segunda-feira, 14 de maio de 2012

3º Conto à trois - Parte II

O jornalista Marcos Antonio, do blog Sandália e Meia, foi quem deu o pontapé inicial para o 3º Conto à trois. Coube a mim dar sequência à trama "Como escrever uma canção de amor", cujo capítulo inicial é de sua autoria. Como é de praxe, as linhas finais dessa história estão a cargo de Ulisses Vasconcellos, do blog Isso que eu falei


Apenas uma calça jeans

Angustiado, o jovem compositor tropeçava em seus devaneios. Necessitava reinventar o amor, ou alguma sensação tão intensa quanto, para fazer germinar sua inspiração. Chegou à conclusão de que a estiagem de boas ideias seria provavelmente fruto da mesmice em que vivia. Sim, somente uma loucura, uma situação realmente inusitada reacenderia seu poder criativo. Algo extraordinário deveria suceder para que daquela cabeça crespa voltassem a emanar inventivos arranjos, versos ricos e prováveis hits musicais. Ainda despretensioso, Jairo começou a confabular um planinho.

Talvez uma viagem repentina a um país de idioma desconhecido rompesse a rotina chata e procedesse a almejada reviravolta. Que tal o bucolismo e romantismo de Veneza e suas gôndolas?... A liberdade de Amsterdã, suas loiras lindas e nuas?... O místico Oriente, com emblemáticas e sensuais moçoilas de olhinhos puxados?... “Melhor adquirir logo minha passagem!” – pulou do sofá.

Poucos cliques mais tarde, Jairo encontrou na web uma oferta relâmpago. Um voo promocional, de preço irrisório, com destino a... Assunção, no Paraguai. Um pouco aquém do esplendor do primeiro mundo, mas foi o que deu para custear com sua grana de estagiário. O avião decolaria na madrugada seguinte, dali a menos de 24 horas!

A princípio, pensou em captar algum comparsa para a sua empreitada meio insana. Mas temeu ser por ele desencorajado. Por isso, decidiu que nem ao menos informaria a alguém sobre a expedição.

Só haveria tempo de organizar a mochilinha: suas únicas quatro camisas de marca, apenas uma calça jeans para o fim de semana. Tênis-pé, perfume, Listerine. Contra os imprevistos, um vidrinho de extrato de própolis. Por fim, o violão e uma garrafa de cachaça.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Parto perfeito

Hipermercado em horário de pico é tão tumultuado quanto o trânsito na capital. Tão estressante quanto uma redação de jornal diário. Nessa hora, todos voltam do trampo e vão às compras, inclusive eu. Logo na entrada do Extra, mendigos armam o cerco para filar uma esmola. Os únicos carrinhos de compra desocupados têm as rodas empenadas ou frouxas.

Não há ninguém para informar onde ficam as barras de cereal, nem onde se pesa os chuchus. Uma velhinha gulosa briga comigo pelo último Sucrilhos da prateleira. E vence. A fila no caixa é comprida por demais, o sistema dá pau e o freguês à minha frente resolve passar três carrinhos abarrotados, um barril de botar lixo, uma escada e quatro pneus.

Por falar em pneus, não tenho carro. Tampouco paciência para voltar ao hipermercado e vivenciar tudo de novo. Portanto, carrego nos braços todos os mantimentos do mês de uma só vez. Não respeito o limite de 20 kg suportado pela sacola. Assim que deixo o estabelecimento ela começa a se romper. Precisarei carregá-la apoiando o fundo com uma das mãos ao longo de 2 km.

Esse calvário acaba me deixando confuso, então escolho a saída errada do estabelecimento e desemboco no quarteirão inverso. Terei de contornar a quadra para seguir rumo ao meu lar, o que alonga ainda mais o percurso.
Enquanto vou me contorcendo ao segurar a imensa sacola de compras prestes a arrebentar, disponho de todos os palavrões de que tenho conhecimento para lamentar pelo início de noite desastrado. Suado, cansado, indignado, dolorido, puto da vida!

Mas deparo-me, de súbito, com algo que me deixa perplexo.

Fico paralisado, mirando o cenário familiar. Um filme me passa pela mente. Visualizo cenas remotas e com pouca nitidez. Recordações há muito adormecidas vêm à tona. É a portaria de um hospital. O letreiro informa: HOSPITAL SEMPER.

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Há alguns anos, eu vira essa mesma portaria pela primeira e única vez. Foi quando deixava o recinto onde ficara internado durante cerca de uma semana. O episódio remonta-se em minha memória com muita precariedade. Na ocasião, eu me recuperava de um traumatismo craniano grave que me deixara em coma por 48 horas, e de inúmeras escoriações. Não batia muito bem da cabeça. Tinha apenas doze anos de idade.

Ao rever a fachada, lembrei-me das minhas impressões naquela longínqua tarde de sábado. Sentia alívio. Embora não estivesse totalmente recuperado quando deixei o leito hospitalar, preferia receber alta a ser um paciente internado. No linguajar de hoje, trocava então meu status.

“Vamo que vamo, meu Deus. O pior já passou. Agora é nóis. Tamo junto.”

Tudo ainda era muito confuso para mim. Eu não me recordava do acidente que me trouxera ao hospital da capital. Felizmente, a cena havia sido apagada do disco rígido. Nem fazia muita ideia do sofrimento pelo qual havíamos passado eu e minha família. Disseram-me que fui atropelado.

_Mãe, eu tô sonhando? Toda vez que acordo, te vejo do meu lado.
_Foi um sonho ruim, filho, mas já passou, graças a Deus.
_Como assim? Quê que aconteceu?
_Você foi atropelado por um carro quando andava de bicicleta, filho.
_E como tá minha bicicleta?
_Sua bicicleta estragou toda. A roda virou um “oito”. Joguei fora.

Voltei a dormir, pensando: “Essa minha mãe... sempre exagerada!”.

Recebi a visita do meu tio Tião.

_Filho... psiu... filho... você reconhece esse tio?
_Ah mãe... tio Fernando. – e me virei para dormir de novo.

Tinha dificuldade para articular as palavras. No fundo eu sabia que era o Tião. Eles pensaram que eu tinha ficado doido.

“Que preguiça de pensar e de tentar falar...!” – confabulei indignado.
Novamente diante do Hospital Semper, a noite caía e eu nem sentia mais o peso da sacola e a dor nos antebraços. Retomei outros instantes raros permitidos pela memória. A primeira vez que andei de elevador, e de cadeira de rodas. A primeira vez que vi uma máquina onde a gente enfia dinheiro e dela sai Coca-Cola. O cheiro fortíssimo da comida do almoço.

_Mãe, quê isso? Tô tão doido que tô comendo até berinjela...

O quarto branco, os enfermeiros me levando para o banho. O futebol de areia na TV.

“Esse pessoal que eu nem conheço me vendo peladão todo dia...”

“Esses caras na praia e eu aqui de cama, sem saber nem o porquê. Que bosta.”

Falei com minha irmã, criança de nove anos, pelo telefone. A boca não obedecia mesmo ao que eu queria dizer. Depois soube que ela chorou ao me ouvir conversando com aquela moleza. Chegou uma cartinha sua.

Permanecia acordado pouquíssimos instantes por dia. Não sentia dor, só um soninho constante. Ouvia o pessoal falando sério sobre minhas possibilidades de recuperação. Iam e voltavam de Monlevade para trazer alguém ou alguma coisa. Interessante: num piscar de olhos o fulano ia e já estava de volta!
As divagações duraram alguns minutos. Emocionei-me, fiquei também um pouco impressionado. O tempo, o senhor dos destinos. Ele avança, voraz, e o que resta após sua passagem são só as lembranças. Muitas vezes, nem elas. Falando nisso, quanto tempo se passou mesmo...?

Bem, vamos lá: janeiro de 1998. Curioso, no dia em que voltei do Semper completava-se um mês desde que eu havia ganhado a bicicleta de presente de Natal... logo, dia 24 de janeiro. Que dia é hoje mesmo? Ops! Caralha! Hoje é 24 de janeiro de 2012. Faz 14 anos! Na risca!!!

Depois dessa constatação, eu, que já era um rapaz boquiaberto, fiquei pasmado de vez. Após ficar entre a vida e a morte, nasci de novo, em 24 de janeiro de 1998. Hoje é, pois, meu aniversário de 14 anos! 

E cá estou. Voltando do meu trampo, de bermuda nova. Trabalho somente à tarde e posso ir de bermuda. Empreguinho bão, concursado, de jornalista. Carrego um fardo pesadíssimo, mas são apenas as compras do mês. Estou exausto. Mas é só chegar em casa, deitar, abrir uma latinha e fico novo, de novo.

Cá estou. Pensei em entrar para rever o interior do Semper, mas nem rolou. Basta de observá-lo. Não estou mais zangado por ter saído pela porta errada do hipermercado. Pensando bem, acho que essa maluquice de ficar frequentemente perdido, entrar na rua errada ou sair de tal lugar pelo lado mais difícil pode ter sido a única sequela do acidente.

Antes de evadir-me, uma olhadela para o céu.

“Vamo que vamo, meu Deus. Tamo junto. Nasci de novo. E o parto foi perfeito. Ou quase.”

sábado, 24 de dezembro de 2011

O dia em que Noel caiu do trenó

O alarde veio lá da Ásia. A chinesinha Chun ficou furiosa porque ganhou um Playstation no lugar da girafinha que tanto queria. Enviou dezenas de cartinhas nos dias que seguiram, reclamando ao bom velhinho. 

Naquele 24 de dezembro, pela primeira vez em tantos anos, Noel se atrasou. É que na hora de trabalhar, o despertador não tocou. O barbudo havia tirado um cochilo após assistir a uma partida de hóquei pela TV. Sabe como é: sofá macio, casa quentinha, TV de plasma... Ele acordou assustado, saiu às pressas e acabou se atrapalhando todo.

E o pequeno Joãozinho nada entendeu quando abriu o embrulho: uma bicicleta rosa, e com rodinhas! “Mas eu pedi uma bola de futebol!”. Bob, que negociara um violão com “Santa Claus” em troca de tirar boas notas no colégio, pôs-se a chorar quando se deparou com um par de patins sob sua árvore natalina.

As bolas foras não pararam por aí. Papai Noel pagou mico no lar de uma família africana, quando em vez de entrar pela chaminé deu as caras na área de churrasco e foi surpreendido por todos. Isso sem falar que a jornada fora muito mais lenta do que o usual, porque Noel escalou por engano algumas focas para puxar o seu trenó: como todos sabemos, as focas não voam! O velhote ainda seria pego no bafômetro, na Alemanha. Quando passou por lá, não resistiu e desceu alguns chopes. O guardinha acabou perdoando a multa ao ouvir sua justificativa: “Ho, ho, ho, foi mal aí!”

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Depois de uma noite de trapalhadas, o velho regressou à sua fazendinha, no polo Norte do planeta. Então percebeu que largara a porteira aberta. Sua criação de leões-marinhos havia fugido. Um urso polar acabou devorando seu pinguim de estimação. No jardim de inverno, um boneco de neve, fantasiado de Noel, bombardeado com tomates podres e moedinhas, em sinal de protesto.

No fogão a lenha, o peru havia tostado. Dali a pouco, o senhor de barbas alvas encontrou seus chinelos de tamanho 43 molhados, na porta do chuveiro. “Ops! Quem os calçou na minha ausência? E pra onde foram Mamãe Noel e meu leal elfo Richard?”. Ao se mirar no espelho, deu conta de que trazia na cabeça uma bota felpuda. Que confusão! O gorro estava no pé.

O ancião então se angustiou. “Só pode ter sido maldição de algum desaforado!” – esbravejou rouco. Mas quem? Quem teria sido capaz de armar contra o generoso guru natalino? Que coração rude ousaria comprometer a mais valiosa comemoração de todas as crianças da Terra?

Procurou por pistas, vestígios de tal alma ingrata. Os olhos cansados rastrearam então minúsculas pegadas que levavam até a guirlanda. “Caraca!” – Noel desvendava, enfim, quem havia lhe lançado tal praga.

Abaixou os óculos para ler melhor.

Num bilhete, os dizeres: "Quem é o bonzão agora, otário? Atenciosamente, Coelhinho da Páscoa".

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Global Positioning System

Aprendi que, na capital, 1700 metros de distância quer dizer “logo ali”. Assim sendo, posso dizer que sou vizinho do maior conjunto de hospitais, clínicas, prontos-socorros e afins de todo o Estado: o complexo da Área Hospitalar. De lá, tomo todos os dias um coletivo que me entrega, em trinta minutos, na porta do trampo: a UFMG. Também é na Área dos Hospitais que desembarco após o expediente, e sigo caminhando de volta ao lar.

Há alguns anos, ter um cafofo nos arredores de um núcleo como esse seria para mim elementar, devido às recorrentes bebedeiras que eu praticava. Por vezes, precisei comparecer (ou ser levado) ao hospital para equilibrar meu nível sanguíneo de glicose; outras, porque a ressaca passou a provocar em mim a sinistra Síndrome do Pânico. Teve também a noite em que quase mutilei meus dedos da mão direita com os cacos de um copo de vidro. Em outras oportunidades apanhei, embriagado, sem saber direito o porquê.

Mas a juventude foi ficando para trás e tudo isso já está praticamente superado em definitivo.

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Dos remotos anos de minha vida, conservei a irritante sina de sempre ficar perdido. Nas terras interioranas onde nasci e me graduei, cometi erros vetoriais, ridículos. Hoje, morando na cidade grande, perco o rumo quase todos os dias. É vasto e humilhante meu histórico de equívocos de rota.

Tento desenvolver, então, artimanhas para evitar os desvios. Para ir ao trabalho, por exemplo, vou codificando referências como igrejas, bares e nomes de ruas. Acontece, porém, que já se foram várias tentativas frustradas de completar o traçado sem me confundir entre o emaranhado de logradouros de BH. Por isso, as referências corretas misturam-se às erradas, compondo um louco mosaico de registros que em nada me ajudam.

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Mas ontem haveria de ser minha redenção. Pela primeira vez, chegara à Área dos Hospitais pelo caminho mais curto, sem deslizes. Fui trabalhar aliviado. Bastava então que, a partir das 19 horas, eu regressasse em segurança à minha casa e pioneiramente seria completado, impecável, o trajeto de ida e volta do meu ganha-pão. O que para um sujeito normal não representa nada demais, seria para mim um divisor de águas. E por falar em águas, o céu desabou na Capital das Alterosas durante todo o dia.

Ao término do expediente, deixei então, esperançoso, a avenida Antônio Carlos, em frente ao campus universitário. Do ponto onde embarco até o extremo dessa avenida são 5,5 km. A partir daí, normalmente o busão ingressa no Centro da cidade e percorre cerca de 3 km até a famigerada Área Hospitalar, no bairro Santa Efigênia. E então volta para a Antônio Carlos.
Dado momento, o coletivo empaca num gigantesco engarrafamento. Minha intuição acusa que estou próximo do meu destino. Concluo, logo, que se descer e prosseguir a pé, chegarei mais rapidamente.

E assim faço. Caminho sob a chuva fina, debochando dos passageiros que abarrotam os veículos, cantarolando e contemplando a liberdade. Afinal, não me importo de molhar o cabelo e a roupa, moro “logo ali”, esbanjo fôlego e saúde. Sou independente e essa avenida tumultuada me parece mesmo familiar.

A caminhada solitária me leva a refletir sobre o quanto sou privilegiado: comecei a trabalhar em Belo Horizonte, onde há muito almejara fixar raízes. Minha rotina não é estressante, o calor na metrópole não incomoda, vivo com bons amigos em um bairro agradável... eita! Já andei uns 30 minutos e não sei mais onde estou! Bosta! De novo!

Antes de entrar em desespero, capto vestígios que ajudem a me situar. “Hum... aquele depósito. Hum... aquele cruzamento”. Nenhum resultado. Tento abordar um taxista, mas ele se recusa a abrir o vidro para me ouvir. “Esse malandro na chuva deve tá querendo me roubar!” – teria pensado.

Mais à frente, avisto uma senhorita, andando de sombrinha entre o amontoado de automóveis lentos. Apresso o passo, com a cautela de não parecer um assaltante. “Olá, boa noite, por favor, que rua é essa?”. A resposta não poderia ser mais animadora: “Essa é a Antônio Carlos. A UFMG é logo ali na frente!”. 
O pior sucedeu. Uma hora e meia depois, estou eu de volta ao ponto de origem. Isso mesmo! Por incrível que possa parecer, eu fora capaz de percorrer toda a avenida onde fica meu trampo, circular pelo Centro, e voltar para a mesma avenida, completando o itinerário do busão! Difícil acreditar, mas eu fui capaz. Só me restou pegar novamente o ônibus e fazer tudo de novo. “Onde foi que eu errei dessa vez?” – passava pela minha cabeça...

Já era nove e meia da noite quando finalmente desci no meu destino, a praça Hugo Werneck: uma bela região, cercada por árvores, hospitais, prontos-socorros e clínicas por todos os lados!

Por aqui também há botecos.

Depois de todo esse episódio mereço tomar uma cerveja antes de ir para casa. Preciso relaxar. Aliás, uma só não. Duas, ou quem sabe seis...

Se eu passar mal, me cortar ou apanhar não tem problema. Hospital por aqui é o que não falta.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

República "É Mentira Dela!"

Algum estudioso diria que é preciso transformar as fraquezas em oportunidades. Assim sendo, aproveito a estiagem de boas ideias para reeditar uma homenagem feita à república onde morei, quando universitário, em Viçosa. A postagem original esteve na versão amadora do Blog do Cano em 12 de maio de 2009.

Bezineli, Manoel, Noavo, Cano e Wiber (falta Noego)

Foi um tempo curto, mas incrível. Tomemos como marco inicial o dia em que um moreno forte e crespo arrancou de forma autoritária, do painel do Restaurante Universitário, o anúncio de vaga para morar com outros estudantes no pomposo Edifício Tocqueville. Com a maior cara de pau, ao retirar o cartaz do frequentado mural, Pedro Bezineli eliminou a concorrência para fazer parte daquele lar. Numa tarde especial, de Nico Loco — quando esta ainda era a balada soberana da cidade —, ele chegou.

À sua espera, estava o então líder Cano, que, por uma inesperada manobra do destino, já havia se relacionado com a namorada do novo integrante. Bezineli, porém, no passado, tivera um affair com a cobiçada e protegida irmãzinha de outro membro: o pequenino, mirabolante e formidável Manoel. A primeira impressão foi fulminante. Formava-se, ali, uma família.

Na área de serviço do confortável apartamento, residia o caçula e galã da casa, conhecido como Wiber. Embora nem tivesse atingido a maioridade, era o mais maduro do lar e o guardião das finanças. 

O que esses sujeitos tinham em comum? Eles viviam o ápice da juventude. Solteiros, curtiam intensamente a vida boêmia. Com o passar do tempo, as mocinhas da cidade passaram a desaprovar tal comportamento leviano e muito se queixavam dos garotões. Acusados injustamente, eles se inspiraram na poética canção da dupla Teodoro & Sampaio para batizarem a república: É Mentira Dela!

...

Passados alguns dias, o ponderado Noavo ingressava na informal moradia. Destoava dos outros companheiros, pois era comprometido, tinha quase 30 anos de idade e cursava o Mestrado. Sua integração foi mínima, uma vez que ele passava todos os dias, noites e madrugadas praticando caloroso e barulhento sexo em seus aposentos. No ano seguinte, desembarcou na república o prendado Noego. Filho de um renomado cheff francês, Noego tinha dons culinários fenomenais. Andava cercado de menininhas, mas não deixava ninguém pegá-las — nem ele mesmo. As aventuras vividas foram inúmeras, mas são assunto para outra hora...

...

O lar começou a desmoronar quando Manoelzinho transferiu-se para uma instituição de ensino de melhor reputação. Logo após, Cano concluiu a graduação e também sumiu no mundo. Desmotivados, Wiber, Noego e Noavo se foram. Bezineli permaneceu no local, mas preferiu por um ponto final naquela fascinante lenda — e chefiou a formação de uma nova equipe, com outra denominação. Pouco mais de um ano durou a breve saga da residência onde imperou a ternura e a alegria. Um verdadeiro conto de fadas chamado "É Mentira Dela!". 


Pensamento do dia: "Feliz é aquele que
consegue conviver com as coisas boas do passado
sem desejá-las para o futuro."

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

2º Conto à trois

Coube a mim introduzir o 2º Conto à trois. Para quem não sabe, é uma historinha compartilhada entre três autores. Além de mim, participam o Ulisses Vasconcellos e o Marcos Oliveira. Cada um escreve um capítulo, postado no seu respectivo blog.

Para saber como o conto abaixo continua, acesse o Isso que eu falei. O desfecho está em Cueca e Meia.


O aniversário do Doutor Pantaleão

O aniversário do Doutor Pantaleão era historicamente o evento mais badalado da pequenina cidade de Pica-paus, nos confins do sertão nordestino.

Todo 1° de novembro, cerca de cinco centenas de convidados se esbaldavam com absurda fartura na mansão do renomado cirurgião. Barris e mais barris de chope, boi no rolete, churrascada, seresta, bailão e mais tudo o que há de bom. A festança virava a noite e atravessava o dia seguinte, feriado de Finados.

Sempre pintava um governadorzinho de Estado e alguns deputadozinhos na balada. O convite também chegava infalivelmente ao endereço dos mais enricados empresários da região. Esculturais mulheres, rigorosamente recrutadas na capital por Cardoso – o sobrinho fanfarrão do aniversariante – compunham quase a metade da lista de presença.

Este ano não foi diferente. Ou quase.

A equipe de TV já tinha em mãos a credencial para superar a portaria de luxo, onde reinava a imponente estátua de um pica-pau. Singelas recepcionistas, acompanhadas de seguranças que mais pareciam armários, zelavam pelo ingresso dos privilegiados convidados. Lá estava também a revista de fofocas e alguns colunistas sociais.

Como de praxe, o casarão ficou lotado. Lá pela meia-noite, três playboys já nadavam de paletó na piscina. Um fazendeiro cismado a tenor dava uma palinha ao microfone. Alguns negociantes firmavam colossais acordos verbais, a serem negligenciados quando a cachaça passasse. Os forrozeiros davam show. E tome cerveja, desce vinho, uísque, champanhe.

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No meio da madrugada, o anfitrião de 60 anos recém-completados trancou-se no banheiro e lá permaneceu durante quase uma hora. Um dos raros lúcidos àquela altura, o amigo Pascoal foi quem se atinou: descolou uma chave reserva e abriu a porta.

Doutor Adolfo Celso Pantaleão das Luzes estava no chão, molhado, com a língua azul. E sem respirar.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Papo de macho

Acho interessante a distinção que existe entre um bom papo numa roda de malandros e diálogos com donzelas.

Acompanhado de apenas uma mulher, esta geralmente é curiosa quanto ao que o homem tem a dizer. Ri de suas histórias e, conforme o enredo da prosa, acha o rapaz o mais doido, ousado, esperto ou desastrado do mundo.

Já quando se juntam três ou mais calcinhas na mesma sala, rola uma competição entre elas: quem fala mais e com maior riqueza de detalhes – quase sempre da vida alheia. Os decibéis da conversa aumentam gradativamente, até que as fêmeas perdem o foco.

Claro que existem exceções, mas geralmente é assim.

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Papo de macho é outra história. Caras absolutamente desconhecidos entre si articulam uma entrosada discussão sobre futebol. Embora jamais tenham se visto, têm muito a acrescentar reciprocamente sobre a habilidade de um lateral direito qualquer. Ou sobre a probabilidade de uma agremiação ser rebaixada à série B do Brasileirão.  

Homens são sinceros. Chamam-se de gordo ou viado sem que pareçam hostis. Nunca comentam se a roupa do outro está brega. E bastam dois minutos de amizade para que revelem integralmente as experiências sexuais que tiveram com as mulheres – relatos quase sempre verídicos.

É aí que começa minha análise.

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Como bom conversador que sou, venho há alguns anos coletando depoimentos de amigos sobre um assunto delicado e intrigante: a brochada sexual.  

Quanto a isso, não há psiquiatra ou santo que dê jeito. Quando a pipa não sobe, bate o desespero, perde-se o chão. Nada mais tem sentido. Cai a máscara do conquistador. O tigrão vira gatinho.

A brochada nivela os garanhões no mais baixo dos patamares. Afinal, se o centroavante se recusa a entrar em campo, de nada adianta o sujeito ser musculoso, contador de piada, tocador de violão ou ter dinheiro: o fulano não passa de um... brocha!

Como já mencionei, muitos amigos já me confessaram terem passado por tal experiência constrangedora. Alguns, inclusive, transmitiram aquilo que haviam ouvido de terceiros. Graças a isso, fui capaz de arriscar alguns perfis dos brochas.

O Brocha de Vênus: A casa cai no momento de encapar o amiguinho com o preservativo. O amasso se desenrola perfeitamente, até que, na hora de finalizar o processo, o indivíduo se atrapalha com a camisa de vênus: ou porque não conseguiu abrir a embalagem, ou porque tentou encaixar pelo lado errado. Então o cabra não reage mais.

O Brocha Exigente: No caso, a potência do garotão é abalada por inesperados defeitos na manutenção da mulher com quem se relaciona: um pelo no lugar errado ou a ação cruel da gravidade no corpo da baranga podem arruinar a vida do infeliz.

O Brocha Carniceiro: Esse, por sua vez, fica impressionado quando tem de abater um gado realmente suculento e por isso perde a autoconfiança. Quando a carne é de terceira, o caboclo se acha o tal e manda bem. Mas diante de um filé mignon a vaca vai pro brejo.

O Brocha Sentimental: Esse macambúzio, na hora do vamo ver, resolve se recordar dos instantes mágicos vividos sob os lençóis com a ex que o abandonou recentemente. Resultado: o falecido não trabalha e o imbecil passa vergonha.

O Brocha Bêbado: Dizem que o álcool em demasia prejudica o desempenho sexual. Por isso o bêbado é o mais versátil dos brochas: seja qual for a razão pela qual seu instrumento não funcionou, a falha é sempre atribuída ao excesso de cachaça.

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Mas nem tudo está perdido. Presumo que, com o desenvolvimento da farmacologia da libido masculina, os medicamentos existentes hoje em dia sejam capazes de anular essa angústia. Bem, eu sei lá se é isso mesmo. Insisto em ressaltar que traço imprecisas suposições sobre uma realidade ainda por mim pouco conhecida.

Não tenho, realmente, meios de confirmar se procede. Mas foi o que me disseram...
Observação: Não sou machista.
Uso a tal da licença poética
para brincar com aspectos polêmicos.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Divagações metropolitanas

A pressa que assola o aglomerado de cidadãos nas estações de metrô me deixa encafifado. Adolescentes, senhoras, gordos ou mocinhas: todos eles na correria. Mas para que? Por acaso presumem que o lugar para onde vão está muito melhor do que o lado de cá? Ou, de outra forma, por aqui está tão ruim que eles não vêm a hora de chegar a seus respectivos destinos?

Aquele japa esquisito, se desacelerasse o passo, perceberia que há muitas maneiras de se distrair em meio às conexões metroviárias. Eu, que caminho lentamente, sempre organizo concursos de beleza feminina. A cada viagem, desfilam pela minha passarela centenas de candidatas a caminho do vagão. A disputa segue com o trenzinho em movimento. Além da Musa do Dia, são premiadas a Miss Simpatia, a Miss Afro e, sempre que possível, até a Miss Coroa.

Quando não estou apreciando a beleza exterior das fêmeas, julgo o caráter dos usuários em geral. Por meio de uma análise superficial, consigo desvendar com precisão a idade, a profissão e o estado civil dos metropolitanos. As professorinhas são facilmente identificadas. Alguns têm cara de Geraldos, outros moram com a avó. Há os que claramente são cornos e os que deixaram o Nordeste para trabalhar no MacDonald´s.

Só não absorvo a razão pela qual sempre sobem as escadas atropelando uns aos outros...

Tem aqueles caras que já foram presos, ou em breve o serão. Os aposentados que não suportam mais ficar dentro de casa com suas esposas velhas. As graciosas voluntárias que se fantasiam de palhaças para animar eventos infantis na pracinha. Os púberes garotos que ainda não decidiram se serão homossexuais. Às segundas-feiras, sou capaz de diferir torcedores ostentando símbolos do time de sua preferência. Até esses se locomovem rapidamente.

Interessantes também são as distintas procedências da rapaziada. Aquele grupo de moleques de boné mora em uma cidadezinha cretina dos arredores da capital. Fazem um curso profissionalizante. A donzela de cachinhos nasceu em Goiás. Trabalha o dia inteiro e despende todo o seu salário para custear a faculdade noturna de Administração. Isso talvez explique porque anda tão afoita.

Somente aqui, neste vagão, há uma garota de programa, um advogado cujo automóvel está na oficina, um menininho que fugiu de casa, uma enfermeira muito católica, um capiau que nunca andou de metrô, um caboclo gente boa que dormiu na casa da sogra e um desempregado que acordou cedo à toa. São diferentes interesses e realidades que convergiram para a mesma caixa de metal que se arrasta sobre os trilhos! E todos eles, como já mencionei, atravessam voando entre as roletas.

Eu, por exemplo, quem passa correndo nem imagina!, sou de Monlevade. Estava no Espírito Santo no fim de semana, fazendo um concurso público. Cheguei às sete da manhã na estação São Gabriel, no leste de Belo Horizonte. Estou a caminho de Contagem, no extremo oeste, onde desembarcarei e tomarei outro coletivo para chegar ao trabalho.

Como só bato o ponto às nove, não tenho o mínimo de pressa. Por isso estou tranquilo, e sigo meu rumo observando tudo. Devagar. E divagando.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Uma questão de prioridades

Exceto pelos jogos de computador do estilo manager, sempre fui um sujeito isento de vícios. Refiro-me aos games de futebol em que atuamos como treinador e dirigente; escalando, contratando e gerindo um time virtual.

O pioneiro entre eles foi o fascinante Elifoot II (em tese, deveria existir o Elifoot I, com a mais adequada prerrogativa de ser o pioneiro. Mas creio realmente que tudo começou com o Eli II). Aos 13 anos, escravizei-me à sua segunda edição, o Elifoot 98, fixação que de certo compartilhei com inúmeros guris à época. O Championship Manager 2001/2002, que atravessou minha juventude, foi, por fim, o que mais me fez desperdiçar preciosas horas de vida.

Mas hoje, graças a Deus, estou livre dele.

Caso não tivesse dedicado uma década inteira ao CM, poderia, por exemplo, ter me tornado um razoável tocador de violão. Talvez tivesse estudado Inglês nesse meio tempo ou fosse capaz de dançar um bom forró. Ou tido uma variedade maior de namoradas.

Provavelmente teria passado muito jovem em um concurso público. Teria obtido melhores notas no colégio e na faculdade. Não sairia de fininho quando começassem a falar de Cinema ou automóveis.

Penso que já teria concluído o Mestrado se não tivesse me preocupado tanto em negociar atletas virtuais. Teria tirado minha CNH mais cedo, se não tivesse tão obcecado em arquitetar esquemas táticos infalíveis.

Poderia ter fortalecido minhas amizades, lido vários livros ou viajado pelo Brasil. Poderia hoje ser mais bem visto na sociedade, ser bom de bola ou expert em qualquer coisa legal.

Poderia ter malhado e ostentar um corpo saradão. Visitado meus avós. Plantado uma árvore, gerado um filho, feito alguma descoberta científica, ganhado uma olimpíada de Física, ajudado os pobres e os animais em extinção, melhorado o planeta em que vivemos...

Mas chega de papo-furado, vou-me embora para casa, jogar Football Manager 2011, a versão mais atual e espetacular da série. Comecei uma temporada com o Cruzeiro: emprestei o Roger e trouxe o Rafael Tolói. Implantei um esquema inovador, com um ponta esquerda e dois centroavantes.

Ocupo o meio da tabela, mas estou bastante esperançoso. Hoje vou dormir bem tarde...

Nota: Só tive tempo de escrever esse relato
porque não consegui instalar o FM 2011
no meu novo computador do trampo.
Acho que é bloqueado para tal.
Ainda bem.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Coifas & Depuradores


Ao contrário de muita gente, sempre tive o sonho de morar sozinho.

Viver longe da família sugere liberdade. Habitar uma república de estudantes tem seu valor. Mudar de cidade é um grande aprendizado. Porém, eu desejava mais do que isso. Queria entrar em casa e encontrar o prazeroso silêncio e a valiosa solidão. Andar pelado e ligar o som. Abrir as janelas, a cerveja, uma revista e o chuveiro – tudo ao mesmo tempo, sem incomodar ou ser importunado.

Dias atrás, acabei descolando um cafofo, deserto, ninguém ao meu redor. Pensei: “Maneiro. Para começo de conversa vou comprar uma vassoura. E um sabão”.

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Cheio de ânimo, rumei ao supermercado e me aventurei pela misteriosa seção de materiais de limpeza. Que lugar fascinante! Antes de alcançar o simplório sabão, fui apresentado aos seus primos: água sanitária, alvejante e desinfetante. Achei-os, a princípio, muita areia para o meu carrinho. Não fui com a cara de um tal de solvente.

Mais adiante, cruzei com os clorados e limpa-fornos. Não compreendi os evita-mofos. Achei um barato os chamados saponáceos.

Intrigou-me a existência dos pré-lavagem. Descobri que não basta ser um pano – tem que ser um pano multiuso. Sem desfazer, por sinal, dos panos umedecidos e dos panos de algodão. Minha agonia quanto aos desentupidores só foi amenizada quando avistei as esponjas sintéticas e os polidores de metal.

A partir daí, tomou-me uma paz sem explicação, graças à qual assimilei os amaciantes e até os facilitadores de passar. Desnecessário dizer que tirei de letra os eficientes lustradores e as simpáticas pastilhas para ralo. Imaginei que os limpadores perfumados, quando crescessem, gostariam de ser odorizadores de ambiente. Mas logo me dispersei...

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Por fim, decidi levar uma cera líquida, um álcool em gel e um negócio de eucalipto. Quanto ao título do texto?... É que achei interessante um pacotinho escrito “Coifas e Depuradores”. Também ocupava a prateleira, perto das lãs de aço.

Eu sei, hoje em dia é só jogar no Google que a gente descobre qualquer coisa. Mas todo esse episódio me fez perceber que estou perdendo minha inocência. Por isso, decidi:

Nem sob tortura eu pesquiso sobre o que vêm a ser “Coifas e Depuradores”!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Bliguinho

Há muitos e muitos anos, algumas bobagens de minha autoria foram postadas na versão antiga do Blog do Cano. Condenadas ao ostracismo, resolvi resgatá-las. A primeira crônica que ressurge das cinzas, assim sendo, é Bliguinho. Seu registro original data de 22 de janeiro de 2008.


Para a minha surpresa, percebi que era Bliguinho.

Na madruga, melancolia e solidão. Os músculos das costas sofriam: tinha de me curvar para arrastar a mala de rodinhas com a alça quebrada. Não seria problema se não tivesse de carregar, ainda, uma bolsa, uma mochila, uma sacola imensa. E a pesada saudade que insistia em vir junto. A chuva fina incomodava. Instantes antes, havia chorado pela última vez ao deixar o apartamento vazio de gente. Seu caráter de lar desconfigurado por causa de um mundo de mobílias amontoadas, tanto dos predecessores quanto dos novos moradores.

Despedi-me da suíte que fora só minha por meio ano e dos demais cômodos da casa. Se tivessem o dom da fala, as paredes relatariam às novas gerações, com entusiasmo, as farras ali vividas, desde o tempo em que passou a ser divertido tomar um fardo inteiro de long neck assistindo futebol na TV. Diálogos com amigos, videogame, mulheres. O ímpeto de nostalgia havia feito telefonar para a namorada de cinco anos atrás. Um contato inédito, diferente das duas ligações anuais, nos respectivos aniversários. Certamente ela não estaria na cidade. Estava, mas não fez questão de me ver. Com os olhos de cimento rasos d’água, as paredes me disseram o último adeus.

Abençoado pelo sentinela da rua, "vai com Deus, irmãozinho!", caminhava lento, dolorido, a caminho do ônibus que me levaria para longe dali. O pensamento perdido em lembranças, planos, lamentações, devaneios.

Dado momento, as vistas imperfeitas detectaram um corpo pequeno que se aproximava, e que fez lembrar um sujeito pitoresco, conhecido como “Bliguinho”. Mas aquele parecia ser ainda menor. “Quer ajuda com as malas?” — abordou-me. Percebi que era Bliguinho.

Apesar do rosto infantil e do porte minúsculo, não é mais criança, porque tem barba na cara. Não é adulto, por causa do sorriso puro. Não é mendigo, os dentes saudáveis. Não é lúcido, vaga pela cidade. Vez por outra, em ocasiões inoportunas, presta louvores a este ou àquele time de futebol. Não é bobo, tentou beijar minha garota uma vez. Esse é Bliguinho, que despencou às três da manhã na avenida principal para me ajudar com as malas.

Ao contrário do que ele pensara, eu não estava sozinho. Afundado em memórias, no momento derradeiro na cidade universitária, acompanhava-me o motorista espertalhão que me trouxe pela primeira vez a Viçosa. Ele falava um monte de putaria e eu era um adolescente que me achava muito doido porque ia morar fora aos 15 anos de idade. No som do carro, uma música boa, parecendo country, que minha ignorância internacional descobriu, anos depois, tratar-se de Dire Straits. Veio à tona aquele porteiro do prédio que conseguia gostar de mim embora eu fosse o adolescente mais baderneiro do condomínio. A turma do colégio, a mulherada, os folclóricos malucos da cidade. Os caras da república, os amigos da faculdade. E as tantas pelas quais me apaixonei.

A partir daquele momento tudo seria passado. E a última pessoa que encontrei na cidade enquanto ali morava foi o pequeno Bliguinho, que até hoje não faz ideia de quem eu seja. Misto de criança com adulto, alegria, insanidade. Assim como a vida em Viçosa que se findava.

“Quer que te ajude com a mala?”. “Precisa não, Bliguinho, já tô chegando”. Deu meia volta e sumiu no mundo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Conto à tróis - Parte 3

Trata-se de uma pioneira exeriência na web-literatura brasileira. Em parceria com os consagrados jornalistas Ulisses Vasconcellos e Marcos Oliveira, participo do projeto Conto à tróis. Consiste na narração de uma história dividida em três capítulos, sendo cada um deles feito por um escritor diferente e postado no seu respectivo blog.

O que você vai ler abaixo é o desfecho do conto Amor de coletivo. O fractal de abertura é de autoria do Ulisses e o segundo ficou por conta do Marcos. Para saber como a história começou, o link é esse: Issoqueeufalei. A sequência está em Cueca e Meia .



Já tive mulheres de todas as cores...

Fábio, inocente, havia anotado em um bloquinho algumas dúvidas que esclareceria previamente com o amigo pegador. "E se a Gláucia perguntar sobre a minha profissão? Especialista em Engrenagens Automotivas? Será que cola?". Precisava dos conselhos do companheiro, mas só ouviu gozações. Ganhou até um comprimidinho azul de presente. Com a validade suspeita, mas ele, inseguro, acabaria tomando mesmo assim. "Não conseguirei me virar sozinho! Cabelo com gel ou ao natural? Convido a mina para o bar ou a levo ao cinema? Tento beijá-la logo após a primeira taça?"

Procurou, sem sucesso, por Nestor, na saída do trampo. Foi à recepção, ao banheiro, e ao lugar predileto do comparsa: a sala da imprensa, de onde brotavam estagiárias safadas e ociosas. Não havia mais tempo. Dispendeu o equivalente ao salário de um dia para voltar de táxi do serviço. O porteiro da fábrica foi quem informou: Nestor estaria embriagado, em um happy hour com as meninas do RH. Esquecera-se do combinado, ou não dera a mínima. Fábio pensou em chorar de desespero, mas foi covarde até para isso. "Cretino, me deixou na mão" - jogou no lixo o bloquinho.

Chegou em casa às pressas, banhou-se e perfumou-se como nunca. Saiu novamente e largou a porta entreaberta. Dali a alguns instantes chegaria o coletivo 003, dentro do qual, religiosamente, encontrava-se Gláucia, quase imperceptível no fundo do carro, pendurada ao celular, olhando sempre para baixo.

Antes de embarcar, o solitário pretendente resolveu experimentar uma dose de audácia. Aliás, quatro. Caprichadas, daquela aguardente vendida no simpático buteco da sua rua. Não bebia desde a adolescência. Desde então, também, não cortejara garota alguma. "Um pouco mais de coragem" - refletiu. Começou a cantarolar um samba do Martinho para ver se relaxava: "Já tive mulheres... de todas as cores... de várias idades... de muitos amores..."

Subiu no 003, como era de praxe três vezes a cada semana. Sentou-se na penúltima poltrona. Contou três, cinco, sete paradas do itinerário e ela não veio. Nem o cheiro singular da sua deusa desconhecida foi percebido. Insistente, Fábio desceu no mesmo ponto onde corriqueiramente ela desembarcava.

Teria ela se antecipado justamente hoje? "Alguém por aqui conhece alguma Gláucia?" - indagou, sem direção. Desorientado, andava em zigue-zague. À meia distância, sob a luz de um poste, foi enfim avistada uma senhorita, de costas, um metro e sessenta, cabelo marrom, na altura do ombro. E os inconfundíveis cachos nas pontas.

Curiosamente, a donzela, outrora de pele tão alva, estava ligeiramente... verde.

"Gláucia!" - cutucou, mas ela não respondeu. GLÁUCIA! GLÁUCIA! GLÁUCIAAA!!!

O próprio grito foi o que fez Fábio despertar. Ainda eram nove da noite e o rapaz se encontrava num balcão de buteco, despenteado e exalando um odor estranho. As quatro generosas cachaças, reagidas com a pílula de Viagra vencido, o haviam feito desmaiar, sonhar e delirar sem ter saído do lugar.

No seu celular ainda tocava a mesma música em formato MP3. Durante o porre, Fábio havia acionado a função Repeat. Por isso, o timbre rouco e malandro de Martinho da Vila seguia entoando: "Procurei... em todas as mulheres a felicidade... mas eu não encontrei, fiquei na saudade...".

terça-feira, 12 de julho de 2011

O velho cão da boemia a um dia de se casar

A princípio, Walter teve de se desfazer das bermudas tactel e dos pares de sapatênis. Deixou de lado as camisas estampadas e o brinquinho de argola. Abadás de micaretas passadas não veria mais. O infalível gel fixador deu lugar ao creme para pentear. Isso, no decorrer de, apenas, o primeiro ano de namoro.

Já há algum tempo, ele vinha se preparando para a iminente transfomacão. Teria de jogar para escanteio o compromisso de acompanhar as séries A, B e C do Brasileirão diariamente pela TV. Desde o mês anterior, passara a abrir mão dos campeonatos turco e português. Será preciso se adaptar a dividir o lar, seu tempo e atenções com a esposa. Eventualmente vai assistir à melosa novela das nove com a amada.

A vida é mesmo assim, feita de fases.

E é bom ir se acostumando com a ideia de compartilhar com a mulher a direção de seu tão estimado Toyota Corolla. Até então, o leme do possante jamais fora manejado por outrem. Com sua dama, aprendeu a ajeitar a cama e tampar a pasta de dente. Foi pela primeira vez a um restaurante japonês e à cidade histórica de Tiradentes. Das malandras viagens só com amigos, já se acostumara a estar ausente. Logo ele, o líder nato da moçada.

O velho cão da boemia está a um dia se casar.

Quanto à mais significativa das mudanças, no entanto, seu coração quer relutar. Essa sim, irreversível, mas ele sabe que tem de assimilar. Diz respeito àquilo que o faz se sentir homem. Instinto voraz, algo maior do que ele.

A bem da verdade, é muito comum entre os machos manter tal hábito, mesmo depois de casados, enquanto tiverem energia. "Mas não sou como os outros" - insiste o noivo em tentar convencer a si próprio.

Na véspera de seu adeus à vida de solteiro, ele decide que faz jus a uma recaída. "Voltarei lá, mas será a última vez" - estabelece. Logo na entrada, reencontra alguns de seus cúmplices. Gente boa, mas sem futuro. Não dizem nada que presta, estão ali à caça de prazer e diversão.

Walter se emociona ao imaginar que nunca mais pisará o recinto onde tanto se saciou. Sente uma ponta de inveja quando avista um companheiro, completamente suado e satisfeito, relaxando ao sabor de uma cerveja gelada.

Tentando não pensar em mais nada, lá está Walter, enfim, pela derradeira vez, fazendo aquilo de que mais gosta: vestindo a camisa número 6 do time dos solteiros, na pelada de sexta-feira da firma. Titular absoluto da lateral esquerda durante nove anos, ele deixou escorrer uma lágrima assim que ouviu o apito inicial. O time dos casados joga com dois volantes e três homens de armação. Não há lugar para um ala de contenção. Por isso ele decidira, com imenso pesar, pendurar as chuteiras ao fim da peleja.

É difícil aceitar, mas a vida é assim, feita de fases.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O poeta e o mar

Dizem que o mar inspira os poetas.

Numa orla capixaba estava o poeta mineiro, contemplando aquilo que ele julga ser a mais fantástica das criações: o Sol se despedindo, na praia.

E ele se extasiava com tamanha perfeição. A linha de paz que separa o céu do oceano era a mais precisa ilustração do infinito. Fazia com que o poeta se sentisse quase tão pequeno quanto os grãos de areia esmagados sob suas nádegas brancas. O som das ondas se quebrando, o gosto da cerveja, a brisa ofegante, combinados, proporcionavam-lhe uma experiência sensorial pra lá de deliciosa.

Algo, porém, o intrigava e o fascinava em especial: as conchas. Aquilo era para ele o mais sublime artesanato, a mais prima das obras de arte. Qual o esmero tido pelo Criador ao desenhar as curvas, colorí-las. Dar a cada uma a devida estampa. Diferentes relevos e dimensões.

Quando tivesse seu filho, - divagava - e esse adquirisse a capacidade da cognição, o poeta diria-lhe que cada uma das conchas do oceano representa uma vida humana pelo planeta. As que chegam à margem partidas são as pessoas que já morreram. E se o filho separasse duas conchas fechadas, nesse momento desataria duas almas gêmeas em algum lugar do mundo.

O poeta chegava a selecionar uma ou outra concha para ser observada de pertinho, mas tinha de ser ligeiro na coleta.  A torrente de água salgada vinha, impiedosa, e carregava todas as que encontrasse. Em compensação, trazia outras centenas. Fazia isso, sem parar.

Encantado, ele sabia que, na condição de poeta, teria de elaborar, ali mesmo, versos de amor. A emoção seria seu estímulo e as palavras haveriam de escorrer, fáceis, embaladas pela sensibilidade inerente ao momento. Pensou... pensou... quebrou a cabeça. A única coisa que saiu foi isto:

"Muié é igual concha na praia. Se ocê escói uma e ela vai embora, na mesma hora vem um punhado, uma mais linda do que a outra"

Importante: os textos publicados nesse blog
não correspondem, necessariamente,
ao ponto de vista do autor.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O conto dos três irmãos

Janjão sempre se virou sozinho. Já aos dois anos de idade, não permitia ser carregado no colo por ninguém. Aos quatro anos, era ele quem levava e buscava os colegas da escolinha. Era o líder das brigas infantis e também o responsável por selar a paz no recinto. Quando iniciou a adolescência, decidiu que não frequentaria mais o colégio – e não havia quem fosse capaz de fazer o Janjão mudar de ideia.

Cuidou do irmão Mário – sete anos mais moço – como se dele fosse o proprietário, o guru. Monitorava sua alimentação e seus estudos. Mais tarde, passou também a recrutar meninas para que ele namorasse. Fazia de tudo e mais um pouco pela felicidade do moleque.

E o menino Mário foi um bom investimento. Era destaque por sua inteligência e elegância. O orgulho do mano mais velho! De tão mimado, tornou-se meio esnobe, mas não deixou de ser um sucesso: ganhava concursos de redação, olimpíadas de matemática, concursos de beleza e por aí vai.

Os olhos dos dois irmãos brilharam quando veio ao mundo Zezinho, a rapa do tacho. Janjão já era um homem de vinte e poucos anos e Mário preparava-se para ingressar na faculdade. Ambos tinham muito respaldo na cidadezinha de 5 mil habitantes e por isso o pequeno Zezinho cresceu sendo o centro das atenções por ali. Não era durão e de forte personalidade como Janjão, nem sábio e prepotente como Mário. Zezinho apenas era simples e se dava bem com todo mundo.

A esta altura, os três irmãos ficaram órfãos e as coisas apertaram. Janjão então resolveu abrir um negócio para sustentar a família. Mas qual? Haveria de ser um tiro certo. Algo inovador e infalível, afinal, ele não era acostumado a perder. Pensou, pensou... Eureca! uma Funerária. Não havia outro estabelecimento como esse na cidade. Os defuntos, até então, tinham de ser velados e sepultados em outra localidade, distante 80 km.

E como morria gente na cidadezinha! Não tinha água tratada, nem polícia, nem médico. Por isso, todos os dias, morria um.

Assim, os irmãos ficaram ricos. E o cemitério bombou. A faculdade de Mário, o irmão do meio, na capital, e também a criação do pequenino Zezinho foram bancadas pelo bem sucedido empreendimento de Janjão. Foram tempos de paz e prosperidade naquela família. Os três irmãos eram felizes e se amavam demais.

Após nove anos estudando, Mário regressou à terra onde tinha suas raízes. Tornou-se o primeiro médico do povoado. Era tão dedicado à profissão que nem tirava férias. Salvava os bebês prematuros e desnutridos, curava as crianças com vermes e queimaduras, dava esperanças aos anciãos esclerosados. Era adorado e aclamado. E assim ficou milionário.

Durante uma década inteira, ninguém mais morreu por aquelas bandas.

E como ninguém mais morria, Janjão da Funerária foi à falência. Teve de vender tudo o que tinha. Seus caixões encalhados criavam teias de aranhas. As flores que cultivava para os velórios murcharam. Janjão caiu em profunda depressão e odiou o irmão com todas as suas forças. Era ele o culpado!

E assim a vida seguiu. Janjão, revoltado e arruinado, foi morar num abrigo público. Zezinho, o pequeno, na luxuosa mansão do Doutor Mário, cresceu em berço de ouro. Apesar de ricos, jamais arredaram o pé da cidadezinha tão estimada. O caçula descobriu até que tinha vocação para a política.

Aos 21 anos de idade, Zezinho foi eleito o mais jovem prefeito da história de todo o Estado. Ele não tinha cursado faculdade, não falava inglês, mas era muito bem relacionado. Aliás, venceu o pleito por unanimidade de votos entre os eleitores, algo nunca dantes imaginado na democracia brasileira. Para essa façanha, tirou proveito, inclusive, da popularidade dos irmãos mais velhos.

E ele cismou que faria de seu governo um exemplo de integridade e eficiência. A cidade enfim conheceu o progresso e a urbanização. A criminalidade deu lugar ao índice de 100% de alfabetização. O povo passou a contar com orientação de sanitaristas e nutricionistas. Exterminaram-se as pestes. Erradicaram-se os vírus. Promoveu-se a vacinação. O direito aos medicamentos gratuitos foi assegurado a todos.

E durante uma década, ninguém mais ficou doente naquele lugar.

Quem não gostou nada disso foi o Doutor Mário, cujo salário costumava ser custeado por quase toda a arrecadação do município. Com a eliminação das doenças, ele teve seus serviços dispensados. Sem trabalho, teve de deixar a cidade, caso contrário morreria de fome. Dizem que tentou se matar algumas vezes. Já o Janjão da Funerária hoje vive esquecido e debilitado num asilo. Nunca mais se recuperou das desilusões vividas. O jovem prefeito, por sua vez, vive escondido, ameaçado de morte, sabe-se lá por quem.

Os três irmãos tinham tudo para serem uma família feliz, mas nem olham mais um na cara do outro. Como se diz por aí, a vida é feita de escolhas. Se tivessem optado por ser apenas vagabundos, as coisas teriam sido diferentes... 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Meu amigo Luz

Conheci o Luz na quinta série do colégio. Era uma criança pacata e solidária, incapaz de fazer mal a alguém. Além disso, era ingênuo, tímido, inseguro e usava aparelho nos dentes. Portanto, o alvo perfeito para a perseguição por parte do colegas: a típica crueldade infantil conhecida como bullying.

"Luz", embora não deixe de ser um apelido cretino, foi o nome mais aceitável pelo qual o excêntrico Lúcio Henrique já fora chamado. Não que ele gostasse da alcunha, mas as outras criadas pela turma certamente queimariam ainda mais o seu filme. Por isso, forçosamente ele acabou aceitando: Luz.

Luz sempre fora um menino relativamente feio. Muito magrelo, com acne no rosto. Para piorar, raramente cortava o cabelo. Ele tinha incontáveis defeitos e o pior deles era ser muito chorão. Quando obtia uma nota ruim na prova, ele chorava. Se pisassem no seu pé, ele chorava. E se rissem dele, chorava de novo.

Mas, cá pra nós, eu sempre torci pelo Luz. Gostava dele, até.

Luz muito sofria com as chacotas da moçada, mas nem por isso deixava de estar junto dos outros garotos da classe. Afinal, exceto nós, ninguém mais na escola sabia de sua existência. As reuniões para trabalhos escolares em grupo, por exemplo, eram sempre na sua casa: onde o lanche era melhor. Ele também tinha computador, playstation, piscina...

Eu o achava um bom amigo, o Luz.

Enfim, crescemos, e por alguns anos eu não tive notícias do Luz. Pobre Luz, tão bonzinho e tão desprezado. Como estaria agora, na juventude? Nerd? Viado? Para meu consolo, não se matou.

Não faz muito tempo, eu soube, o Luz decidiu se exercitar na academia de musculação, porém, nem gostou. Já no terceiro dia de atividade, pensou em desistir. Foi quando ouviu, pela primeira vez na vida, algo animador:

"– Me passa essa barra, FERA?"

Sim! Ele fora enfim tratado com respeito. Foi chamado de FERA pelo fortão da academia.

Depois disso, Lúcio passou a malhar com afinco. E tomou alguns suplementos e drogas. Com um ano de treinamento, ficou muito musculoso. Pouco depois, botou um brinquinho na orelha esquerda. Passou a andar perfumado, com gel no cabelo e topete impecável. Entrou na aula de violão.

Quando completou a maioridade, ganhou de presente do pai um Honda Civic, pretão, lindo. E investiu mais dez mil reais em aparelhagem de som para o possante. Começou a namorar uma linda menininha, dessas que se apaixonam fácil.

Lúcio Henrique foi fazer faculdade no Triângulo Mineiro. Para aumentar sua popularidade, comercializava maconha, LSD e outras coisinhas entre os estudantes. Ficou meio dependente quimicamente, mas isso é o de menos. Ele tornou-se famoso, andava cercado de amigos e desfilava de carrão. Frequentava todas as baladas da cidade e por isso nunca se formou em Odontologia. Pelo menos, enquanto era universitário, pegou mais de quinhentas mulheres. Não havia quem o desconhecesse. Era o terror.

Hoje em dia, ele tá sumido, e muita gente na cidade universitária percebeu sua falta. Passará quatro anos na cadeia porque ficou muito doidão e quase matou um rapaz a garrafadas. Vai para o presídio assim que se recuperar numa clínica para viciados em cocaína. Antes, porém, tem de receber alta no hospital: dizem que apanhou feio de um marido enciumado. Por sinal, ele também responde por crime de tráfico de drogas.

Uberlândia nunca mais foi a mesma depois de sua passagem por lá. Grande garoto!

Eu sempre soube que ele deixaria sua marca. Sempre acreditei no potencial de meu amigo Luz...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Estranhos no metrô

São, no máximo, quinze minutos de espera. E não há absolutamente nada para se fazer. Talvez por isso eu não consiga tirar os olhos de um estranho casal que, na estação Central de Belo Horizonte, aguarda a chegada do trem (sic).

Ambos fumam, mas ela faz isso de forma frenética. Infla os pulmões com a fumaça tóxica, colore de cinza o ambiente em torno de si, e imediatamente traz de volta à boca o monte roliço de tabaco em chama branda. E sopra tudo de novo.

É magra, vestida de maneira básica. Nada de brinco ou maquiagem. Nariz um pouco grande, cabelos curtos e pretos, denotando liberdade e independência. Sua bunda tem um formato estranho, destoando da brasilidade das demais nádegas femininas presentes. Pode-se dizer que é uma moça bonita.

Ele, se não fosse gay, seria o namorado. Se não fosse gay, estaria despentado e com a barba e bigode rebeldes. Mas é o melhor amigo da mocinha. Cabelos cacheados e abundantes, discretos olhos azuis. Jeans e sapato de jovem. Apesar de ser gay, não é aparentemente afeminado.

Obviamente são jornalistas. Ou melhor, cursam a faculdade, mas jamais vão exercer. Serão pesquisadores, depois doutores, e, se as drogas permitirem que cheguem vivos à maturidade, irão lecionar aquilo que aprenderam. Nota-se que são socialistas convictos e ateus fervorosos. Não acreditam em espíritos, tampouco na família como instituição sagrada.

Ele é filho de um bem-sucedido empresário, oriundo do próspero ABC paulista, mas este é um passado negro que prefere ocultar. Antes de vir estudar em Minas, era fã dos Raimundos e até gostava de "azarar umas minas". Mas abandonou as roupas de marca e as baladas caras. Passou a frequentar ambientes de diversidade sexual e bares hippies  embora não beba álcool. Tem cara de Sérgio, mas foi apelidado de Dark pelos amigos da faculdade.

Maria Cecília, durante toda a adolescência, namorou um skatista que pichava muros, só para contrariar o pai. O velho, de conservadora família polonesa, é um cirurgião plástico de renome em Londrina. Ela encontrou na vida universitária em outro Estado um jeito de fugir da rigidez familiar. Vai ao Paraná uma vez por ano, não sente falta do seu pessoal. Tinha tudo do bom e do melhor, mas hoje é mais feliz dividindo um apê de dois quartos com outras três garotas. Não sei bem o porquê, mas algo me diz que se ela morresse hoje, iria para o inferno.

Entraram no mesmo vagão que eu. O casal que vejo pela primeira vez continuará dono da minha atenção. Agora eles pararam de se falar, o assunto esgotou. Sem motivo aparente, ele a abraça e beija seu rosto carinhosamente, endossando o que eu havia constatado sobre sua homossexualidade.

Após meia hora de devaneios, o trem chega ao meu destino. Quase perco o ponto por causa dessas reflexões. Pelo visto, o casal vai descer aqui também. A menos que minha namorada já esteja à minha espera, ficarei constrangido de caminhar lado a lado com os já tão íntimos desconhecidos.

O trajeto da passarela até o estacionamento parece não ter fim. Contenho o impulso de virar o rosto e continuar observando o casal de amigos, que para mim já são bizarros. Só ouço os respectivos passos, sincronizados, e os imagino acendendo mais cigarros. Não percebo vozes, mas é inevitável confabular um diálogo entre eles, com um sotaque irritante qualquer.

Tenho pressa. Que bom, lá está minha garota. Ela sorri de forma atípica.

 Oi Dudu! Quer carona?

Eu olho para trás e me surpreendo. Minha nossa! Como eu não havia reconhecido?! É o Carlos Eduardo, primo da minha namorada! Não o vejo há seis meses, quando tomamos uma cerveja no boteco de seu pai. Realmente tá mudado... o bigode cresceu um pouquinho.

Quem o acompanha é a sua noiva, a Silvinha. Formam um dos mais belos casais que já vi, nascidos um para o outro, como se diz... Conheceram-se no Grupo de Jovens de Cristo, da paróquia aqui do bairro mesmo. Mas foi durante a faculdade de Direito que começaram a namorar. Formados há três anos, passaram no concurso da Defensoria Pública. Enfim juntaram uma grana e vão se casar. Deste ano não passa!

 Como você tá, meu peixe? Nem tinha notado a presença de vocês! Sabe como é... meia hora no metrô, a gente acaba cochilando...