Para quem ainda não sabe, tenho empreendido esforços na elaboração de um caderno de encargos para a viável (e necessária) refundação da existência de tudo, como a conhecemos. Na PARTE UM, dediquei-me à questão da dignidade estética e social inerente à velhice, que precisava de um upgrade.
Tal conjuntura, convenhamos, é um erro grosseiro de design. Por isso, apresento aqui um esboço da segunda alteração nuclear que intento para a recriação do homo sapiens e de todo o seu quintal.
A proposta é de uma simplicidade técnica constrangedora para alguém onipotente como o Criador: todo bebê nascerá com uma marca indelével a partir da palma da mão esquerda em direção ao antebraço. Não se trata de uma dessas linhas confusas que os quiromantes fingem decifrar, mas de uma "linha de vereda" nítida, pulsante e, acima de tudo, precisa. Um traço luminoso que, conforme os dias se passarem, irá se retraindo gradativa e uniformemente. Isso tornará possível, desde o parto, calcular o dia, a hora e o minuto em que o fôlego cessará. Nada de surpresas, nem de fatalidades inexplicáveis. Apenas a transparência absoluta do destino biológico.
Mas alguém poderia se espantar, insanamente:
— Muito pelo contrário! – eu retruco. Terrível é a dúvida. A clareza é a mãe da organização e a madrinha da paz de espírito.
Visando atender àqueles que se amarram em esportes radicais, mas tremem de medo de se esborrachar, apresento, pois, o cardápio de benesses. Se sua linha lhe garante mais trinta anos de vida, salte de qualquer penhasco com a certeza absoluta de que o paraquedas abrirá. (O perigo é apenas um parque de diversões para quem conhece sua própria invulnerabilidade).
A domesticação da morte, por sinal, é a mais significativa caridade intrínseca à minha ideia. No modelo atual, a partida de alguém é um rasgo súbito, um susto que deixa pelo caminho pendências, frases não ditas e inventários complicados.
Na minha realidade redesenhada, o sepultamento será programado com a mesma naturalidade de um jogo de peteca no clube. O indivíduo, sabendo que seu tempo se extingue na próxima terça-feira, às 15h, organiza a própria festa de despedida. Seleciona as flores, escolhe o repertório musical, quita as dívidas e abraça cada neto com a serenidade de quem faz o checkout de um hotel. A morte deixará de ser uma tragédia para se tornar um evento de agenda.
Com a clareza do tempo restante, as cidades passarão de aglomerados caóticos para engrenagens de eficiência existencial. Serão projetadas áreas urbanas para o público de "pouca linha": parques abertos 24 horas por dia, estabelecimentos com banquetes desregrados, celebrações diárias, sem descanso. Já os "longas-linhas" habitarão zonas de arquitetura perene, com árvores de crescimento lento e bibliotecas monumentais.
Ninguém investirá numa mansão para durar cinquenta anos se a palma da sua mão lhe avisa que a estadia terrestre termina em cinco. As casas serão transmitidas com dia certo, e o mercado de aluguéis se baseará no crédito biológico, em vez do crédito bancário.
O atual sistema de ensino, que obriga todos a estudarem as mesmas coisas pelo mesmo período, também cairá por terra. No meu universo reescrito, o diploma será proporcional à expectativa de sobrevivência. Uma criança cuja linha aponte apenas vinte primaveras não será desperdiçada em longas jornadas de álgebra abstrata ou decoreba burocrática. Ela será direcionada às áreas de artes, entretenimento, turismo e outras capazes de proporcionar realização imediata. Já os predestinados à velhice serão os guardiões do conhecimento denso: estudos sobre políticas de longo prazo e outras ciências que exigem décadas de maturação.
Obviamente, o vício em acumular patrimônio vai perder o sentido para quem vir sua linha se recolhendo ao centro da mão esquerda. Ao constatar que lhe restam apenas dois anos, o indivíduo naturalmente começará a distribuir seus livros, suas roupas e suas moedas, ingressando em uma fase de desapego absoluto antes da partida.
Podem alardear por aí: a "linha de vereda" tende a nos devolver o controle sobre nossa própria narrativa. Num mundo onde cada ser humano caminha sabendo exatamente quanta estrada lhe resta, não se perderá tempo com bobagens. Ninguém brigará no trânsito se seu saldo for de apenas mais três dias de sol. Ninguém irá armazenar um vinho caro por dez anos se a linha da mão indicar que o prazo expira no próximo carnaval. O domínio sobre o fim vai otimizar a nossa entrega ao agora.
Encerro aqui, bastante satisfeito, o registro para a posteridade divina. Se for preciso mais detalhamento sobre a pigmentação da linha ou sobre como evitar falsificações por meio de tatuagens, estarei, como sempre, disponível para a busca de soluções nesta vasta rede informativa em que estamos inexoravelmente metidos.






























