, ho, foi mal aí!”

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Depois de uma noite de trapalhadas, o velho regressou à sua fazendinha, no polo Norte do planeta. Então percebeu que largara a porteira aberta. Sua criação de leões-marinhos havia fugido. Um urso polar acabou devorando seu pinguim de estimação. No jardim de inverno, lá estava um boneco de neve, fantasiado de Noel, bombardeado com tomates podres e moedinhas, em sinal de protesto.

No fogão a lenha, o peru havia tostado. Dali a pouco, o senhor de barbas alvas encontrou seus chinelos de tamanho 43 molhados, na porta do chuveiro. “Ops! Quem os calçou na minha ausência? E pra onde foram Mamãe Noel e meu leal elfo Richard?”. Ao se mirar no espelho, constatou que trazia na cabeça uma bota felpuda. O gorro, por sua vez, estava no pé.

O ancião então se angustiou. “Só pode ter sido maldição de algum desaforado!” — esbravejou rouco. Mas quem? Quem teria sido capaz de armar contra o generoso guru natalino? Que coração rude ousaria comprometer a mais valiosa comemoração de todas as crianças da Terra?

Procurou por pistas, vestígios de tal alma ingrata. Os olhos cansados rastrearam então minúsculas pegadas que levavam até a guirlanda. 

“Caraca!” — Noel desvendava, enfim, quem havia lhe lançado tal praga.

Abaixou os óculos para ler melhor.

Num bilhete, estava escrito assim: "Quem é o bonzão agora, otário? Atenciosamente, Coelhinho da Páscoa".

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Global Positioning System

Aprendi que, na capital, 1700 metros de distância quer dizer “logo ali”. Assim sendo, posso dizer que sou vizinho do maior conjunto de hospitais, clínicas, prontos-socorros e afins de todo o Estado: o complexo da Área Hospitalar. De lá, tomo todos os dias um coletivo que me entrega, em trinta minutos, na porta do trampo: a UFMG. Também é na Área dos Hospitais que desembarco após o expediente, e sigo caminhando de volta ao lar.

Há alguns anos, ter um cafofo nos arredores de um núcleo como esse seria para mim elementar, devido às recorrentes bebedeiras que eu praticava. Por vezes, precisei comparecer (ou ser levado) ao hospital para equilibrar meu nível sanguíneo de glicose; outras, porque a ressaca passou a provocar em mim a sinistra Síndrome do Pânico. Teve também a noite em que quase mutilei meus dedos da mão direita com os cacos de um copo de vidro. Em outras oportunidades apanhei, embriagado, sem saber direito o porquê.

Mas a juventude foi ficando para trás e tudo isso já está praticamente superado em definitivo.

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Dos remotos anos de minha vida, conservei a irritante sina de sempre ficar perdido. Nas terras interioranas onde nasci e me graduei, cometi erros vetoriais, ridículos. Hoje, morando na cidade grande, perco o rumo quase todos os dias. É vasto e humilhante meu histórico de equívocos de rota.

Tento desenvolver, então, artimanhas para evitar os desvios. Para ir ao trabalho, por exemplo, vou codificando referências como igrejas, bares e nomes de ruas. Acontece, porém, que já se foram várias tentativas frustradas de completar o traçado sem me confundir entre o emaranhado de logradouros de BH. Por isso, as referências corretas misturam-se às erradas, compondo um louco mosaico de registros que em nada me ajudam.

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Mas ontem haveria de ser minha redenção. Pela primeira vez, chegara à Área dos Hospitais pelo caminho mais curto, sem deslizes. Fui trabalhar aliviado. Bastava então que, a partir das 19 horas, eu regressasse em segurança à minha casa e pioneiramente seria completado, impecável, o trajeto de ida e volta do meu ganha-pão. O que para um sujeito normal não representa nada demais, seria para mim um divisor de águas. E por falar em águas, o céu desabou na Capital das Alterosas durante todo o dia.

Ao término do expediente, deixei então, esperançoso, a avenida Antônio Carlos, em frente ao campus universitário. Do ponto onde embarco até o extremo dessa avenida são 5,5 km. A partir daí, normalmente o busão ingressa no Centro da cidade e percorre cerca de 3 km até a famigerada Área Hospitalar, no bairro Santa Efigênia. E então volta para a Antônio Carlos.
Dado momento, o coletivo empaca num gigantesco engarrafamento. Minha intuição acusa que estou próximo do meu destino. Concluo, logo, que se descer e prosseguir a pé, chegarei mais rapidamente.

E assim faço. Caminho sob a chuva fina, debochando dos passageiros que abarrotam os veículos, cantarolando e contemplando a liberdade. Afinal, não me importo de molhar o cabelo e a roupa, moro “logo ali”, esbanjo fôlego e saúde. Sou independente e essa avenida tumultuada me parece mesmo familiar.

A caminhada solitária me leva a refletir sobre o quanto sou privilegiado: comecei a trabalhar em Belo Horizonte, onde há muito almejara fixar raízes. Minha rotina não é estressante, o calor na metrópole não incomoda, vivo com bons amigos em um bairro agradável... eita! Já andei uns 30 minutos e não sei mais onde estou! Bosta! De novo!

Antes de entrar em desespero, capto vestígios que ajudem a me situar. “Hum... aquele depósito. Hum... aquele cruzamento”. Nenhum resultado. Tento abordar um taxista, mas ele se recusa a abrir o vidro para me ouvir. “Esse malandro na chuva deve tá querendo me roubar!” – teria pensado.

Mais à frente, avisto uma senhorita, andando de sombrinha entre o amontoado de automóveis lentos. Apresso o passo, com a cautela de não parecer um assaltante. “Olá, boa noite, por favor, que rua é essa?”. A resposta não poderia ser mais animadora: “Essa é a Antônio Carlos. A UFMG é logo ali na frente!”. 
O pior sucedeu. Uma hora e meia depois, estou eu de volta ao ponto de origem. Isso mesmo! Por incrível que possa parecer, eu fora capaz de percorrer toda a avenida onde fica meu trampo, circular pelo Centro, e voltar para a mesma avenida, completando o itinerário do busão! Difícil acreditar, mas eu fui capaz. Só me restou pegar novamente o ônibus e fazer tudo de novo. “Onde foi que eu errei dessa vez?” – passava pela minha cabeça...

Já era nove e meia da noite quando finalmente desci no meu destino, a praça Hugo Werneck: uma bela região, cercada por árvores, hospitais, prontos-socorros e clínicas por todos os lados!

Por aqui também há botecos.

Depois de todo esse episódio mereço tomar uma cerveja antes de ir para casa. Preciso relaxar. Aliás, uma só não. Duas, ou quem sabe seis...

Se eu passar mal, me cortar ou apanhar não tem problema. Hospital por aqui é o que não falta.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Divagações metropolitanas

A pressa que assola o aglomerado de cidadãos nas estações de metrô me deixa encafifado. Adolescentes, senhoras, gordinhos ou mocinhas: todos eles na correria. Mas para que? Por acaso presumem que o lugar para onde vão está muito melhor do que o lado de cá? Ou, de outra forma, por aqui está tão ruim que eles não vêm a hora de chegar a seus respectivos destinos?

Aquele japonês com cara de doidão, se desacelerasse o passo, perceberia que há muitas maneiras de se distrair em meio às conexões metroviárias. Eu, que caminho lentamente, sempre organizo, secretamente, concursos de beleza feminina. A cada viagem, desfilam pela minha passarela centenas de candidatas a caminho do vagão. A disputa segue com o trenzinho em movimento. Além da Musa do Dia, são premiadas a Miss Simpatia e a Miss Coroa.

Quando não estou apreciando a beleza exterior das mulheres, julgo o caráter dos usuários em geral. Por meio de uma análise superficial, consigo desvendar com precisão a idade, a profissão e o estado civil dos metropolitanos. As professorinhas são facilmente identificadas. Alguns têm cara de Geraldos, outros moram com a avó. Há os que claramente gostam de assistir corrida de automóveis pela TV. E os que enviaram seus currículos e agora se dirigem, com ansiedade, a entrevistas de emprego.

Só não absorvo a razão pela qual sempre sobem as escadas atropelando uns aos outros...

Tem aqueles caras que já foram presos, ou em breve o serão. As senhoras que não suportam mais ficar dentro de casa com seus maridos aposentados, entediados e rabugentos. As graciosas voluntárias que se fantasiam de palhaças para animar eventos infantis na pracinha. Às segundas-feiras, sou capaz de identificar os torcedores que ostentam, contentes, os símbolos do time de sua preferência. Até esses se locomovem rapidamente.

Interessantes também são as distintas procedências da rapaziada. Aquele grupo de moleques de boné mora em uma cidadezinha dos arredores da capital. Fazem um curso profissionalizante. A donzela de cachinhos nasceu em Goiás. Trabalha o dia inteiro e despende todo o seu salário para custear a faculdade noturna de Administração. Isso talvez explique porque anda tão afoita.

Somente aqui, neste vagão, há um garoto de programa, uma advogada cujo automóvel está na oficina, um menininho que fugiu de casa, uma enfermeira muito católica, um capiau que nunca andou de metrô, um caboclo gente boa que dormiu na casa da sogra e um desempregado que acordou cedo à toa. São diferentes interesses e realidades que convergiram para a mesma caixa de metal que se arrasta sobre os trilhos! E todos eles, como já mencionei, atravessam voando entre as roletas.

Eu, por exemplo, quem passa correndo nem imagina!, sou de Monlevade. Estava no Espírito Santo no fim de semana, prestando um concurso público. Cheguei às sete da manhã na estação São Gabriel, no leste de Belo Horizonte. Estou a caminho de Contagem, no extremo oeste, onde desembarcarei e tomarei outro coletivo para chegar ao trabalho.

Como só bato o ponto às nove, não tenho o mínimo de pressa. Por isso estou tranquilo, e sigo meu rumo observando tudo. Devagar. E divagando.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Coifas & Depuradores


Um adolescente, quando o destino lhe dá asas e ele vai voar longe da família, experimenta uma imprevisível dose de liberdade e outras generosas de aprendizado. Desfruta-se de coisas boas morando com outros estudantes numa cidade universitária, mas também é comum se esborrachar no duro chão da convivência indesejada.

No meu caso, posso dizer que um momento chegou, enfim, lá pelos vinte e poucos anos de idade, em que me cansei de todas as pessoas deste ingrato planeta. A essa altura, já tinha me formado na faculdade e fazia jus a um modesto salário como jornalista da câmara de Contagem. Era o suficiente para poder mudar de fase.

Queria um canto só meu. Entrar em casa e encontrar o prazeroso silêncio e a valiosa solidão. Andar pelado e ligar o som. Abrir as janelas, a cerveja, uma revista e o chuveiro – tudo ao mesmo tempo, sem incomodar ou ser importunado.

Acabei descolando um cafofo onde mal cabiam uma cama de casal e um lugar de pendurar a toalha. Pensei: “Maneiro. Para começo de conversa vou comprar uma vassoura. E um sabão”.

É aí que começa o caso.

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Cheio de ânimo, rumei ao supermercado e me aventurei pela misteriosa seção de materiais de limpeza. Ali conheci um universo cheio de complicações. 

Antes de alcançar o simplório sabão, fui apresentado a seus semelhantes sofisticados: alvejante e desinfetante. Passei direto pelos solventes.

Mais adiante, me deparei com os inoportunos clorados e os inúteis limpa-fornos. Por outro lado, achei um barato os chamados saponáceos. Não quis comprar nenhum desses.

Descobri que um pano, para ser alguém na vida, precisa ser um pano multiuso. Quase tropecei num estoque de desentupidores. Tive vontade de chutar as esponjas sintéticas e os polidores de metal, para bem longe.

Os amaciantes, com diversas cores e fórmulas, por suas vezes, me cativaram pelo perfume sublime. Paquerei também os eficientes lustradores e as simpáticas pastilhas para ralo.

Imaginei que os odorizadores de ambiente, quando crescessem, gostariam de ser bem-sucedidos limpadores perfumados. Mas logo me dispersei.

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Por fim, decidi levar uma cera líquida, um álcool em gel e um negócio de eucalipto. Ah, e achei muito interessante um pacotinho em que estava escrito Coifas e Depuradores. Também ocupava a prateleira, perto das lãs de aço.

Eu sabia, e qualquer avestruz também sabia... era só jogar no Google para descobrir qualquer coisa. Mas todo aquele episódio me fez perceber que eu estava perdendo minha inocência. 

Por isso, decidi:

Eu jamais pesquisaria sobre o que vêm a ser Coifas e Depuradores.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Bliguinho


Na madrugada, melancolia e solidão. Os músculos das costas sofriam: tinha de me curvar para arrastar a mala de rodinhas com a alça quebrada. Não seria problema se não tivesse de carregar, ainda, uma bolsa, uma mochila, uma sacola imensa. E a pesada saudade que insistia em vir junto. 

A chuva fina incomodava. Instantes antes, havia chorado pela última vez ao deixar o apartamento vazio de gente. Seu caráter de lar desconfigurado por causa de um mundo de mobílias amontoadas, tanto dos predecessores quanto dos novos moradores.

Despedi-me da suíte que fora só minha por meio ano e dos demais cômodos da casa. Se tivessem o dom da fala, as paredes relatariam às gerações vindouras, com entusiasmo, as farras ali vividas, desde o tempo em que passou a ser divertido tomar um fardo inteiro de long neck assistindo futebol na TV.

Diálogos com amigos, videogame, paqueras e casinhos. O ímpeto de nostalgia havia feito telefonar para a namorada de cinco anos atrás. Um contato inédito, diferente das duas ligações anuais, nos respectivos aniversários. Certamente ela não estaria na cidade.

Estava, mas não fez questão de me ver. Com os olhos de cimento rasos d’água, as paredes me disseram o último adeus.

Abençoado pelo sentinela da rua, "vai com Deus, irmãozinho!", caminhava lento, dolorido, a caminho do ônibus que me levaria para longe dali. O pensamento perdido em lembranças, planos, lamentações, devaneios.

Em dado momento, minhas vistas imperfeitas detectaram um corpo pequeno que se aproximava, e que fez lembrar um sujeito pitoresco, conhecido como Bliguinho. Mas aquele que vinha parecia ser ainda menor. “Quer ajuda com as malas?” — abordou-me. Percebi que era mesmo Bliguinho.

Apesar do rosto infantil e do porte minúsculo, não é mais criança, porque tem barba na cara. Não é adulto, por causa do sorriso puro. Não é mendigo, os dentes saudáveis. Não é lúcido, vaga pela cidade. Vez por outra, em ocasiões inoportunas, presta louvores a este ou àquele time de futebol. Não é bobo, tentou beijar minha garota uma vez. Esse é Bliguinho, que despencou às três da manhã na avenida principal para me ajudar com as malas.

Ao contrário do que ele pensara, eu não estava sozinho. Afundado em memórias, no momento derradeiro na cidade universitária, acompanhava-me o motorista espertalhão que me trouxe pela primeira vez a Viçosa. Ele falava um monte de putaria e eu era um adolescente que me achava muito doido porque iria morar fora aos 15 anos de idade. No som do carro tocava uma música boa, parecendo country, que minha ignorância internacional descobriu, anos depois, tratar-se de Dire Straits.

Voltou à tona aquele porteiro do prédio que conseguia gostar de mim embora eu fosse o adolescente mais baderneiro do condomínio. A turma do colégio, os folclóricos malucos da cidade. Os caras da república, os amigos da faculdade. E as tantas pelas quais me apaixonei.

A partir daquele momento tudo seria passado. E a última pessoa que encontrei na cidade enquanto ali morava foi o pequeno Bliguinho, que certamente não faz ideia de quem eu seja. Misto de criança com adulto, alegria, insanidade. Assim como a vida em Viçosa que se findava.

“Quer que te ajude com a mala?”. “Precisa não, Bliguinho, já tô chegando”. Deu meia volta e sumiu no mundo.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O velho cão da boemia a um dia de se casar

A princípio, Walter teve de se desfazer das bermudas tactel e dos pares de sapatênis. Deixou de lado as camisas estampadas e o brinquinho de argola. Abadás de micaretas passadas não veria mais. O infalível gel fixador deu lugar ao creme para pentear. Isso, no decorrer de, apenas, o primeiro ano de namoro.

Já há algum tempo, ele vinha se preparando para a iminente transfomacão. Teria de jogar para escanteio o compromisso de acompanhar as séries A, B e C do Brasileirão diariamente pela TV. Desde o mês anterior, passara a abrir mão dos campeonatos turco e português. Será preciso se adaptar a dividir o lar, seu tempo e atenções com a esposa. Eventualmente vai assistir à melosa novela das nove com a amada.

A vida é mesmo assim, feita de fases.

E é bom ir se acostumando com a ideia de compartilhar com a mulher a direção de seu tão estimado Toyota Corolla. Até então, o leme do possante jamais fora manejado por outrem. Com sua dama, aprendeu a ajeitar a cama e tampar a pasta de dente. Foi pela primeira vez a um restaurante japonês e à cidade histórica de Tiradentes. Das malandras viagens só com amigos, já se acostumara a estar ausente. Logo ele, o líder nato da moçada.

O velho cão da boemia está a um dia se casar.

Quanto à mais significativa das mudanças, no entanto, seu coração quer relutar. Essa sim, irreversível, mas ele sabe que tem de assimilar. Diz respeito àquilo que o faz se sentir homem. Instinto voraz, algo maior do que ele.

A bem da verdade, é muito comum entre os machos manter tal hábito, mesmo depois de casados, enquanto tiverem energia. "Mas não sou como os outros" — insiste o noivo em tentar convencer a si próprio.

Na véspera de seu adeus à vida de solteiro, ele decide que faz jus a uma recaída. "Voltarei lá, mas será a última vez" — estabelece. Logo na entrada, reencontra alguns de seus cúmplices. Gente boa, mas sem futuro. Não dizem nada que presta, estão ali à caça de prazer e diversão.

Walter se emociona ao imaginar que nunca mais pisará o recinto onde tanto se saciou. Sente uma ponta de inveja quando avista um companheiro, completamente suado e satisfeito, relaxando ao sabor de uma cerveja gelada.

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Tentando não pensar em mais nada, lá está Walter, enfim, pela derradeira vez, fazendo aquilo de que mais gosta: vestindo a camisa número 6 do time dos solteiros, na pelada de sexta-feira da firma. Titular absoluto da lateral esquerda durante nove anos, ele deixou escorrer uma lágrima assim que ouviu o apito inicial. O time dos casados joga com dois volantes e três homens de armação. Não há lugar para um ala de contenção. Por isso Walter decidira, com imenso pesar, pendurar as chuteiras ao fim da peleja.

É difícil aceitar, mas a vida é assim, feita de fases.