quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O isolador de alcaloides


Logo pela manhã, o alarde foi dado: —Douglas isolou três alcaloides!

E você não imagina a danada da confusão que isso deu. Ainda mais porque o Douglas estava desaparecido. Desde a terça-feira, ninguém tinha notícias dele. E agora essa novidade meio sem pé nem cabeça.

Seu amigo, o Marcos, morava com ele. Foi o primeiro a se angustiar: —Alô, dona Selma. Tô ligando porque ando preocupado com o Douglas. Desde a terça-feira que ninguém sabe do seu paradeiro. A última coisa que se soube dele... é que tinha isolado três alcaloides. Fato é que escafedeu-se há dias!

—Ai meu Deuuus! Eu sempre falei pro meu menino... não mexe com essas coisas... não anda com má companhia... Ai meu Deuuus...

O Douglas nem é mais menino, como pressupõe sua mãe. Já passou dos trinta e poucos anos.

"Bom, melhor avisar à noiva do Douglas", atinou Marcos. O Douglas não tem família em Belo Horizonte. Sua noiva mora no norte de Minas. —O QUÊ??? Ele isolou três alcaloides??? Nossa... conheço o Douglas há sete anos... ele nunca tinha feito isso...

O dia foi passando e nada do Douglas dar as caras.

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Sabia-se que o Matheus era amigo antigo do Douglas — que como eu já disse, não tinha familiares na capital. —Sei dele não... Nem tava sabendo que mexia com alcaloides...

Reitero que tudo isso foi o Marcos (que mora com o Douglas) investigando. Ao averiguar aqui e ali, Marcos soube que a galera do futebol abriu várias cervejas depois da pelada, para comemorar o caso do isolamento dos tais três alcaloides. Mas por lá também ninguém tinha pista de onde estaria o Douglas.

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Marcos decidiu então acionar outros amigos em comum. Recorreu ao Willian, mas foi em vão: —Alcaloides, moço? Não manjo nada dessas paradas de eletricidade.

Então passou por ali o Renan: —O Douglão isolou os alcaloides? Alcaloides, que maneiro..., forjou, ele, uma reflexão.

A polêmica logo chegou aos ouvidos do Reginaldo, mas este também não entendia bulhufas de alcaloides, nem de nenhum outro tema relacionado à física quântica. Assim mesmo, questionou: —TRÊÊS???, fingindo estar espantado quanto ao expressivo número de alcaloides envolvidos em tal contexto de isolamento.

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A coisa começou a apimentar quando o Ulisses tomou parte. —Que história é essa de isolar? Não podemos isolar ninguém! Pelo contrário, temos de acolher!

E o Ulisses era primo do vice-prefeito, que também meteu seu bedelho: emitiu carta oficial de repúdio ao isolamento de minorias, em nome do partido. Num piscar de olhos, o ofício se alastrou por toda a imprensa local. E daí despertou a atenção do pessoal dos direitos humanos. Ativistas de todas as causas se manifestaram nas redes sociais: os comunistas, os anarquistas, os feministas, os machistas, os veganos, os direitistas e esquerdistas. O movimento trabalhista também figurou em evidência. Salvo engano, os alcaloides, em algum momento desse alvoroço, foram confundidos com os debiloides. Não sei se entendi bem, mas parece que os defensores do uso de células-tronco, que andavam sumidos, também teriam encontrado uma brecha para voltar à tona. O povo foi às ruas na sexta-feira, após o expediente, ainda que sem uma demanda consensual pela qual protestar. Queimaram um boneco inflável que replicava o Douglão. Houve vandalismo.

Até ouvi dizer que teve mais um monte de repercussão do outro lado da cidade, mas não sei ao certo.

Depois chegou o fim de semana, e os erros de arbitragem do campeonato brasileiro voltaram a prevalecer nas rodas de conversa, comprovando que a memória dos cidadãos é mesmo curta.

Como é possível presumir, ninguém nessa história sabe lá o que são alcaloides ou sobre a viabilidade de isolá-los. A mãe do Douglas não sabe, tampouco a noiva, nem sequer os amigos, muito menos a sociedade. Eu também não faço ideia.

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Pensei em perguntar pro próprio Douglas. O problema é que ele até agora não reapareceu.

terça-feira, 23 de junho de 2015

José Justo, o abençoado

Este conto é sobre o fazendeiro José Justo, que de justo não tinha nada.

Desde a primeira infância, José Justo se acostumou a trapacear descaradamente. Na brincadeira de esconde-esconde, tapava os próprios olhos deixando delgada fresta entre os dedos médio e anelar, através da qual tinha absoluto domínio visual de todo o campo observável. Descortinava assim, em poucos instantes, os esconderijos dos coleguinhas. Obtinha satisfatório desempenho no colégio, logrado, invariavelmente, à custa de maquiavélicos esquemas de cola. José Justo também mentia para a mãe, surrupiava trocados na caixinha da igreja, furava filas, enganava as namoradinhas, fraudava até exame de vista.

De pouquinho em pouquinho, José Justo ergueu um império na pequenina cidadezinha, e toda a sua conquista é devida à malandragem natural que Deus lhe deu. Sonegou milhares em impostos na comercialização do café cultivado em sua fazenda. Misturava água aos litros de leite tirados das vacas, antes de vendê-los. Ludibriava até seus próprios bovinos, mesclando farinha de trigo à ração dos animais! Dava golpe em velhinho, mendigo, cego ou em quem quer que fosse. José Justo tornou-se rico e influente no lugarejo. Ficou também famoso por causa de suas picaretagens. (...)
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Na pequenina cidadezinha também vivia outro cidadão influente. Era o locutor de rádio Bento Batista; por sua vez, irrefutavelmente íntegro, admirado, respeitado. Não havia quem não o conhecesse pelo bordão que se popularizou na região:

_A voz tenra e amiga de todas as manhãs!

Bento Batista era benquisto por todos e por isso foi convidado a batizar centenas de crianças nascidas na cidade. Solidário, mantinha, com fundos próprios, uma creche e uma casa de repouso para idosos. Vivia com recursos básicos e partilhava o restante de seus rendimentos. Doou um rim e um pedaço de seu próprio fígado a distintos moribundos.

O radialista era um líder, venerado na comunidade. Gozava de tanto prestígio que dava conselhos ao padre e ao delegado. Fazia visitas à cadeia e conversava amigavelmente com presidiários perigosos. Da última vez em que lá esteve, convenceu a autoridade a soltar um tal ladrão chamado Pedro Furtado. “Ele se regenerou, será homem de bem” – garantiu Bento Batista. E não é que o rapaz tomou jeito mesmo? Hoje é conhecido carinhosamente como Pedrinho, e é competente pedreiro.

Por essas e outras, tudo aquilo que o radialista Bento Batista falava tinha valor de lei por aquelas bandas. (...)

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Mas voltemos ao safado do Zé Justo.

Era ano de eleições municipais, e cismou, o sem-vergonha, de querer ser o novo prefeito da cidadezinha. A princípio não teria chances, por conta de sua péssima popularidade.

Acontece que Zé Justo era ardiloso, daria seu jeito de eleger-se. Sorrateiramente, começou a comprar votos. Dava aos pobres pares de tênis, óculos escuros, relógios e toda sorte de bugigangas – tudo produto contrabandeado. Prometia empregos para famílias inteiras, em repartições que nem sequer existiam. Audacioso, tentou subornar seu adversário único no pleito, de nome João Machado, humilde lenhador. “Sou pobre, mas não sou corrupto” – cortou, convicto, Machado. A disputa haveria de ser limpa. (...)



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Quando chegou o mês de outubro, não se falava em outra coisa na cidadezinha.

“Cara de pau esse Zé! Deviam mandar matar!”, sugeriu Dona Severa.

“Daria tudo para ver o Zé derrotado e humilhado”, respondeu sua comadre, Dona Generosa.

“Não cabe a nós condená-lo!” – amenizava Dona Piedade.

“A eleição será correta e tranquila”, desconversava Seu Pacífico. (...)



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O único mesário, da única sessão eleitoral do município, era o Seu Albino, um bucólico pastor de ovelhas. Ele ficou branco dos pés à cabeça quando recebeu, na noite da véspera das eleições, a proposta de Zé Justo: “Um milhão para multiplicar as cédulas com votos a meu favor”. A oferta era sedutora demais, não havia como declinar. Seu Albino encheria o bolso de dinheiro e sumiria no mundo antes do cabo da apuração.

Na manhã seguinte, logo bem cedinho, foram chegando os votantes da cidadezinha. O Ferreira, cabra gente boa, praticava boca de urna ostentando bandeirinhas de seu candidato preferido. Feitas em casa, com santinhos afixados em espetos de pau. Tudo por ali era muito pitoresco.

Antes do meio-dia, já não faltava mais ninguém para votar. Começou então a contagem.

Estranhamente, foram depositadas cerca de três mil cédulas na única urna disponível, sendo que a cidadezinha tinha pouco mais de dois mil eleitores. O Jacinto, rapaz de sensibilidade aguçada, ficou desconfiado. “Sinto que há alguma coisa errada”, pressentia ele. Mas Jacinto não faria alarde. Essas eleições seriam favas contadas. Mesmo lançando mão das suas maracutaias, o cretino do Zé haveria de perder. (...)

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À noitinha, todos os moradores da pequenina cidadezinha sintonizaram seus radinhos no padrão AM, apreensivos quanto à revelação do candidato vencedor. E especialmente ansiosos porque isso seria mediado pela voz gostosa e afável de Bento Batista. Às dezenove em ponto, o queridíssimo e corretíssimo locutor entrou no ar. O resultado do pleito, que há pouco consultara, com curiosidade, em um papelzinho timbrado, era para ele assombroso e trágico. Em nome da imparcialidade jornalística, no entanto, o nobre radialista foi forçado a engolir sua frustração.

_ Boa noite, ouvintes! Aqui quem vos fala é a voz tenra e amiga de Bento Batista. Tenho em minhas mãos o saldo da apuração. E trata-se certamente de uma surpresa para todos. Pela diferença de apenas vinte votos, foi eleito o candidato José Justo de Jesus. Isso mesmo, podem acreditar: deu Zé Justo. Deu Zé Justo!

Dona Margarida, que fechava o caixa na sua floricultura, de repente murchou de desgosto. “Eu ouvi direito? O vagabundo do Zé ganhou? E nosso amado locutor, por conta disso, avalia que Deus é justo?!”.

_ Isso mesmo, querido ouvinte! O Zé venceu. Por essa, ninguém esperava. Mas vemos agora que nada é impossível, porque deu Zé Justo. Deu Zé Justo!

O altifalante do aparelho vociferava e todos se espantavam. Naquele mesmo instante, um velho criador de pássaros, de nome Ícaro, ouvia à transmissão radiofônica no interior da chácara onde trabalhava. Estarrecido, Ícaro disparou pra casa, a fim de repercutir a notícia com a esposa. De tão apressado, por muito pouco não levantou voo. “Escutou isso, mulher? Como assim?! O pilantra do Zé vence e nosso adorado locutor atribui isso à justiça divina?!”.

Bento Batista ainda repetiu mais duas vezes ao microfone, reafirmando para seus milhares de ouvintes:

_Deu Zé Justo! Deu Zé Justo!

Depois sofreu um piripaque do coração e morreu ali mesmo, ao vivo.

Ainda com os ouvidos colados a seus aparelhinhos radiofônicos, e energizados pelo desespero, alguns anciãos, que vadiavam reunidos na pracinha, correram desembestados até duas esquinas adiante, a fim de acionar o chaveiro Xavier para que este desaferrolhasse a porta do prédio que sediava a rádio local.

Feito isso, Dona Socorro, socorrista do posto médico, pôde então subir, às pressas, as longas escadarias do imóvel, rumo ao estúdio de transmissão. Mas logo constatou, muito infelizmente, que não seria possível reanimar o acidentado, já morto. Milhares de espectadores acompanhavam pelo rádio, em tempo real, o fatídico bafafá que sucedia naquela sala. Doutor Nascimento, único obstetra do arraial, interrompeu uma operação de parto para chorar a perda, de joelhos ao chão: “Suas últimas palavras foram de agradecimento a Deus pelo triunfo do Zé... Que santo homem!”, louvava. (...).

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Naquela noite trágica, todos os munícipes compareceram ao velório de Bento Batista. Seu Valente era um dos mais abatidos, mas segurava, corajosamente, o choro. Dona Consolação consolava os presentes; distribuía lencinhos para que secassem as lágrimas. Enquanto isso, o Hilário fazia gracinhas para distrair as crianças, que estavam desoladas.

A figura mais lúcida àquela altura era Dona Aparecida, senhorita cuja presença era sempre muito marcante em quaisquer ambientes. Por sinal, foi ela quem tomou a palavra, emocionada: “Para honra do finado locutor Bento Batista, é nosso dever amar e respeitar o novo prefeito José Justo! De certo, Zé Justo fazia jus à confiança de Bento Batista, como este fez questão de nos demonstrar em seu derradeiro suspiro de vida!” – chorava a dama.

Tal ponderação tocou a consciência daqueles cidadãos, que se arrependeram de terem julgado com tamanha crueldade o fazendeiro José Justo. "Sim! Se era o preferido de Bento Batista, má pessoa não é!", murmuravam entre si.

Na lápide onde jazeu o corpo do idolatrado radialista Bento Batista, foi grafada sua última declaração enquanto encarnado: Deus é justo. (...)


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E foi assim que o fazendeiro José Justo teve a reputação transformada e seguiu nos braços do povo. Ainda que praticasse frequentes cachorragens como mandatário da cidadezinha, sua imagem pública mantinha-se inabalada.

“Abençoado seja! Não é sem razão que seu nome é José Justo!", orgulhavam-se, por ali. 

"Ora, temos cá um homem deveras justo; muito justo, honesto e bom!”, propagavam todos, principalmente o Seu Cícero – bastante reconhecido nas redondezas como sendo um sujeito sincero. 


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O gueto

Vez por outra, faço minhas incursões de retorno ao gueto. Ou melhor, tento fazer isso.

No gueto há muita gente, pouquíssimos com mais do que vinte e três anos de idade. Ali impera a euforia e a liberdade. A noite parece não ter hora para acabar e a pessoa pode ser ela mesma, no gueto. Pode ser quem quiser. E dinheiro nem é importante.

Ali impera o frescor de personalidade. Os assuntos são triviais, as paixões efêmeras. O gueto me faz recordar, com nostalgia, de quando eu pouco me importava com o futuro e com os problemas.

Eu fico só observando tudo. E imaginando onde é que eu me posicionaria ali naquele gueto, caso a ele fosse compatível. Saudosista, brinco de identificar, naqueles rostos eloquentes, minha antiga cambada. Juro que a gente ganhava dessa galera, de hoje em dia.

Eu poderia ser aquele doidinho ali, de barba, cara de avoado. Mas como sou compenetrado e trabalhador, fico só de longe observando tudo.

Vejo a dupla de meninas, que é uma qualquer dupla de meninas até atravessarem a avenida. À medida que se aproximam do gueto, elas se aprochegam entre si. Já no núcleo do gueto, tascam um beijo na boca, meio sem propósito e meio sem nexo.

Em outros tempos, a gente, marmanjos, parava espantado para assistir a um beijo de mulher com mulher. Hoje, a naturalidade arrefece. É como a nota de cem que não impressiona o milionário. Ou como a morte que não choca o combatente de guerra.

Sozinho, goleando a terceira cerveja, fico meio que lamentando por causa dessa inevitável maturidade. Pareço inteligente quando falo com as meninas. A molecagem estampada na minha cara.

O que eu queria mesmo era poder voltar no tempo. "Se não posso voltar no tempo, também não posso voltar ao gueto", determino.

Convicto, vou ao banheiro urinar a quarta e derradeira garrafa. Para depois, aliviado então, pegar o portal de regresso à rotina de IPTU atrasado, promoção no trabalho, multa de trânsito e vontade de casar.

Já vou-me saindo de fininho, sem me despedir dos jovens desconhecidos. É quando ouço balbuciarem a meu respeito, alguns passos atrás: “Ah lá, o doidinho de barba, cara de avoado. Malucão, mijou de porta aberta...”.

Ham... quando esqueço de fechar a porta para mijar sinto que ainda sou um pouquinho malucão.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O dia em que Eberclei plantou três árvores no seu quintal


Todas as vezes em que esbarro por aí com um certo chegado meu, de nome Eberclei, sou abalado por causa da onda de negativismo extremo que emana do sujeito. É um cara durão, meio mau-caráter. Mal-humorado, nada confiável. E de tão puto que sempre está com a própria vida, o cabra é capaz de, em cinco curtos minutinhos de prosa, me contagiar com seu aborrecimento.

Mês passado, por exemplo, assim que me viu numa esquina, o infeliz chegou esbravejando sobre seu time do coração. “Patifes! Fracassados! Perderam a final jogando em casa, estádio cheio. Puta merda!” — introduziu, colérico.

Na sequência, queixou-se do emprego, não aguentava mais aquilo. Já há dois anos era explorado em troca de um salário miserável. E o macambúzio rapaz repetiu três vezes que não tinha perspectivas de crescer profissionalmente. “Assim não dá... que bosta!” — chutou uma pedra.

Eu me arranjava para fugir do assunto, quando o cafajeste interpelou novamente. “Porra, olha só como tô gordo!” — reclamou enquanto empurrava a barriga saliente para o interior da fivela do cinto apertado. Nesse momento enxugou o suor da testa. Não fazia calor, mas ele transpirava.

Então emergiu no repertório do meu interlocutor, sempre pessimista demais, a discussão sobre a fome que assola a humanidade. Ele também falou sobre as guerras e a absoluta impossibilidade de que algum dia impere a boa convivência entre os povos do planeta. Chutou um cachorro que passava inocentemente por ali, o maldito.

'Puta cara nojento...' — eu matutei.

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Em outros dois encontros casuais com o Eberclei, segui me embasbacando com sua infindável lista de lamúrias. Ele jura que no prazo máximo de cinco anos vai faltar água para a maioria da população da Terra. Certificou-me ainda de que a cura da aids não será, jamais, descoberta. 

De quebra, o escroto do Eberclei dissertou acerca da corrupção que é uma praga brasileira, graças à qual não há mais como salvar o futuro do país. E enfim despediu-se, tal ordinário, admitindo que deverá ir para o inferno quando morrer. Como se eu já não soubesse disso. 

O puto do Eberclei me deixa de baixo astral. Eu sempre penso: 'Puta cara chato... Nunca mais quero encontrar esse cretino'.

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Infelizmente, hoje ia chegando ao trabalho quando tive o desprazer de topar de novo com o meliante. Foi de repente, não deu para desviar a rota. Já improvisava uma desculpa para me mandar dali. Mas Eberclei surpreendeu, exclamando: “Velho, como cê tá bonito!”. 

Achei aquilo estranho.

Então ele olhou para o firmamento e comentou sobre nosso privilégio de morar em Belo Horizonte, cidade onde há tão agradável clima. Ameno, pitoresco. “Fomos contemplados! A luz do Sol, o ar da manhã, são tesouros divinos que recebemos de graça...!”. Suspirou como se quisesse engolir tudo aquilo de precioso que havia na natureza.

Sem me deixar responder qualquer coisa, abriu o jornal na página de Economia. “Olha aí rapaz! Taxa recorde de emprego! Esse é o nosso Brasil!”.  

Pensei: 'Que porra é essa... Puta cara contraditório, volúvel do car#lho'.


Aí percebi que Eberclei ostentava olhos brilhantes e estava perfumado. Concluí também que bochechara refrescante enxaguante bucal. 

Em alguns instantes de conversa, em meio à contação de casos triviais, ele enumerou: “Plantei três árvores lá em casa. Tô aprendendo a tocar saxofone. Tô fazendo um curso de massagista, por correspondência. Comprei um skate. Adotei um adorável cachorrinho de rua, paraplégico, o coitadinho”. E não sei o que mais...

Presumi que Eberclei estava realmente feliz. Despediu-se fazendo inédito cafuné no meu cabelo e cantarolando versos em idioma inglês embromado: “Oh, happy day! Oh, happy daaay...”.

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A princípio fiquei muito encafifado quanto a essa nova postura do sujeito. Depois soube o que sucedeu com o safado do Eberclei.

Ele estava na pior até outro dia, mas conheceu uma mocinha durante o fim de semana e ficou apaixonadão. Nem chegaram a beijar na boca nem nada, só paquera mesmo. O suficiente para encher de coisas fofas o seu coraçãozinho!

Por isso anda por aí assoviando, acenando para as velhinhas, abraçando os mendigos.

Quanto a mim, nunca eu o perdoarei. Puta cara volúvel do car#lho!

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O cara basal

No meu terceiro ano de faculdade em Viçosa, apareceu por lá uma caloura chamada Dayana. Simpática, divertida, sorriso fácil.

Não chegamos a ser grandes amigos, mas por alguma razão eu realmente gostava dessa garota.

E você sabe como é a predisposição dos jovens universitários à paquera: quase em tempo integral, são sentinelas que vigiam quaisquer ambientes na tentativa de detectar potenciais pretendentes. Como decorrência natural desse comportamento, nas idas e vindas entre o pavilhão de aulas e o boteco, não era raro que lábios e corações diversos se testassem, de forma casual e frenética. Girava assim, sem cessar, a engrenagem da sedução na cidade universitária. Dia sim, o outro também...  

Mas quanto à Dayana – fui levado a retomar – nunca, em dois anos de convivência, havia sabido de marmanjo algum que tivesse logrado sucesso em cortejá-la. Talvez fosse demasiado rigorosa no aspecto da pegação; ou apenas discreta, reservada. É possível até que tal impressão de intocabilidade não passasse de fruto da minha desatenção. Enfim, por algum tempo, esse mistério me intrigou.

Até o dia em que a vi aos beijos com o Glauco.

Glauco cursava Economia e era aquilo que se pode chamar de um legítimo protagonista da bebedeira. Dava show nas baladas, sempre muito eufórico, de olhos marejados e avermelhados pela cachaça. 

Não apenas por isso, parecia-se muito comigo; éramos fisicamente parecidos. Alguém, não sei quem, um dia notou a semelhança e eu, que sempre fui meio idiota, gostei da ideia de ter um sósia por aí.

Não chegamos a ser grandes amigos, mas eu gostava bem desse rapaz. 

Quando então o vi de chamegos com a referida caloura, veio-me à tona um raciocínio meio sem cabimento: “Não é que eu e ela formamos um belo casal?”. Juro que pensei isso. E emergiram também alguns planos.
Percebi que poderia ser conveniente e divertido aprontar e sujar o nome do Glauco, partilhando, pois, com ele, a queimação de filme. Fazia minhas estripulias pela cidade, e se me perguntassem o nome: “Sou o Glauco da Economia”. De certa forma, era como usar trajes da invisibilidade. 

Por um tempo, não sei quanto, tal estratégia de autopreservação foi eficaz. Mas tudo desandou quando meu gêmeo, que não era bobo nem nada, passou a fazer a mesma coisa. Libertos das amarras da identidade, tornamo-nos ainda mais propensos a arrumar encrencas. Sempre, secretamente, botando a culpa um no outro.

Conta-se até que, certa vez, teriam me visto namorando pelado com uma mocinha em um canto de um boteco onde passava a estreia do Brasil na Copa de 2006. Blasfêmia! Aposto que foi o safado do Glauco!
Essa introdução, com a qual acabei me empolgando, deu-se apenas para ilustrar o quão rica pode se tornar a história de um indivíduo quando ele descobre que tem clones espalhados pelo mundo.

Isso ocorre tão frequentemente comigo que cheguei à conclusão de que sou um cara basal. Ou seja, sou uma espécie de padrão de feitura física de humanos do sexo masculino, a partir do qual os demais rapazes vão configurando seus traços peculiares. 

Uns dão uma melhorada, uma encolhida ou esticada, pegam uma cor, crescem o nariz ou o pé. Mas tudo começa comigo, exatamente como sou. Portanto, quanto menos o sujeito foge do padrão básico, mais sua lataria se assemelha à minha.

Graças a essa particularidade, quase todos os dias sou confundido ou visto em dezenas de lugares ao mesmo tempo. Quando criança, fui botado por engano no carro pela mãe de um tal João Vítor, na porta do colégio. Também já fui chamado de papai uma meia dúzia de vezes. Ainda hoje, ganho caronas e abraços inesperados. Até cachorros me seguem pelas ruas, iludidos.

Nesse sentido, foram inúmeros os esclarecimentos que já tive que prestar. 

_ Não, não te conheci em um pub londrino. Nunca nem andei de avião, minha filha.
_Não, nunca joguei nas categorias de base do Bragantino. Até fui um promissor lateral direito. Cruzava bem, mas interrompi minha carreira na sexta série.
_Não, não estive em um quiosque gay em Cabo Frio no réveillon de 2010.
_Ah, me conhece de algum lugar? Pode até ser...

Dia desses, um amigo me mandou a foto de um cara igualzinho a mim, com quem fazia um curso em Fortaleza. Aí descobri que até a falha no meu bigode é padronizada.

Mais recentemente, circulou na internet uma foto em que eu, supostamente, tocava contrabaixo em uma banda de rock. Mas quem me conhece sabe que entendo tanto de contrabaixo quanto sobre embreagem de foguete. Ainda assim, amigos íntimos, colegas de todas as gerações e até meu pai veio se queixar por não tê-lo chamado ao show.
E o pior está por vir. Soube que o Glauco está morando atualmente em Belo Horizonte. Coisa boa isso não é. Indício de confusão.

Bom, sem mais delongas, o recado está dado. Se por ventura me flagrarem explodindo um caixa eletrônico, saindo do motel com um travesti ou tirando meleca do nariz, saibam que é enorme a possibilidade de ser obra de outro cara, muito parecido comigo.

Se me virem vomitando no banheiro de um casamento, comercializando drogas, pichando ‘morte aos tecnocratas’ no viaduto; é sério, não fui eu.

Se isso acontecer, minha gente, melhor deixar avisado de uma vez: Foi o Glauco da Economia!

PS.: Bem, na verdade estive mesmo no quiosque gay.
Mas entrei lá por engano. 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Paradigmas do menino Eberclei

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sábado, 18 de agosto de 2012

Sábios anciãos

Ontem, passando em frente a um centro universitário, deparei-me com dezenas de jovens embriagados. Havia ocorrido, desde a hora do almoço, uma recepção de calouros, daquelas que nunca terminam. Então era início de noite e, num bairro nobre de Belo Horizonte, rapazes e moças ainda falavam insanidades, beijavam-se ou deixavam no solo generosas poças de vômito. Refleti: “Esses jovens não sabem nada da vida”.

Por sinal, os únicos que detêm a real sapiência sobre a vida – eu seguia matutando – são os velhos. Passamos quase a vida toda sem saber nada da vida, e não nos damos conta disso. Mas felizmente o melhor está por vir: todos seremos um dia velhos e sábios! Exceto, claro, aqueles que morrerem antes de chegar lá.

Tenho uma irmã de cinco anos de idade que não sabe nada de nada. Ela seleciona alguns pretendentes a namoradinho, mas anda enfrentando certas barreiras à paixão: “Gosto do Gabriel, mas ele não serve para namorar... colore tudo rabiscado!”. Rebecca é, pois, ingênua. Tem medo de ficar sozinha em casa, acredita na existência do Papai Noel, não consegue compreender por que chicletes e guloseimas em excesso fazem mal à saúde. Definitivamente, não tem ciência alguma das coisas.
Já os adolescentes pensam que conhecem da vida. Mas, para esses tapados, piercings, penteados escrotos ou notas altas no simulado do pré-vestibular constituem importante capital social. Adolescentes choram por amores que duram uma semana, xingam a própria mãe, fogem de casa. É a idade mais burra, que felizmente dura pouco.

Então chega a juventude, outra época de que a inteligência passa longe. Jovens se alcoolizam, ficam fora de si e são facilmente roubados por ladrões jovens. Estes últimos são também imbecis: cometem crimes e perdem a juventude atrás das grades. Jovens são realmente idiotas, pois engravidam as namoradas, sem a mínima maturidade. Jovens tomam anabolizantes. Há jovens tão tolos que se suicidam!...

Bem, uma vez que cheguei aos vinte e sete, não me enquadro mais entre os jovens. Sou, portanto, um homem feito! Com barba na cara, emprego fixo e alguns fios de cabelo branco. Contudo, admito que também me acomete a absoluta falta de juízo. Não sei se invisto hoje em algo que assegure meu conforto no futuro, ou em viver intensamente enquanto ainda gozo de implacável saúde. Não sei se me caso, se compro um tênis de futsal. Sou mesmo um incapaz.

Daqui a alguns anos serei um coroa, e continuarei sendo um perfeito estúpido. Afinal, os coroas também não sabem nada da vida. Destroem a própria saúde para se encher de dinheiro; depois despendem fortunas em tratamentos de saúde. Há coroas que perdem o respeito da família por causa de uma gostosa com idade para ser sua neta. Há coroas envolvidos no esquema do Mensalão. Há solteirões coroas infelizes. Há inúmeros coroas chatos que são traídos por suas esposas coroas.

Por isso eu digo: quem sabe das coisas, de verdade, são somente os anciãos! Ah, esses sim, podem dizer que são sábios, sabidos, experientes...

Eu não sei dizer do que eles sabem... só sei que os velhos é que sabem das coisas!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A lógica dos insetos

"Fiquei ligeiramente fascinado ao contemplar a singela pétala de rosa a se movimentar. Com imponente elegância, aquele pedacinho da natureza flutuava lenta e uniformemente sobre a invencível membrana d’água. Quão delicada era aquela pele vegetal! O tom vermelho intenso, vivaz, exuberante. Quando então detectei o rastro prateado refletido pela solitária gota no ventre da flor perfumada, aí entendi a costumeira associação que se faz da rosa vermelha à paixão. Entendi também outras coisas..."


...era mais ou menos isso o que assolava meu imaginário durante aquela pasmaceira. Afinal, carecia de alguma ocupação enquanto lamentava pelo meu frustrado investimento de meio de semana.

Comecemos do início:

Em um desses sites de compras coletivas, acabei sendo fisgado por uma promoção. Tratava-se de uma massagem relaxante de nome bizarro, com não sei o quê de reflexologia podal. Se não me engano, mencionava uma tal máscara, óleo de sei lá o quê, ofurô com pétalas de rosas e ervas aromáticas; e ainda um lanche. O valor original do pacote, conforme a oferta, seria 700 reais, mas estava saindo por irrisórios 59. Eram tentadores 92% de desconto.

“_ Caralha, imperdível!” – adquiri impulsivamente.
Cheguei ao local e fui recebido por uma senhorita na sala de massagem. Imaginei que o ambiente deveria ser escurinho, mas uma irritante fresta na cortina atingia em cheio minha tranquilidade. Havia uns balões coloridos estranhos no teto e uma música deprimente misturava-se aos ruídos urbanos que vinham do lado de fora. A mulher solicitou que eu me deitasse, de sunguinha.

“_ Ao aspirar, visualize a cor verde, que remete à tranquilidade. Ao respirar, mentalize o lilás, que é a cor do bem-estar”, orientou-me, com voz de motel, antes de iniciar a massagem. “Seria alguma pegadinha?”, pensei enquanto corria os olhos procurando por uma câmera escondida.

Tá bem, admito que até cheguei a tentar a parte verde.

Minha tarefa seria, então, relaxar completamente. Deitado de bruços, sugeria-se encaixar a face num buraco na extremidade da cama, com vista para o chão. A princípio, parecia um mecanismo maneiro. Mas logo percebi que a posição pressionava o pomo-de-adão (o osso do gogó) contra a cama, a ponto de me deixar desesperado.

Permaneci durante mais de meia hora ali, sufocado, sentindo o sangue se concentrar na minha cabeça, que a essa altura estava prestes a explodir. Até que não suportei mais e pedi para virar o rosto de lado, quebrando o protocolo da parada. Caiu a ficha: “_ Humm... essa é uma clínica para mulheres, que, normalmente, não têm pomo-de-adão desenvolvido”.

A massagem durou mais alguns minutos. Por vezes, a dona apertava minha bunda, o que me deixava um pouco constrangido, mas não a ponto de me manifestar a respeito. Dado momento, sou orientado a virar-me de barriga para cima. A massagista então resolve besuntar minha cara com uma espécie duma meleca, o que não foi nada gostoso. “_Essa é a máscara, ok?” – esclareceu. Em seguida, deu umas pegadas na sola do meu pé. Concluí imediatamente que se tratava da tal coisa ‘podal’ prometida no anúncio do serviço.

No desfecho da sessão, a profissional indaga: “_ E aí, gostou?”. Limitei-me a responder: “_Aaaaa”.

Mas vejam bem. Não foi aquele ‘Ahhhh...’ que a plateia do Programa do Jô profere quando termina uma entrevista empolgante. Tampouco o ‘Ah!’ refrescante das antigas propagandas do Kolynos. Também não emiti um longo e confortável ‘Aaahhh......’ daqueles de quando a gente se espreguiça. Foi apenas um ‘Aaaaa’ e ponto final. Não diz nada. Mais ou menos semelhante à resposta do mordomo Tropeço, da Família Adams, quando alguém lhe fala qualquer coisa.

“_O que tem agora?” – interpelei, mudando de assunto.

“_Agora você entra na banheira do ofurô. Tenha um bom momento”, apontou, falando pateticamente bem baixinho.  

Por isso lá estava eu, imerso na água quentinha e cheirosa, rodeado por pétalas vermelhas. Senti falta de uma TV para me distrair. Também não havia música, e o silêncio não existia por causa do barulho do trânsito lá fora. A luz que vinha da janela entreaberta novamente incomodava. Acima de mim, havia uma lâmpada suspensa. Inevitavelmente me veio à memória a cena de alguma novela em que um aparelho elétrico ligado é jogado por um assassino na banheira, torrando o banhista. “Bom momento... tsss”.

Entediado, passei a admirar as formosas pétalas que desfilavam cheias de charme e vagarosamente. Sedutoras, com um perfume bom demais. 

Aí entendi a costumeira associação que se faz da rosa vermelha à paixão. Entendi também a lógica dos insetos, a razão pela qual as abelhas e marimbondos chupam incessantemente o núcleo das flores. E o motivo de formigas e joaninhas também curtirem descansar por ali.

Na parede, havia um relógio de ponteiro parado, marcando seis e meia da manhã. Mas já era meio-dia e o calor me aborrecia no ofurô. O pior foi quando afundei a cabeça e me senti como um pastel se sente ao ser mergulhado na gordura quente. Emergi sentindo cheiro de óleo, com o rosto e o cabelo melados.


Fui salvo desse martírio quando a tal mulher da massagem reapareceu dizendo que o tempo havia se esgotado.

Vesti-me e parti daquele lugar infernal. Por razões éticas, não mencionarei o nome do estabelecimento. Mas fica na rua Tomás Gonzaga, número 4000. Bairro Lourdes, na capital de Minas Gerais. Na saída, descobri que o ‘lanche’ referido na propaganda que me atraíra consistia em uma barrinha de cereal. Saborosa, mas não o suficiente para compensar os meus preciosos 59 reais investidos na empreitada.

Remoí a constatação de que custaria menos do que isso a viagem de ida e volta para ver minha família no interior. Daria também para comprar, por 59 mangas, uma camisa bacana; mas priorizei essa massagem tosca. Eu descolaria uma balada open bar por esse mesmo valor. Mas passei a manhã lambuzado de óleo, sentindo calor. Que prejuízo...

É isso, crianças. Quando seu sanduíche no Subway, mais o refri, ficar em 20 reais, não se zangue. Se a garrafa de cerveja tiver custando 6 no boteco, beba satisfeito. Se te oferecerem um ingresso a cinquentão para ver o jogo do Mequinha na Série B, compre...

...compra porque tá barato pra caralho!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Parto perfeito

Hipermercado em horário de pico é tão tumultuado quanto o trânsito na capital. Tão estressante quanto uma redação de jornal diário. Nessa hora, todos voltam do trampo e vão às compras, inclusive eu. 

Logo na entrada do Extra, mendigos armam o cerco para filar uma esmola. Os únicos carrinhos de compra desocupados têm as rodas empenadas ou frouxas.

Não há ninguém para informar onde ficam as barras de cereal, nem onde se pesa os chuchus. Uma velhinha gulosa briga comigo pelo último sucrilhos da prateleira. E vence. A fila no caixa é comprida por demais, o sistema dá pau e o freguês à minha frente resolve passar três carrinhos abarrotados, um barril de botar lixo, uma escada e quatro pneus.

Por falar em pneus, não tenho carro. Tampouco paciência para voltar ao hipermercado e vivenciar tudo de novo. Portanto, carrego nos braços todos os mantimentos do mês de uma só vez. Não respeito o limite de 20 kg suportado pela sacola. Assim que deixo o estabelecimento, ela começa a se romper. Precisarei carregá-la apoiando o fundo com uma das mãos ao longo de 2 km.

Esse calvário acaba me deixando confuso, então escolho a saída errada do estabelecimento e desemboco no quarteirão inverso. Terei de contornar a quadra para seguir rumo ao meu lar, o que alonga ainda mais o percurso.
Enquanto vou me contorcendo ao segurar a imensa sacola de compras prestes a arrebentar, disponho de todos os palavrões de que tenho conhecimento para lamentar pelo início de noite desastrado. Suado, cansado, indignado, dolorido, puto da vida!

Mas deparo-me, de súbito, com algo que me deixa perplexo.

Fico paralisado, mirando o cenário familiar. Um filme me passa pela mente. Visualizo cenas remotas e com pouca nitidez. Recordações há muito adormecidas vêm à tona. É a portaria de um hospital. O letreiro informa: HOSPITAL SEMPER.

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Há alguns anos, eu vira essa mesma portaria pela primeira e única vez. Foi quando deixava o recinto onde ficara internado durante cerca de uma semana. O episódio remonta-se em minha memória com muita precariedade. Na ocasião, eu me recuperava de um traumatismo craniano grave que me deixara em coma por 48 horas, e de inúmeras escoriações. Não batia muito bem da cabeça. Tinha apenas doze anos de idade.

Ao rever a fachada, lembrei-me das minhas impressões naquela distante tarde de sábado. Sentia alívio. Embora não estivesse totalmente recuperado quando deixei o leito hospitalar, preferia receber alta do que ser um paciente internado. No linguajar de hoje, trocava então meu status.

“Bora Deus. O pior já passou.”

Tudo ainda era muito confuso para mim. Eu não me recordava do acidente que me trouxera ao hospital da capital. Felizmente, a cena havia sido apagada do disco rígido. Nem fazia muita ideia do sofrimento pelo qual havíamos passado minha família e eu. Disseram-me que fui atropelado.

_Mãe, eu tô sonhando? Toda vez que acordo, te vejo do meu lado.
_Foi um sonho ruim, filho, mas já passou, graças a Deus.
_Como assim? Quê que aconteceu?
_Você foi atropelado por um carro quando andava de bicicleta, filho.
_E como tá minha bicicleta?
_Sua bicicleta estragou toda. A roda virou um oito. Joguei fora.

Voltei a dormir, pensando: “Essa minha mãe... sempre exagerada!”.

Recebi a visita do meu tio Tião.

_Filho... psiu... filho... você reconhece esse tio?
_Ah mãe... tio Fernando. – e me virei para dormir de novo.

Tinha dificuldade para articular as palavras. No fundo eu sabia que era o Tião. Eles pensaram que eu tinha ficado doido.

“Que preguiça de pensar e de tentar falar...!” – confabulei indignado.
Novamente diante do Hospital Semper, a noite caía e eu nem sentia mais o peso da sacola e a dor nos antebraços. Retomei outros instantes raros concedidos pela memória. A primeira vez que andei de elevador, e de cadeira de rodas. A primeira vez que vi uma máquina onde a gente enfia dinheiro e dela sai Coca-Cola. O cheiro fortíssimo da comida do almoço.

_Mãe, quê isso? Tô tão doido que tô comendo até berinjela...

O quarto branco, os enfermeiros me levando para o banho. O futebol de areia na TV.

“Esse pessoal que eu nem conheço me vendo peladão todo dia...”

“Esses caras na praia e eu aqui de cama, sem saber nem o porquê. Que bosta.”

Falei com minha irmã, criança de nove anos, pelo telefone. A boca não obedecia mesmo ao que o cérebro queria dizer. Depois soube que ela chorou ao me ouvir conversando com aquela moleza. Chegou uma cartinha sua.

Permanecia acordado pouquíssimos instantes por dia. Não sentia dor, só um soninho constante. Ouvia o pessoal falando sério sobre minhas possibilidades de recuperação. Iam e voltavam de Monlevade para trazer alguém ou alguma coisa. Interessante: num piscar de olhos o fulano ia e já estava de volta!
As divagações duraram alguns minutos. Emocionei-me, fiquei também um pouco impressionado. O tempo, o senhor dos destinos. Ele avança, voraz, e o que resta após sua passagem são só as lembranças. Muitas vezes, nem elas. Falando nisso, quanto tempo se passou mesmo...?

Bem, vamos lá: janeiro de 1998. No dia em que voltei do Semper, completava-se um mês desde que eu havia ganhado a bicicleta de presente de Natal... logo, dia 24 de janeiro. Que dia é hoje mesmo? Ops! Caralha! Hoje é 24 de janeiro de 2012. Faz 14 anos! Na risca!!!

Depois dessa constatação, eu, que já era um rapaz boquiaberto, fiquei pasmado de vez. Após ter estado entre a vida e a morte, nasci de novo, em 24 de janeiro de 1998. Hoje é, pois, meu aniversário de 14 anos! 

E cá estou. Voltando do meu trampo, de bermuda nova. Trabalho somente à tarde e posso ir de bermuda. O emprego é bom, concursado, de jornalista. Carrego um fardo pesadíssimo, mas são apenas as compras do mês. Estou exausto. Mas é só chegar em casa, deitar, abrir uma latinha e fico novo, de novo.

Cá estou. Pensei em entrar para rever o interior do Semper, mas nem rolou. Basta de observá-lo. Não estou mais zangado por ter saído pela porta errada do hipermercado. Pensando bem, acho que essa maluquice de ficar frequentemente perdido, entrar na rua errada ou sair de tal lugar pelo lado mais difícil pode ter sido a única sequela do acidente.

Antes de partir, uma olhadela para o céu.

“Bora Deus. Nasci de novo e o parto foi perfeito. Ou quase.”

sábado, 24 de dezembro de 2011

O dia em que Noel caiu do trenó

O alarde veio lá da Ásia. A chinesinha Chun ficou furiosa porque ganhou um Playstation no lugar da girafinha que tanto queria. Enviou dezenas de cartinhas nos dias que seguiram, reclamando ao bom velhinho. 

Naquele 24 de dezembro, pela primeira vez em tantos anos, Noel se atrasou. É que na hora de trabalhar, o despertador não tocou. O barbudo havia tirado um cochilo após assistir a uma partida de hóquei pela TV. Sabe como é: sofá macio, casa quentinha, TV de plasma... Ele acordou assustado, saiu às pressas e acabou se atrapalhando todo.

E o pequeno Joãozinho nada entendeu quando abriu o embrulho: uma bicicleta rosa, e com rodinhas! “Mas eu pedi uma bola de futebol!”. Bob, que negociara um violão com Santa Claus em troca de tirar boas notas no colégio, pôs-se a chorar quando se deparou com um par de patins sob sua árvore natalina.

As bolas foras não pararam por aí. Papai Noel pagou mico no lar de uma família africana, quando em vez de entrar pela chaminé deu as caras na área de churrasco e foi surpreendido por todos. Isso sem falar que a jornada fora muito mais lenta do que o usual, porque Noel escalou por engano algumas focas para puxar o seu trenó: como todos sabemos, as focas não voam! O velhote ainda seria pego no bafômetro, na Alemanha. Quando passou por lá, não resistiu e desceu alguns chopes. O guardinha acabou perdoando a multa ao ouvir sua justificativa: “Ho, ho, ho, foi mal aí!”

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Depois de uma noite de trapalhadas, o velho regressou à sua fazendinha, no polo Norte do planeta. Então percebeu que largara a porteira aberta. Sua criação de leões-marinhos havia fugido. Um urso polar acabou devorando seu pinguim de estimação. No jardim de inverno, lá estava um boneco de neve, fantasiado de Noel, bombardeado com tomates podres e moedinhas, em sinal de protesto.

No fogão a lenha, o peru havia tostado. Dali a pouco, o senhor de barbas alvas encontrou seus chinelos de tamanho 43 molhados, na porta do chuveiro. “Ops! Quem os calçou na minha ausência? E pra onde foram Mamãe Noel e meu leal elfo Richard?”. Ao se mirar no espelho, constatou que trazia na cabeça uma bota felpuda. O gorro, por sua vez, estava no pé.

O ancião então se angustiou. “Só pode ter sido maldição de algum desaforado!” — esbravejou rouco. Mas quem? Quem teria sido capaz de armar contra o generoso guru natalino? Que coração rude ousaria comprometer a mais valiosa comemoração de todas as crianças da Terra?

Procurou por pistas, vestígios de tal alma ingrata. Os olhos cansados rastrearam então minúsculas pegadas que levavam até a guirlanda. 

“Caraca!” — Noel desvendava, enfim, quem havia lhe lançado tal praga.

Abaixou os óculos para ler melhor.

Num bilhete, estava escrito assim: "Quem é o bonzão agora, otário? Atenciosamente, Coelhinho da Páscoa".