sexta-feira, 25 de março de 2011

O poeta e o mar

Dizem que o mar inspira os poetas.

Numa orla capixaba estava o poeta mineiro, contemplando aquilo que ele julga ser a mais fantástica das criações: o Sol se despedindo, na praia.

E ele se extasiava com tamanha perfeição. A linha de paz que separa o céu do oceano era a mais precisa ilustração do infinito. Fazia com que o poeta se sentisse quase tão pequeno quanto os grãos de areia esmagados sob suas nádegas brancas. O som das ondas se quebrando, o gosto da cerveja, a brisa ofegante, combinados, proporcionavam-lhe uma experiência sensorial pra lá de deliciosa.

Algo, porém, o intrigava e o fascinava em especial: as conchas. Aquilo era para ele o mais sublime artesanato, a mais prima das obras de arte. Qual o esmero tido pelo Criador ao desenhar as curvas, colorí-las. Dar a cada uma a devida estampa. Diferentes relevos e dimensões.

Quando tivesse seu filho, — divagava — e esse começasse a se interessar pelas coisas da vida, o poeta diria-lhe que cada uma das conchas do oceano representa uma vida humana pelo planeta. As que chegam à margem partidas são as pessoas que já morreram. E se o filho separasse duas conchas fechadas, nesse momento desataria duas almas gêmeas em algum lugar do mundo.

O poeta chegava a selecionar uma ou outra concha para ser observada de pertinho, mas tinha de ser ligeiro na coleta.  A torrente de água salgada vinha, impiedosa, e carregava todas as que encontrasse. Em compensação, trazia outras centenas. Fazia isso, sem parar.

Encantado, ele sabia que, na condição de poeta, teria de elaborar, ali mesmo, versos de amor. A emoção seria seu estímulo e as palavras haveriam de escorrer, fáceis, embaladas pela sensibilidade inerente ao momento. Pensou... pensou... quebrou a cabeça. A única coisa que saiu foi isto:

"Muié é igual concha na praia. Se ocê escói uma e ela vai embora, na mesma hora vem um punhado, uma mais linda do que a outra"

Importante: os textos publicados nesse blog
não correspondem, necessariamente,
ao ponto de vista do autor.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Os três filhos de Dona Piedade


Pesando pesadíssimos seis quilogramas, nasceu Janjão do ventre de Dona Piedade. E o rebento nasceu independente; digo isso porque cortou ele mesmo, de próprio punho, o cordão umbilical que o ligava ao organismo materno. Aos dois anos de idade, Janjão não permitia ser carregado no colo por ninguém: ia e vinha sozinho. Aos quatro, era ele quem levava e conduzia de volta os colegas da escolinha. Durante toda sua infância, Janjão capitaneou as porradarias que mobilizavam os moleques da vizinhança, e era também o responsável por selar a paz no recinto, se lhe conviesse. No início da adolescência, determinou que não frequentaria mais o colégio, e não havia quem fosse capaz de fazer o Janjão mudar de ideia. Nem mesmo a Dona Piedade.

Janjão cuidou do irmão Mário Vítor, dez anos mais moço, como seu guru, guia e mentor. Monitorava sua alimentação e seus estudos, fazendo as vezes da tão atarefada viúva Dona Piedade, que labutava como faxineira para sustentar as crias. Diariamente, o primogênito conduzia o irmãozinho nas costas para todos os compromissos rotineiros; isso durou alguns anos. Depois de um tempo, Janjão passou a recrutar meninas para que o pimpolho Mário Vítor namorasse. Fazia tudo e mais um pouco para o êxito do guri.

E o menino Mário Vítor foi um investimento que vingou sobremaneira! Aonde fosse, era destaque por sua inteligência e elegância. O orgulho do mano mais velho. De tão mimado toda vida, Mário Vítor tornou-se meio esnobe, mas não deixou de ser sucesso absoluto, verdadeiro fenômeno: ora ganhava concurso de redação, ora de beleza. Ora brilhava em olimpíada de Matemática ou então arrebentava como artilheiro no futebol.

Formavam uma dupla deveras sublime, o prodígio Mário Vítor e o grandalhão Janjão — sempre à sua escolta.

(...)

O convívio no seio da família, que era bom, melhor ficou quando decidiram adotar o bebê Zezinho, que alguma alma largara na porta daquele lar, dormindo dentro de uma cesta de pão. Zezinho trouxe brilho incomum aos olhos dos dois irmãos. Janjão tinha dezessete anos, mas de tão maduro, grandão e barbudo, poderia ter trinta e cinco ou mais. Já o bonitinho Mário Vítor, a essa altura, era campeão em torneios de caratê, também tocava violão perfeitamente, e cantava bem, o danado. Uma vez que os mais velhos, cada um com sua particularidade, sempre gozassem de certo respaldo na cidadezinha de só cinco mil habitantes, Zezinho cresceria despertando expectativas e sendo o centro das atenções por ali. Não dava sinais de que seria forte e durão como Janjão, tampouco genial e prepotente como Mário Vítor. Zezinho aflorou fascinantemente carismático e se dava bem com todo mundo.

(...)

Quando Dona Piedade bateu as botas, a sobrevida financeira dos moçoilos ficou seriamente comprometida. Os bicos que Janjão fazia descarregando caminhões de mudança não seriam suficientes para garantir o pão de cada dia.

O grandalhão, ascendido de vez à chefia da família, decidiu então que abriria um negócio que lhes rendesse algum capital. Mas o que poderia fazer o cabra, que mal havia terminado a quinta série do colégio? Haveria de ser tiro certeiro, pois a velha Piedade lhe deixara somente uma merrequinha de nada para investir. Precisava de algo inovador e infalível... Pensou, pensou... Eureca! uma funerária. Não havia na cidade estabelecimento dessa natureza. Os defuntos, até então, tinham de ser velados e sepultados em outra localidade, distante 80 km.

E como morria gente na cidadezinha! Não havia água tratada, muito menos coleta de lixo; tampouco médico, nem farmácia. Nem padre e igreja tinha lá, para o caso daqueles salvos pela fé. Por isso, todo dia morria um infeliz.

Assim, em curto tempo, os irmãos ficaram ricos. E bombou na cidadezinha o cemitério que Janjão ergueu no quintal de casa. Trabalhava feito um burro e ganhava dinheiro de noite e de dia. Buscava e carregava o corpo do indivíduo morto; registrava o óbito de acordo com a lei; embalsamava, maquiava e vestia com pompa o falecido; conduzia o cortejo fúnebre; ornamentava a urna do cadáver. Em troca de um honorário extra, chorava durante o triste momento do sepultamento.

Foi assim que os três irmãos tiraram o pé da lama. A faculdade de Mário Vítor, irmão do meio, e sua estadia na capital, assim como a criação do pequenino Zezinho, foram bancadas graças ao bem-sucedido empreendimento de Janjão. Aquela família viveu tempos de paz e prosperidade. Os três irmãos eram felizes e se amavam demais!

(...)

Depois de alguns anos estudando na cidade grande, Mário Vítor regressou à terrinha onde tinha suas raízes. E lá aportou com status de celebridade. Tornou-se o primeiro e único médico do povoado. Era tão dedicado à profissão que nem tirava férias.

Os serviços do doutor Mário Vítor eram requisitados a todo instante, pois, de tão precários os ambientes da cidadezinha, sua população vivia sempre a perigo. O médico fazia nascer e salvava os bebês prematuros e desnutridos, curava as crianças com vermes e queimaduras, medicava os doloridos, dava esperanças aos anciãos esclerosados, reabilitava até os aleijados. Mário Vítor sagrou-se adorado por todos os cidadãos. E ficou milionário.

Durante quase uma década inteira, ninguém mais morreu por aquelas bandas.

Como todo mundo, em vez de morrer, vivia e vivia mais, os serviços prestados por Janjão da Funerária ficaram paralisados e o homem foi à falência. Teve de vender tudo o que tinha. Em seus caixões encalhados, multiplicaram-se teias de aranha. As flores que cultivava para os velórios murcharam. Janjão sucumbiu em profunda depressão e odiou o irmão com todas as suas forças. Ingrato! Maldito! Era Mário o culpado de toda a desgraça! Revoltado e arruinado, Janjão foi morar num abrigo público.

(...)

Os anos seguiram e Zezinho, o mais novo, na luxuosa mansão do Doutor Mário, desenvolveu-se em berço de ouro, com tudo o que havia de bom e melhor. Apesar de ricos, os dois irmãos jamais arredariam o pé da cidadezinha tão estimada. O caçula, cidadão reconhecidamente gente-boa, envolveu-se naturalmente com ações filantrópicas e defesa de causas diversas em favor dos oprimidos. Ele descobriu-se, pois, vocacionado para a carreira política.

Calhou que, aos vinte e um anos de idade, Zezinho foi eleito o mais jovem prefeito da história de todo o estado. Ele não tinha cursado faculdade, não falava inglês, mas era muito bem relacionado. Aliás, venceu o pleito por unanimidade de votos entre os eleitores, algo nunca antes imaginado na democracia brasileira. Para alcançar tal façanha, tirou proveito, inclusive, da popularidade outrora conquistada pelos irmãos mais velhos.

E Zezinho, bem intencionado que só ele, determinou que faria de seu governo um primor de integridade e eficiência. Aconselhou-se com professores renomados, economistas respeitados e gestores experientes. Passava noites em claro estudando as alternativas mais racionais para aplicar os recursos da cidade. E foi dessa forma que o filho mais moço de Dona Piedade também vivenciou o sucesso em sua plenitude. A fama do excelente mandatário espalhou-se rapidamente.

A cidade enfim conheceu o progresso e a urbanização. A criminalidade deu lugar ao índice de 100% de alfabetização. O povo passou a contar com orientação de sanitaristas e nutricionistas. Exterminaram-se as pestes. Erradicaram-se os vírus. Promoveu-se a vacinação. O direito aos medicamentos gratuitos foi assegurado a todos.

Durante uma década, ninguém mais ficou doente naquele lugar. Nem sequer um resfriado acometeu tal sociedade perfeita e feliz. Tampouco ocorreu uma briga com vítimas, acidente de trabalho ou auto-envenenamento de gente angustiada. Situação mais saudável não havia. Zezinho foi reeleito duas vezes por aclamação, sem votação nem nada.

(...)

Só quem não gostou nada disso foi o Doutor Mário Vítor, cujo salário costumava ser custeado com quase toda a arrecadação municipal. Eliminadas as doenças e demais flagelos, ele teve seus serviços dispensados. Ficou por um tempo entediado, contexto que logo evoluiu para gravíssimo estado depressivo. Envolveu-se com drogas e gastou a maior parte da sua fortuna com os vícios. Após uma noite de esbórnia, acordou com o abdômen cortado e costurado; subtraíram seu rim ou outro qualquer órgão vital. Mário enlouqueceu, até tentou se matar. Dizem que foi visto pela última vez vadiando, ao relento, feito um doido pela rua.

Já o Janjão da Funerária hoje está esquecido e debilitado num asilo. Nunca mais se recuperou das desilusões sofridas. Não anda, não fala, não reconhece ninguém nem se recorda de coisa alguma. Zezinho, por sua vez, fica sozinho e escondido dentro de casa o dia inteirinho. Vive com pânico porque sofreu vários atentados nos últimos meses, motivados por perseguição de opositores políticos. Toma remédios psiquiátricos fortíssimos e quase não tem mais lucidez. Renunciou à vida política e também à social. Ameaçado de morte todos os dias, sabe-se lá por quem, nem abre as janelas, de tão amedrontado.

Os três filhos de Dona Piedade poderiam constituir uma família feliz eternamente. Digamos que até começaram bem, mas por causa dos acontecimentos que sucederam, nem podem mais olhar um na cara do outro.

Como se diz por aí: a vida é feita de escolhas. Se tivessem optado por ser apenas vagabundos, as coisas terminariam diferentes...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Meu amigo Bolota

Conheci o Bolota na segunda série do colégio. Era uma criança pacata, incapaz de fazer mal a alguém. Era ingênuo, tímido, além de gordinho, vesgo e gago. E usava aparelho nos dentes. Bolota era o alvo perfeito para a crueldade infantil hoje conhecida como bullying.

"Bolota", embora não deixe de ser um apelido cretino, foi o nome mais aceitável pelo qual o mal-acabado Bonifácio já fora chamado. Não que ele gostasse da alcunha, mas as outras criadas pela turma certamente queimariam ainda mais o seu filme. Por sinal, Bolota também não era muito simpático ao seu nome de batismo. Então ele aceitou numa boa: Bolota.

Bolota sempre fora um menino feio pra cacete, muito por conta da epidemia de acne que se instaurou precocemente em seu rosto. Para piorar, raramente cortava o cabelo, que tinha cor de ferrugem. Ele tinha incontáveis defeitos e o pior deles era ser muito vomitador. Quando obtia uma nota ruim na prova, ele vomitava. Se pisassem no seu pé, ele vomitava. E se rissem dele, vomitava de novo.

Mas, cá pra nós, eu sempre torci pelo Bolota. Gostava dele, até.

Bolota muito sofria com as chacotas da moçada, mas nem por isso deixava de estar junto dos outros garotos da classe. Afinal, exceto nós, ninguém mais na escola sabia de sua existência. As reuniões para trabalhos escolares em grupo eram sempre na sua casa, onde o lanche era melhor. Ele também tinha computador, playstation, piscina. E os irmãos do Bolota eram maneiros!

Eu o achava um bom amigo, o Bolota.

Enfim, crescemos, e durante alguns anos eu não tive notícias do Bolota. Pobre Bolota, tão bonzinho e tão desprezado... Cheguei a imaginar que ele tivesse passado sua juventude como um sociopata. Conjecturei, também, que tivesse vivido isolado em uma comunidade alternativa.

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Mas não foi nada disso o que aconteceu; recentemente me contaram todo o caso. Quando tinha lá seus dezoito anos de idade, Bolota, num belo dia, decidiu se matricular numa academia de musculação. A princípio, porém, nem gostou. Já no terceiro dia de atividade, pensou em desistir. Foi quando ouviu, pela primeira vez na vida, algo animador:

"— Me passa essa barra, FERA?"
Sim! Ele fora enfim tratado com respeito. Foi chamado de FERA pelo fortão da academia.

Esse foi o combustível para que Bonifácio passasse a se exercitar com afinco! Tomou alguns suplementos e drogas para catalizar o processo de reconstrução do seu corpo, sua imagem e sua personalidade. Com um ano de treinamento, tornou-se muito musculoso. Pouco tempo depois, passou a ostentar uma argolinha brilhante na orelha esquerda. E um piercing no mamilo direito. Começou a andar sempre perfumado, com gel no cabelo e topete impecável. Entrou na aula de violão.

A fase ficou mesmo boa quando ganhou de presente do pai um Honda Civic, pretão, lindo. E investiu mais dez mil reais em aparelhagem de som para o possante. Engatou o namoro com uma linda menininha, dessas que se apaixonam fácil.

Algum tempo depois, Bonifácio foi fazer faculdade no Triângulo Mineiro, e se apresentou à nova turma como Boni. Para aumentar sua popularidade, comercializava cocaína, LSD e outras coisinhas entre os estudantes. Ficou meio dependente quimicamente, mas isso era o de menos.

Boni ficou famoso, andava cercado de amigos e desfilava de carrão. Frequentava todas as baladas da cidade e, por isso, nunca se formou em Odontologia. Enquanto foi universitário, pegou mais de quinhentas mulheres. Não havia quem o desconhecesse. Era o terror.

Hoje em dia, ele tá sumido de novo, e muita gente na cidade universitária percebeu sua falta. Passará quatro anos na cadeia porque ficou muito doidão e quase matou um rapaz a garrafadas. Vai para o presídio assim que se recuperar numa clínica para viciados em cocaína. Antes, porém, tem de receber alta no hospital: dizem que apanhou feio de um marido enciumado. Ele também responde por crime de tráfico de drogas.

Uberlândia nunca mais foi a mesma depois de sua passagem por lá. Grande garoto!

Eu sempre soube que ele deixaria sua marca. Sempre acreditei no potencial de meu amigo Bolota!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Estranhos no metrô


São, no máximo, quinze minutos de espera. E não há absolutamente nada para se fazer. Talvez por isso eu não consiga tirar os olhos de um estranho casal que, na estação Central de Belo Horizonte, aguarda a chegada do trem.

Ambos fumam, mas ela faz isso de forma frenética. Infla os pulmões com a fumaça tóxica, colore de cinza o ambiente em torno de si, e imediatamente traz de volta à boca o monte roliço de tabaco em chama branda. E sopra tudo de novo.

É magra, vestida de maneira básica. Nada de brinco ou maquiagem. Nariz um pouco grande, cabelos curtos e pretos, denotando liberdade e independência. Sua bunda tem um formato estranho, destoando da brasilidade das demais nádegas femininas presentes. Pode-se dizer que é uma moça bonita.

Ele, se não fosse gay, seria o namorado. Está despenteado, com a barba e bigode rebeldes. É o melhor amigo da mocinha. Cabelos cacheados e abundantes, discretos olhos azuis. Jeans e sapato de jovem. É gay mas não é afeminado.

Obviamente são jornalistas. Ou melhor, cursam a faculdade, mas jamais irão exercer. Serão pesquisadores, depois doutores, e, se as drogas permitirem que cheguem vivos à maturidade, irão lecionar aquilo que aprenderam. Nota-se que são socialistas convictos e ateus fervorosos. Não acreditam em espíritos, tampouco na família como instituição sagrada.

Ele é herdeiro de um bem-sucedido empresário paulista. Sempre adorou gastar dinheiro em baladas caras. Ao chegar em Minas, jogou fora as roupas de marcas famosas e passou a frequentar ambientes hippies. Hoje usa drogas em vez de beber cerveja. Tem cara de Sérgio, mas foi apelidado de Dark pelos amigos da faculdade.

Maria Cecília, durante a adolescência, namorou um skatista que pichava muros, para contrariar o pai. Veio para Minas Gerais fugindo da rigidez familiar. Tinha tudo do bom e do melhor no Paraná, mas hoje é mais feliz dividindo um apê de dois quartos com outras três garotas. Algo me diz que, se morresse hoje, ela iria para o inferno.

Entraram no mesmo vagão que eu. O casal que vejo pela primeira vez continuará dono da minha atenção. Agora eles pararam de se falar, o assunto esgotou. Sem motivo aparente, ele a abraça e beija seu rosto carinhosamente. Como eu já disse, é seu melhor amigo, gay.

Após meia hora de devaneios, o trem chega ao meu destino. Quase perco o ponto por causa dessas reflexões. Pelo visto, o casal vai descer aqui também. Sinto-me constrangido em caminhar lado a lado com os já tão íntimos desconhecidos.

O trajeto da passarela até o estacionamento parece não ter fim. Contenho o impulso de virar o rosto e continuar observando o casal de amigos, que pra mim já são bizarros. Ouço seus passos, sincronizados, e os imagino acendendo mais cigarros. Não percebo vozes, mas é inevitável confabular um diálogo entre eles, com um sotaque irritante qualquer.

Tenho pressa. Felizmente, minha namorada está à minha espera. Ela sorri de forma atípica.

— Oi Dudu! Quer carona?

Eu olho para trás e me surpreendo. Minha nossa! Como eu não havia reconhecido?! É o Carlos Eduardo, primo da minha namorada! Não o vejo há seis meses, quando tomamos uma cerveja no boteco de seu pai. Realmente tá mudado... o bigode cresceu um pouquinho.

Quem o acompanha é a sua noiva, a Silvinha. Formam um dos mais belos casais que já vi, nascidos um para o outro! Conheceram-se no Grupo de Jovens de Cristo, da paróquia aqui do bairro mesmo. Mas foi durante a faculdade de Direito que começaram a namorar. Formados há três anos, passaram no concurso da Defensoria Pública. Enfim juntaram uma grana e vão se casar. Deste ano não passa!

— Como você tá, meu peixe? Nem tinha notado a presença de vocês! Sabe como é... meia hora no metrô, a gente acaba cochilando...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Do jeito que eu sonhei

Naquele dia, como em tantos outros, enforquei todas as aulas do 5º período do curso de Jornalismo. Afinal, aqueles sermões não serviriam mesmo pra nada, assim eu cria. Esparramado na beira da piscina do condomínio, empreendia um esforço hercúleo, usando o poder invisível e interno de meus neurônios e sinapses, a fim de reconstruir o enredo do sonho que havia tido na noite anterior. Montando e remontando, eu ia, as pecinhas da narrativa à medida que pululavam no lago raso da memória precária.

Faz tempo. Acordei meio que chorando seco.

Durante aquela madrugada onírica, ela fazia indagações estranhas: Por que você só tem um brinco? Por que tá balançando a barriga?

Suas ideias eram criativas, mas compreensíveis. Queria dançar músicas do Casaca na hora de dormir. Concebia histórias com interações tão improváveis como a do Lobo Mau com o Luís Fabiano, que jogava na seleção brasileira. 

Pronunciava com a língua presa o fonema do S. A impressão era a de que ela selecionava, muito deliberadamente, palavras com esse fonema, só para pronunciar com a língua presa, de um jeito pra lá de engraçado, que dava vontade de imitar. 

Ela tinha um casal de amigos fictícios que passaram a ser meus amigos também. E como eram legais os dois danadinhos... Ao telefone, ela costumava conversar com outras pessoas também fictícias, a quem ela respondia, repetida e reiteradamente: não acredito! até parece!. Afinal, tais pessoas fictícias lhe diziam coisas ora surpreendentes, ora absurdas.

Sabia a medida certa das coisas: Gosto de pimenta, mas só um pouquinho, muito não. Antes de aprender a falar, solfejava a música de abertura da novela com perfeita afinação. Fui o primeiro a descobrir esse dom.

Eu tinha uma mania incontrolável de reparar em tudo nela.

Quando repreendida, ela ficava cruel: torcia as sobrancelhas, apontava-me o dedo na cara e ameaçava: Não faz isso comigo mais não. E era ainda mais cruel quando me desafiava, com ira e com ironia, olhando no fundo dos meus olhos apaixonados: Que tapinha foi esse que não doeu? 

Se eu morasse longe, ela me estranhava, não sei se por rancor ou por falha na cognição, e eu quase me arrependia. Por alguma razão, ela sempre aprovava minhas namoradas, e isso me satisfazia.

Naquele sonho, ela brincava de passar o nariz no meu, e eu já lamentava pela saudade que sentiria daquilo quando eu fosse embora.

Acho que por isso eu acordei chorando seco.

Às vezes, ela me surpreendia falando as minhas gírias e quando gostava das brincadeiras que eu inventava. Eu ficava extasiado quando ela me adorava. Quando indiferente, eu compreendia.

Ela se escondia de quem entrava em casa, só de sacanagem. Era independente, que chegava a irritar. Eu que vou dirigir. Eu que vou ligar para ela. Ah, já ia me esquecendo: ela tinha o meu mesmíssimo sangue — algo, porém, inadmissível, pois era quase loira, de cabelos artisticamente cacheados.

Acho que por isso eu descobri que era só um sonho.

Hoje, não tenho mais piscina e saio pra trabalhar todos os dias. Vez ou outra, eu me pego concluindo, em silêncio: Meu Deus! Ela é exatamente do jeito que eu sonhei!


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Reflexões do velho tocador solitário

Lá está o velho tocador de trompete. A praça deserta da cidade pequena é o cenário onde ainda restam algumas latas e garrafas vazias espalhadas, e outros lixos. O vento, quando sopra forte, carrega os mais leves: poeira e eventualmente, até, uma nota de dinheiro. E penteia os escassos fios alvos que ainda restam sobre a cabeça do velho tocador.

Os boêmios enfim repousam. Os cachorros de rua, que nada entendem, ainda circulam, vadios, pela praça. A sarjeta deixa exalar o odor dos restos da noite anterior, principalmente o da cerveja velha. A revoada dos pardais, vez em quando, quebra a monotonia. Apenas o Sol expande-se, imponente, castigando a quase absoluta careca do velho tocador de trompete.

Ele não lê partituras, por vezes tropeça em uma ou duas notas antes de alcançar a correta. A melodia de sua única canção é notavelmente mais lenta do que deveria, coisa da melancolia do momento. O solitário animador da cidade deserta, naquele início de tarde, desconhece a real diferença entre seu trompete, o saxofone, a tuba – mas isso é o que menos intriga a consciência do velho tocador.

Mecanicamente a canção flui, por isso o raciocínio do velho faz uma viagem. Ele pensa que o trabalho ocupa toda a sociedade, livrando-a do silêncio. Gera riqueza e ambição, que é a motivação para trabalhar mais. Então é necessário relaxar: faz-se a festa, sua decorrente bagunça e sujeira. Depois volta o silêncio.

Os jovens, ressaquiados e sonolentos, despertam com a canção vagarosamente compassada, que parecendo vir de longe, repete-se: "Adeus... ano velho. Feliz... Ano Novo. Que tudo se realize...". Mas o velho tocador de trompete não espera que alguém o ouça. Apenas sopra, despretensioso, o instrumento do qual aprendera sozinho a extrair harmonia.

A mensagem de esperança em dias melhores surge espontânea varrendo a porcaria e a bagunça da praça deserta.

Amigo imaginárioApós o fim de um Carnaval
em Senhora de Oliveira, MG, esse velho
me apareceu pela primeira vez. Ele tocava melancólico:
"Arlecrim está chorando / por amor a Colombina...".

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Essa coisa louca sem explicação


Eberclei tem absoluta convicção de que o mundo é irreal. Algo virtual, uma fantasia.

Não descarta a possibilidade de que haja uma versão concreta do que entendemos como a vida. Pode ser mesmo um mundo paralelo, de onde o pessoal que existe de verdade nos acompanha. Talvez sejamos apenas uma experiência científica, conduzida por um povo evoluído.

E esse pessoal já está lá, de frente a um observatório, há muito antes do que possamos imaginar. Desde antes de começar a nossa história. Aliás, quando foi mesmo o ponto de partida? Teria sido no início da escritura da Bíblia? Ou no dia em que revelou-se a primeira fotografia? – esta, a pioneira evidência infalível de que o passado houve. Ou foi quando alguém ateou fogo em um rojão, que explodiu e deu origem ao universo? Nesse caso, quem confeccionou a bomba? Estranho, não?

Assim, é óbvio que nem o tempo existe.

E esse papo de que só se vive uma vez? Balela, claro. A bem da verdade, cada instante pode ser refeito, repetido, testado, sem que nos lembremos de nada. Quando não há mais saída, um mestre aparece, de um portal cor-de-rosa, e nos permite voltar no tempo. Você já foi um mendigo, até que cansou-se e voltou a fita. Queria ver como repercutiria se tivesse feito algo diferente lá no passado. Recomeçou de criança. O tal efeito borboleta. Acabou tomando outro rumo e viveu como um magnata. Mas depois de uns anos voltou, reparou aqui, acolá, seguiu e adiante regressou. É sem fim. Alguém aí se lembra de já ter morrido?

Pois então.

Outra coisa interessante dessa experiência que chamamos de vida: nem todas as pessoas, de fato, existem. Sabe aquele rapaz bonzinho que te deu uma carona e nunca mais apareceu? Aquele velhote sentado numa esquina que te informou a direção de tal bairro? A vendedora de água? Meu caro, botaram essa gente de mentira no seu caminho, puro improviso, pra quebrar um galho. Não passam de figurantes. 

Ah, o seu ator favorito de Hollywood? O inventor da lâmpada elétrica? São fakes, criaturas ideais e fictícias. Pense bem: é impossível inventar uma lâmpada elétrica! E ninguém é tão maravilhoso e sortudo que possa ser astro de vários filmes milionários! Você, por acaso, conhece algum pessoalmente? Conhece Pelé? Lady Diana? Dalai Lama?

Tolinho...

Certo dia, Eberclei sonhou que era um pedacinho de vácuo. Assim possuído, não haveria impedimentos para que explorasse a imensidão do universo. Então ele foi subindo, superou a atmosfera, não congelou-se nem precisou de oxigênio. Foi até o Sol, sem evaporar-se pelo caminho. Atravessou a galáxia e desconfiou que bem ao longe haveria outras sociedades como a da Terra. Só desconfiou. A viagem não teve fim, mas muitas mutações no ambiente. Ebercelei não encontrou a linha de chegada. E mesmo que a encontrasse, o que viria depois dela, meu Deus?!

Acordou angustiado, quase desesperado, e aí ele teve a mais plena certeza: não há a mínima possibilidade de alguma coisa dessa vida ser de verdade!

Em seguida, ele calçou um par de chinelos, pôs um bonezinho e foi pro boteco mais próximo, onde encheu a cara de cerveja, até cair a noite:
"— Foda-se."

O outro lado: Só pode haver uma explicação
divina para os mistérios dessa vida louca!  
Este é o Blog do Cano.