segunda-feira, 6 de novembro de 2023
O espião
segunda-feira, 28 de agosto de 2023
Meu reino
Abaixo dos felinos, meu sofá se expande, igualmente belo e gigante. Vez ou outra, mando lavar ou reformar. Troco sua cor, desde que seja para azul. E por falar em azul, tenho um violão vermelhíssimo, com angelicais cordas de aço. Prefiro cordas de nylon, mas quando o vendedor perguntou aço?, respondi sim querendo dizer não.
O banheiro é moderno, mas o chuveiro funciona mal. Provavelmente porque o comprei com a voltagem errada. Respondi sim ao vendedor querendo dizer não. A geladeira está sempre repleta de cervejas. Se eu as bebesse, ela esvaziaria. Como não as bebo, permanece cheia. Na cozinha há inúmeras plantinhas. Algumas comprei na floricultura, outras nasceram por geração espontânea. Toda sexta-feira dou água a elas, mas elas nunca me dão nada. Por isso, cuidar das plantas é um exercício de altruísmo. Elas bebem água e nada acontece. As mais ingratas um dia morrem.
Quando mais jovem, eu era capaz de me curar de qualquer doença tomando o máximo de água que aguentasse. Enrolava-me com uma dezena de cobertores e concebia, dessa forma, um casulo superaquecido no interior do qual eu transpirava caoticamente. Conforme suava e urinava, eu bebia mais água e, assim, continuamente, ia fazendo, até curar-me completamente. Nunca falhou.
Todas as noites, minha última visão, antes de adormecer, é da luz fortíssima da luminária, virada para a parede do canto, e também do livro e da cara de Jesus. Ali me deito, leio e sonho com as coisas mais loucas. O lado direito da cama pertence à minha pequena, que não gosta da luminária acesa. Acato sim querendo negar não. Não sei seu nome. Só sei que tem a letra L. Por sinal, estabeleci, desde sempre, que todos os nomes de mulher deveriam ter a letra L. Sem o L, parece faltar a leveza necessária ao feminino. Parece faltar lirismo. Falta luxúria. Falta linearidade, falta lógica.
A luz lilás da luminária, o livro lúdico, o lindo Jesus. Um dia, uma menina de apenas oito anos de idade pintou um retrato perfeito de Jesus. Isso me mobilizou além da conta porque a artista tivera visões da dimensão celestial e, mediante essa experiência, desenhou a imagem do Filho de Deus, exatamente conforme ela havia visto. Creio que o retrato seja mesmo fidedigno, mas, ainda que não o fosse... poxa, é absolutamente impressionante que uma criança seja capaz de pintar um retrato tão realista.
A luminária que ofusca, o livro, a cara de Jesus. Talvez eu tenha lido dez por cento dos livros que armazeno. Alguns são clássicos da literatura, outros versam sobre Freud, outros sobre Jesus. Queria um livro que misturasse tudo isso. E também um Big Mac, de madrugada sempre tenho fome. E também uma pequena, com a letra L. E um leal leão.
O outro chuveiro é eficaz. Debaixo dele desapareço e canto. A voz anda grave e ressonante, por causa da gripe. Se fosse mais jovem, eu me embolaria em dez cobertores até suar e ficar curado.
Preciso trocar a lâmpada da luminária por uma mais branda. O livro, a cara de Jesus, vestido com vestes brancas. Em qualquer direção, ele me olha, como fazia a Monalisa. E eu me pergunto: o que é que eu tô fazendo aqui? Já nem sei. Pra que tantas roupas? Muitas encolheram, ou fui eu que engordei, nem sei.
Toda noite, os leões, a luz, o livro, Jesus. Ontem o Bruno, do Biquini, não cantou aquela canção segundo a qual a sua casa é seu reino. Sou muito ídolo do Bruno Gouveia. Ou melhor, sou fã desse cantor. Já nem sei.
Eu sei é que toda essa adrenalina não me deixa dormir.
quinta-feira, 13 de julho de 2023
Ideias para o mundo começar de novo – PARTE UM
Dores, simplesmente, emergem, não se sabe de onde.
A mobilidade enferruja. A memória falha. As esperanças arrefecem. A solidão faz companhia. E muito mais.
Em contrapartida, na maior parte dos casos, a velhice contempla seus indivíduos com uma reserva de serenidade, que vem do desapego, que aplaca a ansiedade e traz sossego. Poxa, isso é realmente bem sensacional! Mesmo assim, é inegável que a humanidade se encontra, desde sempre, diante de uma injustiça brava, configurada. Especialmente porque as dinâmicas do planeta, portanto, pertencem e são dominadas por aqueles que ainda não envelheceram demais.
E isso, poxa… isso não é legal — o que justifica minha mais nova e utópica proposta, que, assim exijo, deverá ser levada em conta no caso de, algum dia, o mundo precisar ser refeito, começar tudo de novo.
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Neste ponto, abandono a modéstia para anunciar que minha ideia é totalmente original e absolutamente viável. Além disso, é de facílima execução pelo Criador (que, como sabemos, tem um portfólio pra ninguém botar defeito, e ainda por cima é onipotente).
Não será preciso mexer em muita coisa na natureza do homo sapiens, não, nada disso. Em respeito à inevitável finitude da vida como a conhecemos, não ousaria reforçar a saúde universal da humanidade, nem nossas potências. Entendo que a debilitação orgânica do corpo e da mente, assim como a gradativa indisposição generalizada, que tem como consequência a aceitação de tudo isso, são mecanismos gentilmente programados para que nos desliguemos, aos pouquinhos, da vida terrena.
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Eis então, e finalmente, o pulo do gato para um novo planejamento da nossa espécie (lembrando que meu projeto buscou criar uma vantagem significativa para os mais idosos, sem afetar o ciclo de vida humano ou causar desequilíbrios de quaisquer ordens):
Um perfume natural unanimemente sublime; suave e ao mesmo tempo enfeitiçante, que a cada dia irá se tornando ainda mais agradável. Mas não é só isso: tal elixir funcionará também como um purificador do ar ambiente. Trará frescor, bem-estar — e até paz.
Eu explico. Na minha nova versão do ser humano, já por volta dos 35 ou, no mais tardar, aos 40 anos de idade, passa a ser perceptível o comecinho da produção, pelo organismo, de um cheiro biológico agradável — que, progressivamente, anula nossos odores corporais característicos. Aqueles que a gente se habituou a detestar.
Dessa forma, aos 50 anos de idade, todos seriam dotados de uma virtude incrivelmente sedutora:
“Olha só como o fulano envelheceu: está calvo, enrugado e desgastado. E que cheiro maravilhoso tem esse fulano!”
Seria mais ou menos assim.
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Sobrarão vagas para os velhos que desejarem trabalhar. As mais requintadas lojas terão um ou dois anciãos sentadinhos, num cantinho, em um confortável sofá — climatizando a atmosfera local, suavizando o ambiente, atraindo clientes. Bares mais simplórios contratarão senhores e senhoras para ficarem ali, como bem quiserem estar, anulando o cheiro de cerveja velha e a presença de moscas.
Os governos dos países que tiverem mais dinheiro disponível prospectarão pessoas cada vez mais antigas. (Cheguei a imaginar uma corrida silenciosa disputada pelos Estados Unidos e a União Soviética, em que as potências se empoderariam quanto mais atraíssem cidadãos centenários).
E por falar em poderio, reuniões entre veteranos de guerras antigas serão como espetáculos de essências corporais, bem como encontros de ex-colegas aposentados e decanos de toda ordem, além de bailes da terceira idade, serestas e shows do Roberto Carlos (pressupondo, obviamente, que Roberto Carlos siga sendo o cantor favorito dos idosos no universo hipotético que descrevo).
Consultórios especializados oferecerão terapias de aroma, visando ao relaxamento e à cura, em recintos onde se convive e se respira com anciãos. Nas cidades mais culturais, serão promovidos festivais de imersões olfativas, reunindo protagonistas que, de tão velhinhos, mal conseguirão entender o que se passa...
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Registro e encerro aqui, por ora, meu esboço que, indubitavelmente, vai aprimorar a reescritura da vida, no caso em que ela venha a se fazer oportuna — lembrando que coisas absurdas podem acontecer, é bom estar sempre atento.
Se o dia desse absurdo enfim chegar, sugiro, a quem puder ou souber dar encaminhamento à instância competente, que o faça, com independência, ou que busque minha consultoria na infinita grande rede onde ninguém está escondido.
É isso.
domingo, 5 de fevereiro de 2023
A lição que deu o Jonas
Andejando lento, meu horizonte era o prédio das Humanidades, que ficava longe, bem longe. Acho que eu nem queria mesmo chegar ao destino, não.
Sentia-me como na iminência de um duelo sangrento com o professor Jonas Queiroz em seu gabinete. Isso porque o danado não me aprovara, no semestre regular, em sua disciplina, que tratava da formação histórica brasileira. A missão daquele dia era, pois, consumar sua prova final – aquele exame indesejado, que fazemos nas férias, quando não há mais nem um paralelepípedo na universidade, e que pode determinar a falência total de nossos órgãos.
Todos sabemos que quando você caminha sozinho no campus, e vai tentar sua última cartada na prova final de uma disciplina, os cachorrinhos vadios de Viçosa e toda a Via Láctea cochicham, no interior da sua mente, que você é um indigno ou, como queira, um desprezível filhadaputa. Afinal, nem mesmo os insetos merecem fazer prova final, durante as férias, no campus. Debaixo do céu solitário e cinzento. Em pleno outubro.
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A memória errante caçava, então, desvendar as circunstâncias que me haviam conduzido àquela situação. Nesse ponto, digo e reafirmo que eu fora injustiçado, já que havia me preparado como um atleta para a terceira avaliação regular do professor Jonas, depois da qual todos os filhos de Deus se tornariam aptos a gozar suas férias. Juro que meu teste havia sido irrepreensível! Escrevi quatro folhas das quais babava o conhecimento, frente e também verso. Juro que eu sofrera a maior das injustiças! Isso eu juro pelo amor dos meus dois miseráveis filhinhos! E juro nesses termos para deixar bem fiável o meu juramento.
Ainda assim, como o leitor já percebeu, Jonas Queiroz, tão feroz, não me aprovou. Meu castigo foi a compulsória e maldita prova final.
Justamente por causa disso, naquele dia nublado eu estava possesso de raiva quanto às alegações de um tal Gilberto Freyre. Esse autor, se hoje não me falha a memória, falava sobre coisas belas que prevaleciam no Brasil-colônia, como o ar da África, um ar quente e oleoso, que amolecia as durezas germânicas, corrompendo a rigidez moral... Como bem sabemos, essa conversa é típica de um legítimo vigarista ou, se o leitor preferir, um legítimo cafajeste. Determinado em ser aprovado no mais curto dos prazos, estudei a ponto de saber tudo sobre o assunto.
Ainda assim, Jonas Queiroz, tão insensível algoz, não teve piedade. E minha pena era estar solitário em Viçosa durante aquela tarde sombria, submetido à chance derradeira, também conhecida como prova final.
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Divagava eu sob o céu pesado enquanto seguia como um bovino a caminho do abate. Ou como um crucificado a caminho da crucificação. O corolário do triunfo do perverso docente sobre toda a humanidade. Refletia, entre outras coisas, sobre a revolução técnico-científica, e até onde ela nos levaria. Meditava sobre a burguesia, a aristocracia, o pacto colonial.
Sobre os olhos tropicais de Jaqueline.
Ruminava eu, naquele contexto, a respeito da maneira como subsistira a colonização, a escravidão e, claro, o monopólio comercial. E a respeito da falta de caráter de alguns estudantes, da qual se queixara Jonas Queiroz – sempre tão atroz. A Inconfidência Mineira, a Revolta da Vacina, a Revolta de Canudos.
Revoltado, eu me recordava dos lábios carinhosos, da voz penetrante e da pele branquinha de Jaqueline.
Quando você anda no campus deserto, indo fazer, sozinho, uma prova final, você pensa nos colegas que já foram premiados e estão longe, de férias. Você procura no firmamento, por trás das nuvens, um satélite que transmita a onisciência deles para você. Mas isso não passa de uma tolice, posso garantir.
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Desconjuntado, então, adentrei o edifício do Departamento, na justa hora agendada pelas partes. Lá estava Jonas Queiroz, de expressão tenaz, como uma serpente à espreita de um descuido da sua presa. Também lá estava uma mulher que havia sido minha professora no ensino médio.
"Ah, esse garoto é peça rara. É um bom menino".
"É mesmo? Pois pergunte a ele o que faz aqui".
A ironia de Jonas Queiroz, mais seu silêncio fugaz, quase despedaçou minhas esperanças.
Entregou-me a avaliação. Eu o mirava feito um boxeador. Ele se esquivava, seu olhar ricocheteava pela sala. Que diabos seriam as limitações do conceito de família patriarcal? E quanto ao padrão de privacidade de Sevcenko? Salvo engano, esse sujeito é centroavante do Chelsea... Teria o jogador, fora das quatro linhas, um padrão de privacidade diferente dos demais mortais? Quais foram as pressões sofridas pelo antigo sistema colonial para a emancipação política? Opa, essa eu sei mas...
"O tempo já foi", encerrou Jonas Queiroz, cruelmente veloz.
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Permaneci apreensivo durante alguns dias, e devo informar que passei nessa prova final, com 75% de nota, já que respondi três das quatro questões, com maestria, e deixei a outra em branco. Devo dizer também que Jaqueline, que povoava meu pensamento em outubro de 2006, a ponto de tirar-me o foco das demais coisas da vida, segue sendo muito graciosa, e hoje é uma cantora famosa.
Por fim, devo esclarecer que não tenho filhos e, por isso mesmo, não considerei que houvesse problema algum em jurar por eles – seres, assim, fictícios – que eu fora vítima de um julgamento vil e impertinente do professor Jonas, no contexto provisório em que ele me desaprovara no conjunto das avaliações regulares de sua disciplina.
A bem da verdade, ao longo de uma conversa franca e proveitosa que estabelecemos em seu gabinete naquela tarde da prova final, Jonas me ensinou sobre a importância de um conceito que, segundo ele, era comumente negligenciado, tanto por estudantes, quanto por vestibulandos ou concurseiros: a objetividade.
Responder àquilo que está sendo perguntado – definiu ele – em vez de encher quatro folhas com coisas que não estão sendo perguntadas.
O ensinamento pode parecer simples ou banal, mas atesto que é valioso demais, e capaz de nos livrar de armadilhas ao longo da vida, em diversas searas. Devo ao Jonas, portanto, parte das coisas bem sucedidas que conquistei por aí.
Essa foi a lição que deu, pela qual, muito grato, agradeço, o professor Jonas Queiroz – definitivamente, um homem sagaz.





